Texto de orientação
O que há de novo e itera nas psicoses?
Fernanda Costa[1]
Em que a psicose contribui para uma leitura da prática psicanalítica e do mundo de hoje? Essa estrutura clínica e suas manifestações permaneceram as mesmas ao longo do ensino de Lacan ou passaram por mutações? E por que isso aconteceu? No contexto atual de desinvestimento nos diagnósticos sustentados pela clínica (MILLER, 2022: 09), o que nos leva a propor essa discussão?
Se acompanharmos o ensino de Lacan, constatamos que a concepção da psicose se modificou ao longo do tempo. Miller (2012, 242) continua nessa via ao introduzir a noção de “psicose ordinária”. Recentemente, com a proposta do próximo Congresso da AMP “Todo mundo é louco”[2] (MILLER, 2022: 08), somos convidados a revisitar o campo do diagnóstico diferencial e colocar à prova se, e como, ele ainda responde ao real de nossa prática. Ou seja: “o que há de novo nas psicoses…ainda”?
O que na novidade itera?
Não há dúvidas de que é fundamental observar o que muda nas flutuações dos tempos. Contudo, para cingir o novo em psicanálise, sabemos que é essencial notar seu movimento espiral, situando na novidade o que itera. A hipótese é que a noção de foraclusão possa contribuir para essa investigação.
Lacan extraiu o termo foraclusão da Verwerfung freudiana. Embora Freud não tenha sido incisivo quanto à descontinuidade dos diagnósticos entre neurose e psicose, ele foi categórico ao marcar uma distinção entre Verwerfung e recalcamento (Verdrängung). No caso do Homem dos Lobos, afirmou com todas as letras: “um recalcamento [Verdrängung] é algo diferente de uma rejeição [Verwerfung]” (FREUD, 2023: 717). Portanto, desde que foi postulada por Freud, a Verwerfung marcou uma especificidade e uma distinção em relação ao recalque, a defesa clássica da neurose.
Ao retomar o caso do Homem dos Lobos em seus Escritos, Lacan (1998) enfatizou tal distinção a partir da cena da “alucinação” (FREUD, 2023: 724) do dedo cortado. Reconheceu, na perplexidade então experimentada pelo Homem dos Lobos, uma “impossibilidade” (LACAN, 1998: 392) de resposta no campo da fala e a atribuiu à Verwerfung. Assim, esta foi elevada à dignidade de um conceito e considerada como uma “supressão” da relação com o simbólico (LACAN, 1998: 388).
Contudo, foi apenas a partir do estudo do caso Schreber que Lacan formalizou a Verwerfung como a forma de defesa específica da psicose e conferiu-lhe uma versão “jurídica” (MILLER, 2011), propondo-lhe a célebre tradução de “foraclusão” (LACAN, 2002: 360). Esta fazia menção ao campo jurídico-processual e, no âmbito psicanalítico, referia-se à prescrição da lei paterna quando não foi possível servir-se dela em um determinado prazo para metaforizar o desejo materno em uma significação fálica. Logo, Nome-do-Pai e falo evocam referências do discurso corrente, mas Lacan lhes confere uma articulação simbólica com a existência. A foraclusão desses recursos demarca uma falha no simbólico e deixaria o sujeito exposto, tal como Schreber, a “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida”. (LACAN, 1998: 565).
Vale notar que, mesmo nesse contexto do ensino de Lacan no qual o simbólico tinha uma prevalência, reconhecemos, por uma leitura diacrônica, que os efeitos da foraclusão não se restringem a esse registro. É impossível separarmos o sentimento de vida de uma materialidade pulsional, de um gozo que age sobre o corpo. Como comentou Elisa Alvarenga, por ocasião da primeira Atividade Preparatória da 26ª Jornada da EBP-MG, “a desordem no sentimento mais íntimo” tem efeitos de mortificação sobre o corpo, tanto que Lacan a formula a partir da experiência do “assassinato de almas” relatado por Schreber. Por outro lado, quando Schreber, encontra a “solução elegante” (LACAN, 1998: 578) de ser “A mulher de Deus” através de seu trabalho delirante e de escrita, isso ordena sua realidade e tem efeitos vivificantes. Como comentou Ram Mandil também no contexto das discussões rumo a essa Jornada, Schreber cria uma nova “Ordem do Mundo” (SCHREBER, 1995: 64), um mundo no qual é possível viver.
A dimensão do corpo e do gozo parecem ganhar ainda mais destaque quando cotejamos a frase sobre tal desordem e o que se desenvolve no Seminário 23, onde ela parece manter sua pertinência e ampliar seu alcance. Da mesma forma que, nesse mesmo Seminário, e não por acaso, o conceito de Ververfung foi revisitado e ampliado.
Sabemos que um dos elementos que contribuiu para esse reposicionamento foi a nova articulação sobre a função do pai. No tempo de seus Escritos, Lacan se serviu dos casos do Homem dos Lobos e de Schreber para formalizar sobre a Verwerfung. Podemos pensar que o tipo de impasse encontrados por esses pacientes, em suas perplexidades diante do enigma do desejo materno e do gozo, valorizava o Nome-do-Pai e o falo, mesmo que esses recursos lhes estivessem foracluídos e, portanto, simbolicamente ausentes. Por sua vez, no Seminário 23, sabemos que as elaborações de Lacan foram conduzidas pela escrita de Joyce e o que se transmite do “rateio” (LACAN, 2007: 147) do “nó” borromeano. Neste rateio, a “desordem na junção” evocaria “outras foraclusões diferentes daquela que resulta da foraclusão do Nome-do-Pai” (LACAN, 2007: 117). Desta forma, o acento desloca-se da desordem, referida ao simbólico, para recair em uma pergunta sobre a junção: afinal, em que condições os nós mantêm-se juntos? (Miller, 2014: 252-252). Simbólico, imaginário e real passam a ter mesma importância, sendo que os dois primeiros são semblantes e “resistem” (LACAN, 2007: 49) ao terceiro. Nesse novo contexto, “o real só tem ex-sistência ao encontrar, pelo simbólico e pelo imaginário, a retenção”. (LACAN, 2007: 49).
A pluralização da foraclusão
Dentre as novidades relativas à foraclusão, Lacan cita uma Verwerfung “mais radical” (86) apreendida dos escritos Joyce. Para Laurent (2011), a “Verwerfung de fato” foi demonstrada por aquele escritor e teria seus efeitos mais localizados no âmbito do ego, referindo-se menos ao simbólico e mais ao imaginário, à uma ausência da “ideia de si como um corpo” (LACAN, 2007: 146).
Em “Efeito de retorno à psicose ordinária”, Miller (2012) fornece algumas chaves para desdobrar essas elaborações. Cito o trecho que foi a inspiração para o cartaz da próxima Jornada da EBP-MG: “a desordem mais íntima é essa brecha na qual o corpo se desfaz e onde o sujeito é levado a inventar para si laços artificiais… para ‘prender’ (serrer) seu corpo a ele mesmo… ele tem a necessidade de um grampo para se sustentar com seu corpo.”[3] (MILLER, 2012: 414).
Logo, parece que um dos motivos pelo qual a escrita de Joyce interessa a Lacan, é porque o psicanalista pôde ler a especificidade do lapso no nó desse escritor, mas também e, principalmente, a genialidade joyceana em encontrar, exatamente no que rateia, falha, não se amarra, um artifício que se apresenta como uma “conjunção” (LACAN, 2007: 16), um grampo.
Outro desdobramento que nos interessa dessa pluralização da Verwerfung seria a concepção de uma “foraclusão generalizada” (MILLER, 2010: 30). Sabemos que, para os seres falantes, nascer geneticamente homem ou mulher não determina nem a identidade sexual, nem a escolha de objeto. Por sermos afetados pela linguagem, os determinismos e as universalizações no campo da sexualidade não se impõem de modo tão decisivo para nós. Ou seja, estamos todos marcados pela condição de que “não existe a relação sexual”. Esta relação está foracluída para todos, e isso nos reverbera como um trauma.
Tal como comentou Ram Mandil ainda em uma discussão a propósito dessa 26ª Jornada, na foraclusão generalizada sublinha-se o que não faz relação, ou seja, o que resiste a uma amarração. Refere-se àquilo que irrompe do trauma, que testemunha um real para o ser falante. Se Lacan afirma que todo mundo é louco é porque _diante dessa não relação fundamental_, toda construção no campo do sentido (que relaciona significante e significado), em última instância, só pode ter a estrutura de um delírio (seja este composto por um discurso estabelecido ou por uma invenção radicalmente particular).
O que há de novo?
Com esse percurso, é possível concluir que nossa pergunta sobre o que há de novo não se restringe às psicoses. Trata-se de uma aposta que essa estrutura clínica, ao nos ensinar sobre sua experiência com o real, contribui para a leitura de nossa prática e dos nossos tempos. Percebemos, com a foraclusão de fato e a foraclusão generalizada que a Verwerfung se pluraliza e deixa de concernir somente a um mecanismo de defesa da psicose. Consequentemente, abre-se todo um campo de investigação para nossa Jornada que, ao se valer do declínio do Nome-do-Pai e da queda do falocentrismo no mundo contemporâneo (LAIA, 2023), interessa-se particularmente por essa possível pluralização.
Miller (2015) “Em direção à adolescência”, comenta algumas consequências daqueles declínios que nos interessa. Afirma que “…segundo o espírito da época…Tudo é artifício do significante. Esta nossa época é muito incerta quanto ao real. Ocorre-me dizer que é uma época que nega, de boa vontade, o real, para admitir apenas os signos, que são desde então igualmente semblantes. A originalidade de Lacan foi a de articular o par ‘semblante’ e ‘real’” (p. 01). Essa é uma outra forma de elaborar o que Lacan observa sobre o fato de o real só ter “ex-sistência” ao encontrar, pelo simbólico e pelo imaginário, seu limite. No caso da neurose, o Nome-do-Pai e falo se encontram no campo dos semblantes e como ferramentas provenientes do discurso compartilhado, servindo-nos para coordenar, traduzir algo do gozo. Dizer que nossa época é incerta quanto ao real também é uma referência ao fracasso dos semblantes mais tradicionais nessa articulação com o real.
Podemos indagar, por exemplo, se as flutuações que encontramos no campo da sexualidade não seriam, de certa forma, consequência dessa desarticulação, do desgaste das clássicas ferramentas extraídas do discurso estabelecido. Diante da inexistência da relação sexual, percebemos, com cada vez mais frequência, uma pluralização das soluções que indicam uma maior flutuação no campo da sexualidade e não se restringe de forma alguma à psicose. O binômio feminino-masculino, que se apoia em semblantes sustentados por uma lógica fálica, torna-se uma forma dentre várias para localizar e coordenar algo do gozo. Encontramos o mesmo movimento fluido no campo das escolhas de objeto. Assim, se a inexistência da relação sexual pode ser entendida como foraclusão generalizada, verificamos que ela tende a estar mais explícita nos tempos atuais.
Como aos analistas não cabe a nostalgia, interessa-nos avançar nessas pesquisas, instigados a recorrer à psicose (que não conta com o Nome-do-Pai e com falo em suas abordagens da não relação sexual) para ajudar-nos em uma leitura do nosso mundo e de seus rumos. Da mesma forma que fica claro como a noção de um “grampo”, recurso que passa ao largo daquelas referências clássicas (do Nome-do-Pai e do falo), pode contribuir para investigarmos as vicissitudes do corpo na contemporaneidade.
Além dessas questões sobre o corpo e das flutuações no campo da sexualidade, cabe uma discussão sobre o diagnóstico. Sabemos que o DSM, Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, embora esteja em crise, ainda é atualmente a referência dentre os “diagnósticos protocolares” (LAIA, 2003). Baseado na corrente lógica-positivista, esse Manual pretendeu forjar uma língua transparente, sem equívocos, eliminando qualquer mal-entendido. Para tanto, seus fundamentos seriam a-teóricos e a-históricos, fundamentados apenas na estatística. Um dos objetivos era exatamente eliminar as ambiguidades do modelo psicanalítico que seria ineficaz por resistir à padronização, já que não tem a normalidade como referência. Allen France, responsável pelo DSM IV, queixava-se de que, para Freud “não se é jamais totalmente normal” (FRANCES, apud LAURENT, 2019: 59). A esse respeito, France tem razão sobre o que depreendeu da psicanálise, e como observa Laurent (2019), é isso que “Lacan radicaliza com seu ‘Todo mundo é louco, quer dizer delirante” (59- tradução livre).
É oportuno, então problematizar, a metodologia do DSM e sua eficácia, já que este manual, segundo seus próprios criadores, demonstrou muitas falhas. Uma delas destaca o fato de que embora DSM tenha sido bem-sucedido em criar uma “língua perfeita”, esta falha em medir outra coisa que não ela mesma. (Laurent, 2019: 62). Nesse sentido, o DSM é um exemplo do puro semblante dos nossos tempos incertos do real.
Como vimos, a língua que interessa à psicanálise, é exatamente o oposto daquela do DSM. A contribuição da psicanálise repousa exatamente na forma singular, inventiva com que cada ser falante habita a linguagem e de como se serve dela para fazer suas amarrações. Assim, se a linguagem afeta e perturba, também é a partir dela que, segundo a psicanálise, podemos encontrar um tratamento desse trauma. Entretanto, ao fazê-lo pela via dos discursos, existe uma perda nessa tentativa de tradução: deixa-se de fora o gozo que é índice de um real que “não se liga a nada” (LACAN, 2007: 119). Logo, o analista, testemunha que, de certa maneira, cada falasser (e não só o psicótico) precisaria de uma invenção na junção entre simbólico, imaginário e real.
Ao afirmar que “é de suturas e emendas que se trata na análise” (LACAN, 2007: 71), Lacan indica que a psicanálise pode contribuir nesses arranjos, nessas amarrações. Nossa 26ª Jornada pretende investigar o que há de novo e itera nas psicoses, mas também na função do psicanalista nos tratamentos que conduz e na leitura que realiza dos nossos tempos. Enfim, espero que cada um se sinta provocado a contribuir com seu grão de sal para essa investigação.
AVDELIDI, D. La psychose ordinaire: la foraclusion du Nom-du- Père dans le dernier enseignement de Lacan , Presses Universitaire de Renne Ed., 2016.
FREUD, S. “Da história de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos)” In: Histórias Clinicas: cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2022. (631-774)
LACAN, J. O Seminário, livro 3: As psicoses”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
LACAN, J. O Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse dos semblantes”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
LACAN, J. O Seminário, livro 23: Joyce, o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007 (139-151).
LACAN, J. “Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de Freud” In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. (381-401)
LACAN, J. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível na psicose”. In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. (537-590).
LACAN, J “Transferencia para Sait Dennis. Lacan a favor de Vincennes!”. In: Correio Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, número 65, 2010.
LAIA, S. “Por que as psicoses…ainda”, 2023. Acesso AQUI
LAURENT, E. “La translation diagnostique et le sujet”
MILLER J-A. “Parlament de Montpellier”(2011), inédito
MILLER, J-A. “Clínica Fluida”. In: A psicose ordinária. BATISTA, M. e LAIA (org.), Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. (399-426)
MILLER, J-A. “Efeito de retorno sobre a psicose ordinária”. In: A psicose ordinária. BATISTA, M. e LAIA (org.), Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. (399-426)
MILLER, J-A “Todo mundo é louco- AMP 2024”. In: Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, Dezembro, 2022.
MILLER, J-A El ultimíssimo Lacan, Buenos Aires: Paidos, 2014.
MILLER, J-A “Foraclusão generalizada”. In Todo mundo delira. BATISTA, M. e LAIA (org.) Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2010. (399-426)
SCHREBER, D. P. Memórias de um doente de nervos, São Paulo: Paz e Terra S/A, 2006.
[1] Texto apresentado na primeira Atividade Preparatória da 26ª Jornada da EBP-MG (04/05/2023) e adaptado para o formato online. Vale observar a contribuição das excelentes discussões do cartel do Eixo 1 dessa Jornada: “O mundo rumo às psicoses”. Este é composto por mim, Ana Lydia Santiago, Bernardo Micherif, Paula Pimenta, Ram Mandi (Mais- Um) e Renata Mendonça.
[2] Nome do próximo Congresso da AMP (Associação Mundial de Psicanálise) que acontecerá em 2024. Este título foi extraído do breve texto de Lacan (2010) “Transferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes”, publicado na Correio Revista da Escola Brasileira de Psicanálise número 65.
[3] Vale observar, tal como recuperou Helenice de Castro, que no original, podemos ler “il a besoin d’um serre-joint pour tenir avec son corps” (MILLER apud Avdelidi, 2016: 248- grifo nosso). Isso interessa, pois, uma das traduções de serre-joint é braçadeira, esta do cartaz, que nos serve de forma tão cotidiana e ordinária para prender, incluindo a constrição e o furo.