
A Equipe de Bibliografia da 26ª Jornada da EBP-MG solicitou a Maria Wilma de Faria, a quem agradecemos a contribuição, um comentário sobre a seguinte citação de Éric Laurent:
“A experiência da psicanálise é a de que há um ponto que não pode ser resolvido (resorbé) e que é o fato de que, finalmente, cada um só acredita profundamente no seu sintoma. Quanto ao resto, é semblante. É por isso que o sintoma não se reduz à psicopatologia, que também não existe. São modos de discurso, de classificações - podemos preferir algumas entre elas, nem todas são iguais, mas não devemos nos enganar – elas não existem[1].”
O texto de Éric Laurent “O delírio de normalidade ”, de 2008, tem sua atualidade na medida em que relança questões contundentes em relação aos ideais de normalização, à medicina baseada em evidências, à saúde mental. A psicanálise de orientação lacaniana não se norteia pelo ideal de “normalidade”, não visa às categorias clínicas da psicopatologia geral, ela é orientada pelo que há de irredutível no sintoma de cada falasser em suas inúmeras possibilidades de amarrações. Essa é a razão pela qual falamos em acolher ‘um a um’ em seus múltiplos modos de gozo, suas singulares maneiras encontradas para existir.
Laurent ressalta a importância de resgatar a clínica do caso a caso nos dispositivos de saúde mental e instituições que, contaminadas pelo discurso do mestre, são marcadas pelas avaliações, classificações diagnósticas, ideais promovidos de uma saúde plena, tal como preconizado pela Organização Mundial de Saúde, como se fosse possível um estado de completo bem- estar (social, psíquico, físico), desconhecendo o que é da ordem pulsional. Já Miller[2], criticando as cifras, as estatísticas, os grandes números dominantes na sociedade contemporânea, afirma que para a psicanálise “o número como tal é nada, pois os sujeitos do inconsciente não se adicionam. Cada um permanece disjunto de todos os outros. É antes sobre o fundo do esquecimento de toda experiência prévia que se inaugura a operação psicanalítica”.
Ainda com Laurent, “o laço social não existe, o que existe são maneiras de falar. São discursos que fazem semblante de laço social”. De tal sorte que a expressão “todo mundo é louco” significa que não há uma norma: “cada um é um obstáculo à norma de todos, que existe sempre um ‘x’ que é obstáculo ao ‘para todos’, cada um constitui uma exceção à norma, o sintoma é um obstáculo à norma e ao laço social e será sempre aquele ponto de real que objeta.”
O discurso analítico é o único que exclui a dominação, uma vez que no lado superior esquerdo há um elemento que é “causa de desejo”. Ali o analista se faz semblante e o saber se encontra apenas enquanto suposto. O discurso analítico, diferentemente dos outros, nada tem de universal, não é para todos e sim para o “um sozinho”.[3]
Maria Wilma S. de Faria
[1] LAURENT, Éric. O delírio de normalidade. In: Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte. Scriptum Livros, 2011.
[2] MILLER, J.-A. Qual política lacaniana pra 2009?Perspectivas de política Lacaniana. Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. n 53. Janeiro de 2009
[3] MILLER, J. -A.Todo mundo é louco – AMP 2024 Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. n 85. Dezembro de 2022
Solicitamos à colega Cristiane Barreto, a quem agradecemos, que pudesse avançar sobre uma questão que Miller apenas aponta em seu texto “Efeito do retorno à psicose ordinária” em que ele diz: “Não discutirei a vida sexual. Após a realidade social - o Outro social – e o Outro corporal, falarei do Outro subjetivo”. Vale ressaltar que alguns colegas do Campo Freudiano chegam a nomear a questão sexual como uma quarta externalidade.
A psicose e uma externalidade sexual?
“Toda vida sexual é atípica”, relembra Jacques-Allain Miller (2012, p.426), aludindo, com essa afirmação, à uma externalidade sexual.
Retomando o sintagma “psicose ordinária”, “categoria clínica lacaniana”, Miller (2012, p. 399) destaca psicoses que evoluem “sem barulho, sem explosão, mas com um furo, um desvio ou uma desconexão”. Como consequência, a necessidade de recolher índices de forclusão revelados nas nuances e tonalidades do vivido pelo sujeito, do seu jeito de estar no mundo.
Partindo da desordem que pode atingir “a junção mais íntima do sentimento de vida”, frase de Lacan quando ele ordenava condições preliminares para o tratamento possível das psicoses, Miller (2012) sistematiza três externalidades – social, corpórea e subjetiva -, orientando a busca. Nota-se que o termo externalidade, atribuído ao economista neoclássico Arthur Pigou, diz do efeito colateral de uma decisão sobre aqueles que não participaram dela, seja negativa ou positiva, e que podem ser superadas. Refere-se a um desajuste.
O que nos diz Miller da desordem no campo do sexual (de uma externalidade sexual, portanto)? Explicita que não discutirá a vida sexual. Entretanto, isso insiste. A partir de uma questão levantada pela audiência, por Manya Steinkoler – “Qual é a sexualidade de uma psicose não desencadeada?”, Miller (2012) retoma o que havia evocado, considerando que não há nada de específico, posto que “não há vida sexual típica”.
No Seminário, Livro 10, Lacan (1962-1963/2005, p. 283) observa que a primeira abordagem da presença fálica na cena primária assume um valor traumático, “muitas vezes como o funcionamento do próprio pênis”, evocado em muitas descrições pela incerteza da presença, impressão de parecer escapar ou de ter sido visto fora do lugar. “O fato de o falo não se encontrar onde é esperado, ali onde é exigido, no plano da mediação genital, é o que explica que a angústia seja a verdade da sexualidade” (Lacan, 2005, p. 292).
Pode-se fazer listas de experiências estranhas, recolher dos casos clínicos diferentes maneiras dos sujeitos viverem a sexualidade, pontua Miller (2012). Em relação à psicose, ele sinaliza a presença do empuxo-à-mulher através do ato sexual nos homens e, ainda, uma espécie de avesso, a vivência da sexualidade permitindo a reapropriação do próprio corpo (masculino). O outro exemplo é das situações nas quais o corpo, frente ao ato sexual, se fragmenta. Mas, assinala: “não há nada específico”, reportando-nos à busca “de uma desordem no ponto de junção mais íntimo do ato sexual”, com a garantia de que certamente a encontraremos.
Na clínica contemporânea, contudo, parece existir algo de novo. Um desabamento em relação ao sexo não apenas no ato sexual em si, mas na eminência dele. O espaço que antecede ao ato, frente aos apelos e exigências vivenciados no mundo virtual, acelera o tempo, fazendo desaparecer o prelúdio necessário, facilitador da condição do encontro com a falha certeira. Tal aspecto, pode instalar o sexo, antes mesmo da sua realização, como um enigma avassalador.
Os efeitos sobre o sexo da “atmosfera de um mundo sem real” (Miller apud Mandil, 2023) não é sem consequências. Podemos citar, ainda, as soluções dos sujeitos que se nomeiam homem, mulher, trans …, qualquer coisa que os façam evitar o encontro com o corpo do outro. Engajam-se nos discursos militantes, ou “discursos diluidores” (Mandil, 2023), se ancorando “em um limitado grupo de frases mais ou menos coaguladas” (Dessal, 2008), com ausência de implicação subjetiva, ou estipulam para si um nome. Frases de exemplos clínicos: “sou saldo masoquista”, “sou domadora”, “sou passivo” -, que servem para nomear o sexo que fariam, sem, contudo, terem que experimentá-lo.
Na vertente oposta, há aqueles que se embrenham na prática sexual exagerada, para fazerem um corpo que faz gozar, confundindo-se com o objeto de gozo do Outro, em uma infinitização, não com Deus e seus raios divinos, mas nos “rolês” da pólis. Dessal (2008) menciona em uma entrevista o quão frequente na psicose ordinária são os casos de pessoas “cuja vida sexual é, ou bem inexistente, o que mostram sinais às vezes sutis, ou bem mais marcantes, de uma relação lábil com a identidade sexual”.
Entretanto, existiria aqui, na desordem no ponto de junção mais íntimo do sentimento de vida situado no sexo, a comprovação da forclusão generalizada do significante d’A Mulher, o ordinário de todo ser falante, posto que “isso não é satisfatório para todos, (…), se é mal-sucedido, é para todo o mundo” (Lacan, 1974/2001, p. 557)?
Cristiane Barrreto[1]
[1] Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.
Referências
DESSAL, G. (2008). Continuidad y discontinuidad en las psicosis ordinarias. Tres preguntas a Gustavo Dessal Acesso em agosto de 2023. Disponível AQUI
LACAN, J (1974).. Prefácio de O despertar da primavera. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2001.
LACAN, J. (1962-1963). O Seminário livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005.
MILLER, J-A. Efeito do Retorno à Psicose ordinária. In: A Psicose Ordinária – A conversação de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.
MANDIL, R. O mundo rumo à psicose. Acesso em agosto de 2023. Disponível AQUI
A Equipe de Bibliografia da 26ª Jornada da EBP-MG solicitou à nossa colega Márcia Mezêncio, a quem queremos agradecer, que comentasse a seguinte citação de Lacan:
“A psicanálise é o que faz de verdade (fait vrai). […] acrescenta-se uma pitada de sentido, mas isso permanece um semblante.” (LACAN, 1977/1979)
Em seu último ensino, segundo Miller (2014), Lacan dá indicações para reinventar a prática da psicanálise, mas sem levantar o véu quanto ao manejo da transferência pois, ainda que a transferência esteja quase ausente nesse último Lacan, não quer dizer que seja inexistente, mas que se apresenta ainda uma vez como impasse. Anteriormente a transferência se articulava a um Outro bem estabelecido ao qual se destinava. Uma questão, até então prevalente e quase restrita à clínica das psicoses, emerge e se generaliza: o questionamento da relação com o Outro e os impasses quanto à transferência e seu manejo, sempre interrogados no que se referia às psicoses, impactam também a prática com as neuroses.
Quanto à vigência da transferência na clínica contemporânea, interessante destacar no argumento do XI Congresso da AMP – “As psicoses ordinárias e as outras, sob transferência” – a afirmação de que é “Sob transferência [que] se realiza a clínica psicanalítica, na neurose e na psicose, o que requer a presença e o ato do analista” (AROMI & ESQUÉ, 2018). Afinal, como nos lembra Simone Souto (2019), a psicanálise continua sendo praticada aos pares e, ainda que o analisante fale sozinho e possa prescindir do Outro, parece que a prática analítica não pode prescindir do analista.
Na mesma ocasião, Miquel Bassols (2018) indicava que o ordenamento das psicoses ordinárias só se colocava sob transferência, sinalizando a perspectiva de servir-se da psicose ordinária para reexaminar a questão da transferência nas psicoses em geral (LAURENT, 2018). Dizer que “todo mundo é louco” (LACAN, 1978/2010) não é o mesmo que dizer que todo mundo seja psicótico, mas que a psicose nos fornece as coordenadas para apreender a subjetividade contemporânea, marcada pela foraclusão generalizada, a queda do Nome do Pai e a inexistência do Outro. Passamos de uma sociedade centrada no pai para uma sociedade do parceiro sintoma ou do parceiro gozo. Estamos diante do paradoxo do Um que dialoga sozinho, pois o Outro não existe ou a relação com o Outro está rompida.
Miller (2008-2009/2011) afirma que não haveria experiência analítica se o gozo fosse satisfatório, que é a disjunção entre o gozo e a satisfação o que leva um sujeito a buscar um analista. Ainda que o gozo não minta, ele diz, o fato de ter um corpo falante introduz um mal-entendido no que concerne ao que o gozo deveria ser. Descobrir a verdade do gozo seria o programa de uma análise, mas o que dela se obtém é a revelação de que a verdade é mentirosa e que o sentido é semblante. Assim o dispositivo analítico é intrinsecamente um empuxo-à-verdade, porque faz vacilar os semblantes ao visar ao sujeito barrado, ao des-ser, ao ponto em que o sujeito experimenta sua contingência. Trata-se, para o analista, de servir-se do semblante, uma vez que a mentira da verdade é estrutural, pois se existe um recalque primordial, então a verdade é mentirosa. Há uma disjunção entre real e verdadeiro e para abordar o real será necessário fazer uso do semblante.
Em que se sustentaria o laço entre o analisante e o analista? O analista não está no lugar da suposição de saber, mas no lugar daquele que segue, que se interessa pela singularidade da experiência vivida pelo sujeito, pelas respostas ou soluções que ele conseguiu encontrar. “É na medida em que o analista presentifica o insucesso do inconsciente quanto à satisfação obtida, fazendo aparecer o furo a respeito do qual o inconsciente não sabe que sabe, que o amor [de transferência] acontece. É a presença do analista que faz esse furo existir de verdade.” (SOUTO, 2019)
“Fazer de verdade” é a introdução de uma nova versão da transferência que possibilite ao sujeito uma estabilização do deslizamento incessante do sentido e de lalíngua. O analista seria aquele que, por acrescentar sentido através de um forçamento da língua, pode fazer ressoar uma significação vazia. No horizonte, Lacan vislumbra a produção de um significante novo, sem sentido, e um possível despertar. Se não há suposição de saber como fundamento da transferência, tal como Lacan a desconstrói nesse último ensino, uma vez que não há Outro a quem endereçá-la, resta a utilidade, não a utilidade das ficções e do sentido, mas o princípio do prazer, o sofrer o menos possível.
Márcia Mezêncio
Referências
AROMI, A.; ESQUÉ, X. As psicoses ordinárias e as outras, sob transferência. Texto de apresentação do XI Congresso da AMP. Disponível AQUI Acesso em: 19 de julho de 2023.
BASSOLS, M. Psicoses ordenadas sob transferência. Disponível AQUI Acesso em: 19 de julho de 2023.
LACAN, J. Vers un signifiant nouveau, Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre, leçon du 10 mai 1977, Ornicar ? nº 17-18, printemps 1979.
LACAN, J. (1978) “Transferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes!”, Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 65, São Paulo, 2010, p. 31.
LAURENT, É. Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 79, p. 52-63, jul. 2018.
MILLER, J.-A. (2008-2009) Sutilezas analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2011.
MILLER, J.-A. (2006-2007) “Inconsciente y sinthome”. In: El ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014.
SOUTO, S. Como conceber a transferência na clínica do Um que dialoga sozinho? Curinga, Belo Horizonte, n. 47, 2019, p. 106-116.
Solicitamos a Elisa Alvarenga que retomasse, para esse Grampo-citação, o comentário feito por ela no debate do primeiro Seminário Preparatório da 26ª Jornada, ocorrido no dia 04 de maio, quando se referiu a uma citação do Seminário 24 na qual Lacan relaciona o sentimento de vida do falasser ao gozo do Um. Agradecemos a Elisa por essa referência e por sua contribuição ao tema da Jornada.
"Há Um, e isso quer dizer que há, mesmo assim, sentimento, este sentimento que chamei, segundo as unaridades, o suporte do que é necessário que eu reconheça, o ódio, na medida em que esse ódio é parente do amor, amor que escrevi em meu título deste ano - L'insu-que-sait de l'une bévue, c'est l'amour". – Lacan, Seminário 24, 10.05.1977
Esta lição do Seminário 24, estabelecida por Jacques-Alain Miller e publicada na Revista Ornicar? com o título “O impossível de apreender”[1], relaciona o Um do gozo que marca o corpo com o sentimento, não aquele dito por Lacan senti ment, o sentimento que mente, mas aquele que dá vida ao corpo, perfurado pelo significante que delimita o que é exterior ao eu-prazer original, rejeitado e marcado pelo ódio, e o que pertence ao eu, incorporado e marcado pelo amor, no que Freud chama de julgamento de atribuição, logicamente prévio ao julgamento de existência[2]. O que dá vida ao corpo e finalmente, lhe dá consistência, e existência, não é a forma imaginária do corpo, sua imagem especular, mas o sentimento provocado nele pela incidência do significante. Lacan diz que o inconsciente faz furo no corpo e em torno desse furo é que se constitui a imagem[3].
No Seminário 23, Lacan evoca as pulsões como eco, no corpo, de que há um dizer: esse corpo é particularmente sensível às palavras que nele ressoam. Isso nos leva a perguntar o que dá o sentimento de vida ao sujeito, nos casos em que, devido à foraclusão do Nome-do-Pai, a significação fálica não entra em jogo. Se na “Questão Preliminar” Lacan nos fala de “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”[4], no Seminário 23 ele distingue o espaço topológico do gozo fálico, situado entre o simbólico e o real, do gozo peniano, que “advém a propósito do imaginário, […] do gozo do corpo”[5].
A experiência com pacientes psicóticos – como nos demonstra o caso apresentado por Fernanda Costa na abertura dos Seminários preparatórios[6] – nos ensina que o dizer do sujeito sob transferência, assim como a interpretação do analista, que permite ler de outra maneira, pode restituir-lhe o sentimento enquanto aquilo que dá vida ao corpo do falasser, conectando-o ao Outro e dando outro destino à sua errância. Isso nos permite formular a hipótese de que o gozo em jogo na análise dos sujeitos psicóticos, em princípio distinto do gozo fálico, incide em seu corpo como uma satisfação ligada ao sentimento de vida, ao reatar o imaginário do corpo com os registros do simbólico e do real através de um sintoma.
Elisa Alvarenga
[1] Lacan, J., Vers un signifiant nouveau, texte établi par Jacques-Alain Miller. Ornicar 17/18. Paris: Seuil, 1979, p. 18.
[2] Freud, S. A negação (1925). Neurose, Psicose, Perversão. Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2016, p. 307-309.
[3] Lacan, J. O fenômeno lacaniano (1974). Opção Lacaniana 68-69. São Paulo: Eolia, 2014, p. 18.
[4] Lacan, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 565.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 23, O sinthoma. Texto estabelecido por J.-A. Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 54-55.
[6] Cf. https://www.jornadaebpmg.com.br/2023/textos/o-que-ha-de-novo-e-itera-nas-psicoses/
A Comissão de Referências Bibliográficas da 26ª Jornada da EBP-MG solicitou à colega Yolanda Vilela, a quem queremos aqui agradecer, um comentário da seguinte citação de J-A Miller:
“Na psicose ordinária, vocês devem ter algo a mais, uma brecha. A desordem mais íntima é essa brecha na qual o corpo se desfaz e onde o sujeito é levado a inventar para si laços artificiais para apropriar-se de seu corpo, para “prender” (serrer) seu corpo a ele mesmo. Para dizê-lo num termo da mecânica, ele tem necessidade de um grampo para se sustentar com seu corpo”. – Jacques-Alain Miller. Efeito do retorno à psicose ordinária, in: A psicose ordinária. A convenção de Antibes. Belo Horizonte: EBP/Scriptum, 2012, p. 414
No início era a desordem. Essa premissa vale para todo falasser, pois quando consideramos o binômio desordem/ordem, constatamos que uma operação, um ordenamento mínimo foi necessário para poder dizer que se tem um corpo. Em outras palavras, “ter um corpo” pressupõe algum tipo de tratamento dado ao gozo que afeta o corpo-organismo. Por um lado, nem a matriz imaginária fornecida pelo estádio do espelho, nem o simples recurso às palavras garantem a ancoragem do sujeito no registro simbólico. Por outro lado, se a metáfora paterna e o significante do Nome-do-pai, dela decorrente, traduzem o gozo do corpo ao privilegiar as vias do simbólico, nem por isso um resto de gozo deixará de ser irredutível a tal registro.
O recurso à expressão “grampo” se consolidou na psicanálise de Orientação Lacaniana a partir do paradigma Joyce, isto é, a partir das elaborações da chamada segunda clínica de Lacan, que enfatiza os modos singulares de enlaçamento sintomático do falasser. Nesse sentido, manter unidos os três registros da experiência subjetiva (real, simbólico e imaginário) deixa de ser um privilégio da metáfora paterna. A clínica borromeana, sob uma perspectiva continuísta, esclarece que o enlaçamento dos registros RSI não é uma exclusividade da subjetivação do gozo pela via da metáfora paterna, que o traduz em termos significantes; ao contrário, na segunda clínica os “grampos” são múltiplos e diversos. Assim, “grampo” (serre-joint = braçadeira ou abraçadeira) é tudo aquilo que permite ao sujeito se sustentar com seu corpo. Jacques-Alain Miller, no texto “Efeito do retorno à psicose ordinária”, disponível neste site na aba “Textos de orientação”, lembra que o sujeito é levado a inventar para si laços artificiais para apropriar-se de seu corpo.
Se a desordem na junção mais íntima do sentimento de vida, tal como evocada por Lacan em “Questão preliminar…”, diz inicialmente respeito a todo ser falante – e nesse sentido vale mencionar o estado de desamparo primordial [Hilflosigkeit] referido por Freud –, essa desordem, essa instabilidade é contudo mais facilmente situável nas psicoses, o que esclarece o recurso aos “grampos”, que podem ser definidos como invenções que permitem dar ao sujeito o sentimento de ter um corpo com o qual se goza, assim como o sentimento de pertencer ao mundo em que vive.
O corpo obeso, ou, ao contrário, o corpo anoréxico, o corpo tatuado, o consumo excessivo de drogas lícitas ou ilícitas, a identificação massiva a uma função social ou a uma profissão, certa relação com a religião ou outras identificações imaginárias, a escrita, o delírio, a persistência de um afeto depressivo, ou, ao contrário, de um estado levemente maníaco, todas essas soluções sintomáticas podem ser consideradas “grampos” que, ao fazerem a função de amarração, permitem uma apropriação do corpo próprio. É precisamente isto que a clínica borromeana vem esclarecer: no oceano dos sintomas contemporâneos é preciso fazer valer, não sem transferência, a modulação do uso que o sujeito faz das soluções por ele encontradas. A clínica borromeana, em sua dimensão continuísta (entre neurose e psicose) é aquela em que a expressão popular “ter um parafuso a mais ou a menos” já não tem, rigorosamente falando, nenhuma pertinência. Ao contrário, os nossos parafusos devem ser afrouxados ou apertados à medida que o sinthoma toma forma.