Texto de orientação

EIXO 2: A arte de saber ler.

Comentários ao Relatório “Diagnosticar e despatologizar” [1].

por Fernanda Otoni-Brisset


Podemos ler na proposição deste eixo um desdobramento dos ecos da conferência de Jacques-Alain Miller, “Todo mundo é louco”, quando ele comenta que a ideologia contemporânea da igualdade universal dos seres falantes já estava escrita em Lacan ao evocar que a fraternidade possível é aquela que considera que sempre somos por demais desiguais. Quando tal real não é considerado, a clínica desaparece e, por efeito, há uma despatologização generalizada sob a bandeira dos ‘todos iguais’. Lacan revira o zeitgeist ao dizer: “Todo mundo é louco” e acrescenta, “ou seja, delirante”. Esse acréscimo que segue ao aforisma, comenta Miller, “não deixa de fazer ressoar, porém, algum ruído”. Temos, então, nesse universal algo que range. Miller nos convida a seguir esse “algo a mais, e talvez diferente, da validação da dita despatologização” (MILLER, 2022, p. 10).

Para seguir na pista desse algo a mais e salvar a clínica do empuxo à despatologização generalizada, ele propõe dois níveis de leitura: um que se afirma como absoluto – todo mundo é louco –, uma tese conforme o ar dos tempos. E outro, para fazer frente à desordem, em um nível abaixo, onde estariam as hipóteses, lugar do relativo. “As distinções da clínica seriam conservadas a esse nível, subordinado à hipótese” (MILLER, 2022, p. 11), ou seja, subordinadas a esse algo a mais relativo ao que range no universal. Mas a que Miller se refere ao evocar as distinções da clínica?

 

Seriam as distinções da clínica, distinções de diagnóstico?

Chama atenção a ausência do termo ‘diagnóstico’ na conferência de Miller. Fui a Lacan e rastreei dos Escritos aos Seminários e tampouco encontrei uma deferência digna de nota, nada conceitual. E a partir de 1966, o vocábulo parece que evaporou. Curioso! Retornei ao texto “Efeito do retorno à psicose ordinária”. Ali o termo ‘diagnóstico’ surgiu, uma única vez, no contexto de uma pergunta de Vyacheslav Tsapkin a Miller. Tsapkin tenta alertá-lo para o uso abusivo que poderia ser feito da expressão psicose ordinária, a exemplo de um antecedente na antiga União Soviética, a saber, uma teoria que trazia a ideia de psicose de progressão lenta, incitando os psiquiatras a irem em busca dos indícios menores. “Eles perguntavam: Qual o seu autor preferido? E se a resposta fosse: «Bem, gosto muito de Kafka», o psiquiatra não tinha a menor dúvida sobre o diagnóstico. Desse modo, os dissidentes eram considerados psicóticos, por razões óbvias.” Miller, em resposta, esclarece o contexto em que inventou a expressão psicose ordinária e diz: “Eu me lembro bem do psiquiatra soviético que deu seu diagnóstico ao leitor de Kafka. A União Soviética era em si um delírio! […] Era uma realidade delirante” (MILLER, 2010, p. 25-26).

Lemos aí o trabalho do cartel em seu marco epistemológico: “todo discurso normativo é delirante, incluindo o que se apoia no Nome-do-Pai” (ALVARENGA, 2023). E citando Lacan, o relatório enfatiza que “delirar não é exclusivo da psicose, não havendo discurso de loucura mais manifesto e mais sensível que o dos psiquiatras e precisamente acerca da paranoia” (ALVARENGA, 2023).

Todavia, Miller, nesse sopro que reúne o diagnóstico a uma realidade delirante, abriu-me uma outra porta de entrada. Em sua conferência, quando retoma Freud para se referir ao princípio de realidade, Miller (2022, p. 16) disse que esse é, em si mesmo, um modo de “salvaguarda do princípio do prazer, de dar-lhe prosseguimento”. O que se alcança com a substituição do princípio do prazer pelo princípio da realidade é sempre o mesmo – (lustgewinn) – o mais-de-gozar lacaniano, páthos “impossível de negativizar pelo princípio da realidade” (MILLER, 2022, p. 17). Isso que não cessa de se satisfazer e se modula em cada um quando se põe em forma. Eis aí uma distinção da clínica a perseguir.

Uma das chaves para seguir a distinção própria à experiência analítica foi-nos entregue por Fernanda Costa quando aponta o dedo na direção do que acontece no nível da junção mais íntima, pois é “de suturas e emendas que se trata uma análise, logo, o analista, testemunha que, de certa maneira, cada falasser (e não só o psicótico) precisaria de uma invenção na junção entre simbólico, imaginário e real” (COSTA, 2023). Podemos dizer, afinal, que as psicoses ordinárias e as outras, neuroses e psicoses, são, a um só tempo, “saídas diferentes para a mesma dificuldade do ser” (MILLER, 2012a, p. 242).

Nessa direção, o relatório afirma que “diagnosticar é discernir a estrutura; concerne, portanto, à função da causa” (ALVARENGA, 2023). Tomei essa afirmação como uma bússola para ler a clínica que se distingue por seu fazer verdadeiro, cujo norte, diferente da validação da dita despatologização que desconhece o real, aponta para o ressoar do impossível de negativizar que range. Uma clínica como tal segue se perguntando sobre “o que mantém junto o que por si só se encontra separado e que define o mistério do falasser”. Seguindo essa linha, o cartel interroga:

A herança da clínica psiquiátrica, da qual historicamente nos servimos, parece pesar hoje sobre nossas costas. Seria preciso, então, inventar uma outra terminologia, livre da conotação patológica do ato de diagnosticar? Em que medida o paradigma dos nós permitiria esse avanço e essa liberação? (ALVARENGA, 2023)

Encontramos aqui uma trilha para interpretar a ausência, no último ensino de Lacan, de qualquer deferência ao termo ‘diagnóstico’? Seria tal ausência um apagamento do seu sentido, por ser clinicamente necessário, em favor de clínica dos nós, das conexões sem sentido, efeito de uma contingência? Há algum tempo, tenho me interessado em investigar no ensino de Lacan como a querela do diagnóstico foi empalidecendo-se à medida que a lupa da investigação analítica foi se deslocando para a leitura do funcionamento do falasser:

A passagem da clínica diferencial à borromeana de forma alguma nos permite apagar o modo neurótico ou psicótico de ser, mas exige-nos seguir a finesse dos pequenos sinais, indícios de pinças, amarras ou nós, numa investigação permanente, atentos ao singular do sinthoma, a encarnação do que há de mais singular em cada falasser. A lanterna se desloca da querela do diagnóstico para iluminar o real no interior do tratamento; a pergunta se desloca do “o que será que ele é”, para “como é que ele funciona”. Uma clínica do funcionamento, das conexões, dos ínfimos detalhes em que o toque de singularidade é a bússola (OTONI-BRISSET, 2023).

Se nos valermos do que Lacan formalizou em seu último ensino, o paradigma dos nós, poderíamos prescindir do termo ‘diagnóstico’ para nos servir do que há de novo e que distingue a orientação lacaniana? Sabemos que a psicanálise é uma experiência de linguagem que não desconhece os efeitos dos significantes-mestres na sua textura. Imiscuir em sua tessitura significantes novos, com potência para remexer o tecido, fez ler, dizer e operar com o mesmo de uma nova maneira. Foi o esforço de Lacan.

Proponho, por exemplo, no lugar do termo ‘diagnosticar’, tomarmos o que Miller formaliza e nos entrega como “saber ler um sinthoma” (MILLER, 2011). Quais efeitos podemos recolher da incidência do saber ler na distinção da clínica do falasser, quando a posição do analista se mostra orientada em discernir a estrutura em sua função de causa?

 

Saber ler

Éric Laurent, na conferência de Barcelona, “Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência”, sublinha que “o analista não deve esquecer que não é seu ser que move a operação analítica” (LAURENT, 2018, p. 55), pois, citando Lacan, esclarece que “aquele que sabe é, na análise, o analisando e o analista entra aí como um Outro que segue (suit)” (LACAN, 1977/1979, p. 18). Podemos extrair dessa formulação de Laurent quanto ao lugar do analista nas loucuras sob transferência uma distinção precisa que desinstala o analista da encruzilhada da querela do diagnóstico, do fascínio do ser, e o instala como aquele que segue o que há, do lado da existência, como testemunho do que range e não cessa de não se escrever do lado do falasser, e que requer do analista saber ler.

O saber ler visa o choque inicial, que é como um clinâmen do gozo. […] é o que está nas origens do sujeito, é de certo modo o acontecimento originário e ao mesmo tempo permanente, isto é, ele reitera sem cessar. […] a raiz do sintoma. É nesse sentido que Lacan pôde dizer que um sintoma é um et coetera. Isto é, o retorno do mesmo acontecimento. Pode-se fazer muitas coisas com a reiteração do mesmo. Precisamente, pode-se dizer que o sintoma é, neste sentido, como um objeto fractal, pois o objeto fractal mostra que a reiteração do mesmo pelas aplicações sucessivas lhes dá as mais extravagantes formas (MILLER, 2011).

Ler um sinthoma é saber ler a reiteração inextinguível do mesmo Um que não cessa de se satisfazer nas mais extravagantes formas, é ler o que se passa na raiz, irredutível e inapreensível, que range enquanto se expande, nas formas fractais que percutem sua existência. O furo original está para todos e, por efeito, para a inconsistência corporal, a inconsistência do Outro e do Mundo.

O real da não-relação tem por consequência o fato de que “só há diferentes maneiras de falhar” (MILLER, 2005, p. 14) e a cada uma dessas maneiras correspondem diferentes modos de o falasser responder à forclusão restrita ao Nome-do-Pai ou a generalizada que diz respeito a esse vazio central. A clínica em Lacan, como a de Freud, fica de pé a partir desse real causal, originário da imiscuição da língua no corpo, choque inicial da sua percussão/perdição, raiz da desordem, raiz do trauma, bem como ponto de partida do nó. Como bem disse Jésus Santiago, “não basta diagnosticar a inexistência do Outro”:

A presença do ato analítico na contemporaneidade exige uma mudança de paradigma clínico, sobretudo no âmbito da transferência, na medida em que seu exercício passa a ser correlativo da dimensão do real que falha incessantemente. […] Se cada vez mais os sintomas se tornam um affaire de significante mestre (S1), é exigido do psicanalista um suposto saber ler de outra forma [LACAN, 1978], uma vez que é preciso saber ler a materialidade deste, isto é, em que o significante mestre se consubstancia na letra que produz o acontecimento de corpo. Diante da prevalência do sintoma cuja economia de gozo é o acontecimento de corpo, o núcleo da transferência desloca-se da suposição do saber decifrável para a suposição de saber ler de outra forma o sintoma (SANTIAGO, 2023a).

Nota-se, então, que a distinção da clínica que nos interessa não é a que se reduz à distinção do diagnóstico estrutural, se há ou não a presença da forclusão do Nome-do-Pai, neurose ou psicose. Lacan, à medida que avança em seu ensino, nos convoca a saber ler como numa mesma estrutura se passa e se comporta o impossível de apreender. O mesmo pode satisfazer-se de outra maneira, num laço social possível, enlaçado à raiz do sinthoma.

Saber ler como o sinthoma entra em forma, como esse “h” se comporta, permite discernir a estrutura em sua função de causa e ressaltar o modo de funcionamento singular do falasser, seu mistério, em manter junto elementos heterogêneos, o gozo e o Outro, pois a “estrutura comporta furos e, neles, há lugar para a invenção, para algo de novo, para os conectores que não estão ali desde sempre” (MILLER, 2012b, p. 48). Assim, seja com o Nome-do-Pai ou com o que quer que lhe substitua, “todo falasser inventa à sua maneira uma forma singular e única de dar consistência ao que não tem consistência e de remendar o que se apresenta como o verdadeiro furo, S(Ⱥ)” (ALVARENGA, 2023).

Algo disso se passou com Gaston: depois de uma separação traumática, tentando se arranjar com a percussão da desordem e se defender do real, ele excede na montagem de um super ameaçador. Vai preso. O Outro da lei carimba o real com o nome “louco infrator inimputável” – S1 que ativa no corpo um turbilhão do gozo que se fixa ao modo de uma identificação rígida e, ao que parece, ele tentava anestesiar com o uso abusivo de drogas e o abandono do corpo. Do encontro com um analista atento ao que nele vibra como causa, aos poucos, ele reintroduz no seu mundo seu lugar como artista – que funciona como um conector singular a pôr em forma a substância da desordem de uma boa maneira, repara o nó. “Ele deixa de ser louco” (ALVARENGA, 2023), diz o relatório. [Será que deixamos de ser loucos – ou nos arranjamos com a loucura do rangido de uma boa maneira? – sopra Helenice de Castro.] Para Gaston, a coisa se comporta ao se arranjar, com sua arte, no mundo ‘normal’. O analista, como placa sensível, ao distinguir o que se arranja ao modo de laço social e não do turbilhão, segue na direção do que no falasser tem função de causa.

Afinal, os casos do relatório nos ensinam que a substância da desordem é a mesma que faz laço; o que muda é como se comporta com a língua na estrutura. Miller esclarece que Lacan, em todo seu ultimíssimo ensino, sem dizer a palavra, em 1978, opera uma definição de estrutura completamente diferente.

As coisas podem ser ditas saber se comportar […] se, no caso, há estrutura, não se trata de estrutura linguística, mas, se assim posso dizer, de estrutura coisística. […] As coisas sabem se comportar, precisamente pela diferença com os troumains que, eles, não sabem como se comportar, ‘em razão’ da estrutura simbólica, da escola de perdição constituída pela língua (MILLER, 2020).

Samuel era um menino agitado, significante que o alojava bem à língua familiar, de acordo com uma loucura normal, como bem disse Helenice de Castro (2023). A coisa assim sabia se comportar. Ao se mostrar isolado, pode-se ler nele a escrita de um gozo, um rastro de algo a mais, ruído de uma loucura singular. Isolar-se já era um arranjo, uma defesa que comportava uma certeza de que existiria “um parasita que entra no corpo das pessoas e as transforma em monstros” (ALVARENGA, 2023). E todos morrem. Um modo de arranjar sua suspeita quanto ao que ex-siste, de natureza indomável, e que toma lugar na sua paisagem subjetiva sem que saiba sua raiz ou mesmo evoque seu controle. Dessa fenda, vocifera um saber delirante, que parece se desencadear quando, de modo especular, lê em um colega estranho o que rangia em si mesmo: dentro do seu corpo há um ET que faz com que ele se agite e não pare. O sujeito trabalha para arranjar uma conexão entre esse Um que o agita e um pensamento delirante. Trabalha na montagem de uma estrutura onde a coisa possa se comportar. Quer fazer um projeto pedagógico [S1/agitado – S2/projeto pedagógico]. Quando seu trabalho é impedido, o ilimitado da desordem volta a invadir, fora da lei. Quer matar o ET. Apazigua-se ao ler em Bart, filho dos Simpson, um reencontro com o estranho, com algo que todo mundo tem, um lado normal e outro realista.

Quando a experiência analítica se instala lá onde cada um experimenta sua mais íntima desordem, ela visa ao detalhe que se empresta à contingente junção do gozo ao Outro, abre passagem ao trouma, furo real, tomando o nó como o que pode ou não advir no lugar d’isso inorganizado, servindo-se d’isso que estava escrito, já lá desde o início, e vocifera de um lugar onde não há ninguém.

 

O lugar de mais ninguém

Retomo Miller em sua leitura de Lacan em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: ‘Psicanálise e estrutura da personalidade’”, quando evoca o que considerei como “um princípio da desordem como tal…” (OTONI, 2021, p. 231). Ou seja, ele sublinha que, a princípio, o Isso está inorganizado. É um lugar sem sujeito do inconsciente. Cito: “O sujeito não está no Isso. […] ali não tem ninguém, […] mas sua ausência se faz desde um lugar: o lugar de mais-ninguém” (MILLER, 2015, p. 320). Ou seja, na mata do gozo, lugar do isso inorganizado, tem uma clareira queimada, uma fenda na mata, sem gozo, sem significante, sem sujeito… onde não tem ninguém. Um furo real por onde se abisma insondável a coisa exilada, perdida, que percute. É por sua extimidade que isso opera. Desse lugar de ninguém vocifera algo inaudito e, como diz Lacan, “só pode ser de alhures que isso se faz ouvir” (LACAN, 1958/1998, p. 674).

Seguir esse rangido e como isso se arranja através de grampos que põem em forma a ficção de existir em torno de um real sem sentido é uma orientação para a clínica ordinária de nossos dias. Lacan é claro: o lugar de ninguém é a “matriz da criação” (LACAN, 1958/1998, p. 673), daí brotam o falasser e seu sinthoma. Leio Miller: “neste lugar de mais-ninguém o designamos como tal na medida em que não vamos meter aí o ser supremo, mas vamos localizar na ausência dele onde, às vezes” (MILLER, 2015, p. 323), um Outro que segue pode vir se alojar.

Adão, há mais de 20 anos vivia isolado numa cela, imerso numa experiência de despedaçamento do corpo, atravessado por uma sangria de significantes sem ponto de basta. Um analista o encontrou e aconteceu uma sessão sem sentido. Falava “cabeça”, falava “arrancada”, absorto na perplexidade, sem ninguém, e em retorno o analista costurava: “Cabeça arrancada? Vejo que sua cabeça está no seu corpo.” Essa infiltração forçada estancava a fluidez metonímica, uma conexão ínfima surgia para logo se esvair em um novo desfiladeiro. Por um triz, o Outro existira, enquanto corpo que ressoa uma conexão entre o real e a imagem, através de um fio de simbólico. Após algum tempo, ao passar pela cela onde ele vivia isolado, virado e falando para as paredes, ele dá um giro, sai da ausência que o defende, se levanta, fala, pede para fazer uma foto, faz pose. E, no instante de um flash, um corpo se recompõe numa montagem fotográfica. Ele olha e sorri, um efeito de real na ficção, discreto acontecimento que enlaça seu corpo ao Outro. Ele pode sair do deserto onde se exilava, e consentir em estar junto com mais alguns outros. Meses depois, saiu do manicômio para morar numa residência terapêutica, colabora na cozinha, vaidoso com o corpo e dizem vê-lo, às vezes, se arranjando no espelho que é só dele e de mais ninguém.

Lembrei desse caso quando li em Miller que “no fim das contas, na psicose, quando não se trata de uma catatonia completa, há sempre algo que torna possível para o sujeito se virar ou continuar a sobreviver. De certa maneira, o verdadeiro Nome-do-Pai não vale mais que isto, é simplesmente um make-believe que funciona” (MILLER, 2010, p. 22-23). Interessante ler o que aconteceu nesse caso, também à luz do que disse Jésus Santiago (2023b): “Se o gozo do corpo compatível com o não-todo fálico é sem lei, a certeza que se obtém dele está sempre condicionada pela contingência, pelo que se mostra definitivamente variável ou, ainda, resultante do que pode ser ou não ser”. Para tanto, é preciso o mínimo de um Outro, menos na dimensão significante e mais enquanto um corpo que ressona a coisa desde alhures, afinal, “o Outro é a coisa, mas a coisa enquanto esvaziada” (MILLER, 2017, p. 433). Isso nos dá a chave para ler nas loucuras sob transferência o que operou nos casos desse relatório, quando o analista, como testemunho, é aquele que segue. Afinal, “a análise é uma leitura assistida pelo analista” (MILLER, 2023).

 O que também parece ilustrar o que Ram Mandil formaliza quanto à psicanálise ser “uma experiência que visa dar forma ao que o falasser experimenta como um vazio, como índice da não relação. Dar a esse vazio um valor de significação, de traçar o seu lugar de mais ninguém e não preencher de sentido esse lugar demarcado do real” (MANDIL, 2023).

Simone Souto, citada por Sérgio Laia, também segue nessa direção, ao afirmar que “um tratamento conduzido por um analista pode transmutar o lugar nenhum, marcado e assolado pela segregação e pelo negativo, em lugar de mais ninguém, eivado do gozo, ou seja, de uma satisfação, não negativizável” (LAIA, 2023).

Seguindo o que escreve Elisa, notam-se nessas vinhetas testemunhos de como o analista segue o falasser e aguarda o savoir-y-faire com o seu incurável advir (ALVARENGA, 2023), instante quando o que existe sem ser, e já lá desde o princípio, pode enfim se enlaçar com a língua e se comportar numa ficção do existir. Seja como for, é no interior de uma mesma estrutura que um arranjo possível se resolve com o que itera em si e tem função de causa. Saber ler o que está já lá, como a coisa se comporta face ao real, é fundamental para seguir de uma boa maneira favorecendo a junção mais íntima do sentimento de vida ao corpo que se tem. De tal sorte que o encontro com um analista pode permitir a cada um confrontar-se com o furo de outra forma. Aqui, o possível é parceiro da contingência. Trata-se de formas fractais de expressão do mesmo, um modo de fazer com esse quantum constante, que procede de UM gozo primário, e com o furo no qual se desdobra um efeito de real. Pois o inconsciente e a pulsão só entram em um acordo através de uma montagem em torno do furo que os abisma. A experiência analítica, assim, confirma o quão é operatória a função de um Outro que segue o que range. Pois é isso que não se negativiza, esse resto impossível de apreender, por portar o traço de indeterminação que torna possível uma subversão. Via por onde uma despatologização analítica, por não desconhecer o real e saber fazer com ele, pode acontecer.

 

O impossível de negativizar e o não-todo na clínica do falasser

Sérgio Laia (2023), em seu texto “Por que as psicoses… ainda?”, pergunta se não poderíamos fazer valer o não-todo fálico como uma espécie de orientação para os falasseres desnorteados pela ausência do Nome-do-Pai e do falo simbólico ou significação fálica em suas vidas. Os casos apresentados pelo cartel, assim os leio, dão o testemunho dessa orientação, mostrando como o encontro com o analista pode permitir a cada um confrontar-se com o furo de outra forma. O relatório nos mostra, por exemplo, como Lacan ofereceu a Philip Dick uma borda ao infinito que nele eclodia e lhe abre a via de uma escolha, um limite para viver, junto com mais alguns outros. Um saber fazer com o não-todo. Mas pergunta o relatório: “Podemos falar de não-todo na clínica das psicoses?”

O não-todo é algo do qual não se pode falar, mas faz falar, faz sinthoma, faz laço e d’isso se fala onde quer que esteja um corpo falante, simplesmente falasser. Afinal, “o campo do ser exige, necessita um ‘para além’ do ser” (MILLER, 2011). Alçar essa dimensão exige do analista, enquanto coisa furada e, portanto, placa sensível, seguir o que ressoa no falasser mais além do “que ele é”, dócil ao que nele funciona, ao saber ler como se arranja com o que nele range, ou seja, a substância sonora de um páthos impossível de negativizar.

Essa outra dimensão não seria propriamente aquela onde o não-todo como tal se experimenta, irrepresentável e inapreensível, como um furo aberto ao infinito? Qual a distinção e relação entre o não-todo fálico e o resto não negativizável? O resto impossível de negativizar, que não cessa de se satisfazer em formas fractais, não seria o mesmo que se experimenta, sem soltar uma palavra, na extensão inapreensível do não-todo? E o gozo fálico não seria, no final das contas, um prosseguimento do não-todo fálico, uma forma de salvaguarda do mesmo, tal como Freud pensou a conexão entre o princípio de realidade e o princípio do prazer? Seja qual for o conector do nó, Nome-do-Pai ou qualquer outro grampo que lhe sirva em suplência, o falasser tem de se arranjar com esse resto que range por um furo que sopra. Então, reviro a pergunta do cartel da seguinte forma: na nossa experiência, tal como ela é, podemos não falar de não-todo na clínica do falasser?

Seguir esse ruído, esse algo a mais que range, requer de nós a arte de saber ler o que se passa como evidência obscura, o irredutível que não se apaga e, não-todo, se comporta ao colocar em forma, com os grampos próprios a cada um, o que, como em todo mundo, prossegue num rangido por demais desigual.

Belo Horizonte, 3 de agosto de 2023

 

 

Referências

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Castro, H. Há algo de novo nas psicoses… ainda. 26ª Jornada da EBP-MG, 2023. Disponível AQUI. Última visualização: ago. 2023.

Costa, F. O que há de novo e itera nas psicoses. 26ª Jornada da EBP-MG, 2023. Disponível AQUI. Última visualização: ago. 2023.

Laia, S. Por que as psicoses… ainda. 26ª Jornada da EBP-MG, 2023. Disponível AQUI. Última visualização: ago. 2023.

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Lacan, J. Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: “Psicanálise e estrutura da personalidade”. (1958) In: Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 653-691.

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Lacan, J. Le Séminaire, livre XXV: Le moment de conclure. Leçon du 10 janvier 1978. (Inédito)

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Santiago, J. Comentário sobre o Relatório “O mundo rumo à psicose”. 26ª Jornada da EBP-MG, 2023b. Disponível AQUI. Última visualização: ago. 2023.

Nota:

[1] Agradeço a Fernanda Costa e a Helenice de Castro o convite para comentar o instigante trabalho do cartel, redigido por Elisa Alvarenga (Mais-Um) e composto por Antônio Teixeira, Bruna Albuquerque, Frederico Feu de Carvalho, Márcia Rosa, Miguel Antunes, Mônica Campos e Patrícia Ribeiro. O relatório trata do segundo eixo – Diagnosticar e despatologizar – da 26ª Jornada da EBP-MG, Há algo de novo nas psicoses… ainda, título proposto por Sérgio Laia ao nos provocar e nos colocar ao trabalho de elucidação necessária da atualidade da nossa experiência. Um relatório com muitas portas de entrada que me exigiu uma escolha por quais adentrar…

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