Acontecimento de corpo: do orifício ao furo Entrevista com Jésus Santiago (A.E. 2013-2016) sobre Acontecimento de Corpo e final de análise.

Uma primeira aproximação acerca da presença do sintoma como acontecimento de corpo na minha trajetória com o passe é o que se deduz como axioma de que o orifício não é o furo. O orifício corporal está ancorado no gozo da fantasia viril cujo motor é o mais-gozar olhar. Nesse sentido, pode-se inferir que um dos componentes do objeto a é o orifício corporal. A fantasia e sua lógica inclusiva do objeto a é a chave de uma modalidade fundamental de gozo sexual nos seres falantes. Qualificá-la de viril é a maneira que encontrei para situar o acontecimento de corpo que se extrai do circuito de gozo que transita entre o escópico e o anal. Dizer que na relação com a parceira sexual esse gozo é notadamente autoerótico, é uma confirmação de que, antes de tudo, a copulação se faz com a fantasia e com o objeto a olhar. Essa ocorrência autoerótica do mais-gozar da fantasia é compartilhada por todos os gêneros e, nesse sentido, pode-se falar de um gozo que advém da própria inexistência da relação sexual[1].
A passagem do orifício ao furo exigiu, no transcorrer da experiência, ir além da travessia da fantasia, ao buscar fraturar seu objeto em vista do desinvestimento libidinal do mais-gozar olhar. Importa assinalar que o enfoque do sintoma à luz do acontecimento de corpo exigiu da parte do analista uma leitura da letra de gozo fora do sentido do sintoma e, portanto, fora do mais-gozar da fantasia. Antes de mais nada, considera-se que o sintoma que tem lugar na existência do falasser diz respeito ao corpo impactado por um acontecimento de discurso que assume o valor de um trauma[2]. O problema que se impõe aqui é que o acontecimento de corpo mostra-se correlacionado à uma experiência de satisfação em detrimento do advento de toda e qualquer significação. Essa mudança de perspectiva com relação ao sintoma enquanto acontecimento de corpo – repercute de maneira contundente no plano da interpretação analítica[3]. Se no primeiro Lacan, tratava-se de encontrar o sentido oculto do sintoma, com relação ao último ensino, importa tocar o gozo que irrompe no corpo. Admito que a experiência de satisfação que emerge como efeito da interpretação analítica – “você é uma mulher do amor depreciado”[4] – não gera forçosamente um prazer nos moldes da homeostase freudiana. Muito antes pelo contrário, pois no meu caso os efeitos desta interpretação, em termos da satisfação, aparecem sob os auspícios de um desequilíbrio profundo e não sem incômodos e angústia.
A questão do desinvestimento libidinal do mais-gozar olhar permanece presente como decisiva para a minha relação com a causa analítica, pois ela atinge em cheio o desejo do analista. Trata-se, portanto, de incluir o momento de passe que teve lugar no tocante ao acesso ao furo e a consequente abertura ao não-todo fálico. É sabido que o passe coloca à prova o que dele se extrai sob o modo de uma bússola a serviço do desejo do analista. No meu caso essa bússola se exprime nos termos da seguinte questão: é possível ao analista-homem experimentar a existência de um gozo deslocalizado com relação as zonas do orifício, antes, investidas pela fantasia escópica? É claro que a fratura do objeto da fantasia com o desinvestimento libidinal do objeto olhar, ao longo da experiência, não esgota e nem elimina os orifícios tomados como objetos do gozo fantasístico.
No entanto, no momento em que a experiência de “abertura ao não-todo fálico”[5] sobrevém, o falasser se apresenta sob o choque da surpresa e do espanto, pois, sem abrir mão do objeto a, a experiência de satisfação propriamente pulsional mostra-se relutante em reproduzir-se segundo o circuito banal, repetitivo e monótono da fantasia viril – $ <> a – e, inclusive, refratário a mobilizar-se em função de uma zona erógena precisa. Lembro-lhes en passant a concepção mecanicista do amor, presente, em Alfred Jarry, em Surmâle (Supermacho): “fazer amor é um ato sem importância, pois se pode fazê-lo indefinidamente”[6].
Essa abertura ao ‘não-todo’ fálico é a maneira que encontrei para caracterizar o que vem a ser viver a pulsão para além dos objetos a da fantasia. Atenuar ou mesmo se separar das imposições do mais-gozar da fantasia é a única via para viver a pulsão, após o final de análise, na medida que a tendência do gozo fantasístico é obturar aquilo que se constitui como a sua própria materialidade, a saber: o vazio ou o furo.
Na verdade, há um certo paradoxo ao se dizer que o final de análise acontece sob o prisma da vivência da satisfação da pulsão. Afirmo isto, pois não se desconhece que, no fundo, a constância da pulsão diz respeito ao fato de que a pulsão se define por buscar o tempo todo se satisfazer. Porém, o que a minha experiência de passe me ensinou é que nem sempre a satisfação da pulsão tem lugar por meio da sua conexão com o fator obturante da fantasia ao furo. Como pude demonstrar em meus testemunhos, o que parecia ser um imperativo, revelou-se passível de uma mudança, cuja contrapartida seria as chances de um novo amor sob o modo de um saber-fazer com o furo concernente a satisfação da pulsão desconectada do mais gozar da fantasia.
A consequência mais imediata foi minar as bases dos sintomas típicos da vida amorosa na sexuação masculina. Viver a pulsão após a fratura do objeto da fantasia exigiu abandonar o amparo obcecado no heroísmo viril, transmitido pela mãe religiosa. Assim, o falasser se viu incitado ao refinamento de seus usos da satisfação da pulsão na medida que se consentiu com o abismo, muitas vezes aniquilador, do furo pulsional. Concebo o ideal viril como expressão direta do gozo fálico, precisamente, nos termos desse gozo que age fora do corpo como uma defesa possível à castração ou à feminização[7].
Por último, insisto sobre o que é o distintivo do gozo fálico, a saber, portar-se como um gozo fora do corpo que, no meu caso, age como uma espécie de rolha que veda a materialidade do que confere consistência a satisfação pulsional que é o furo.
NOTAS:
[1]Cabe colocar a questão se a inexistência da relação sexual é ou não um princípio universal para todo o gênero humano. A resposta negativa se justifica pelo fato de que esse aforisma não existe em si, ele supõe sempre a apropriação singular por parte do ser falante. Assim, não é um universal porque exprime o modo singular como a sexualidade faz furo no real e no saber, coisa que, por consequência, remete a cada ser falante. Em suma, não é universal porque o aforismo indica que não há um saber universal sobre o sexo.
[2]Miller, J.-A. “Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo”, Opção lacanina, nº 41, dezembro 2004, p. 7-67.
[3]Visar extrair consequências do ‘sintoma como acontecimento de corpo’ para a prática da interpretação, é, a meu ver, o que se apresenta como a originalidade do tema escolhido para a nossa 25ª Jornada “Acontecimento de corpo: da contingência à escrita”.
[4]Santiago, J., O nome, o oco e a fonação, Opção Lacaniana, 2013, dezembro, nº 67, p. 94.
[5]Santiago, J. Abertura ao não-todo fálico, Opção Lacaniana, 2017, maio, nº 75/76, p. 53-57.
[6]Jarry, A. Surmâle, Mille et une nuit, Paris, 1996, p. 7.
[7]Lacan, J. A terceira, Opção Lacaniana, 2011, dezembro, nº 62, p. 11.