Salto no Vazio1Traduzido de Bolgiani, P. Saut dans le vide. Mental, Bélgica: EFP, n.29, fev/2013, p. 87-92. Texto publicado com a gentil autorização da autora.


por Paola Bolgiani2Psicanalista, AME, Membro da SLP (Scuola Lacaniana di Psicoanalisi) e da AMP.

J.-A. Miller escreve em “Ler um sintoma”:

“A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo.

Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas é preciso também se desprender das miragens da verdade que esse deciframento traz e visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real.”[3]

A passagem da dialética do desejo e das miragens da verdade, que a decifração traz, para a fixidez do gozo não foi, em minha análise, uma passagem linear. Não se produziu de maneira continua nem em um movimento linear, mas em um desvio e numa lógica paradoxal.

Meu percurso analítico foi marcado pela queda de semblantes fundamentais nos quais eu havia encontrado apoio para sustentar a crença em um Outro fiador de meus atos e de minha identidade.

Esse Outro se havia inicialmente apresentado com a face afetuosa de Deus Pai, aquele que poderia me ajudar e responder ao enigma da existência e do que falta à mãe, do qual eu me queixaria em seguida, porque ele não estava à altura. Mais tarde, esse Outro mostrou também sua face oculta, terrível e feroz, mas essa me permitia manter a ilusão que um dia ela poderia desfazer-se. O analista tinha jogado as duas personagens na transferência: duas figuras que, em sua declinação diferente, podiam preservar a ilusão de chegar um dia a uma certa forma de completude, seja como saber completo, como verdade finalmente atingida, seja como esclarecimento sem resto.

Eu precisei descobrir penosamente, no curso da análise, que cada figura do Outro correspondia a uma ideia ilusória de minha identidade: figura ideal e virtuosa face ao Outro do amor, vítima sacrificial face ao Outro feroz. Como Lacan escreveu na “Intervenção sobre a transferência”[4], o percurso de uma análise pode ser descrito como uma série de inversões dialéticas, em que cada uma corresponde a um novo desenvolvimento da verdade. O desvelamento progressivo e a resolução das figuras do Outro e das identidades ilusórias que se conectam a elas, me permitiram apreender que eu mesma lhes havia dado corpo e consistência a cada vez, ao cobrir com tais vestimentas os personagens de minha história, incluindo o analista.

Mas a análise não é uma experiência que se atêm à dimensão dialética. Se toda verdade pode se transformar em seu contrário, o que pode ancorar o sujeito? Na conclusão de minha análise não se encontra uma nova inversão dialética, mas um paradoxo. É assim que chamarei o salto que vai da dimensão da verdade à do real que ancora e causa o sintoma. Quando todos os semblantes desapareceram, também aqueles que pareciam poder dizer a verdade – mesmo se ela pudesse parecer horrível – sobre seu ser e seu objeto, o que se encontra é o paradoxo de um ser que se declina no futuro anterior[5]: “eu teria sido”. Um tempo verbal que deixa o ser do sujeito sem possibilidade de predicado, sem nenhuma possibilidade de dizer “eu sou isso” ou ainda “é isso”. Salto no vazio.

Salto, mas não sem ancoragem. Uma ancoragem sólida, ligada à “reiteração inextinguível do mesmo Um”[6]. Fixidez de gozo que, ainda que articulada aos significantes que construíram a história do sujeito, não constitui o complemento, a última palavra, mas que se encontra em uma relação de disparidade, que é não linear.

No que concerne à minha experiência de análise, vou isolar quatro momentos para ilustrar esse salto paradoxal e seu destino em relação ao sintoma.

 

Despenda-se!

Em um primeiro tempo da análise, depois que as interpretações tinham produzido o desaparecimento do sintoma que havia me levado à análise, e depois que um novo laço amoroso se formara em descontinuidade com os que o tinham precedido, o analista aumentou o valor da sessão. Isso foi para mim como a ruptura de um acordo que produziu a transformação da figura paternal, aquela de um Outro que ama e que ajuda, que o analista havia presentificado até esse momento, em uma nova figura do Outro, que impunha todo tipo de sacrifícios. Foi somente mais tarde que eu percebi que essa manobra também tinha enfatizado a não coincidência entre a demanda e o desejo do Outro, que se mantinha para mim sob a forma de um che vuoi?

 

Despender sem medida

Em um tempo muito mais avançado da análise, ao fim de uma sessão, eu dei ao analista uma nota de cem euros no lugar da nota habitual de cinquenta, dizendo: “Estou pagando também a próxima sessão”. Mal tinha saído do consultório, num átimo, me dei conta de que tinha dobrado o preço da sessão. Eu me via assim pagando um montante exorbitante para mim, fora de medida. Esse “ato falho”, ratificado pelo silêncio do analista na sessão seguinte quando eu disse que só podia assumir o que tinha feito, deslocava a questão da despesa e do me despender para um nível que saía então de toda a dimensão calculável. Despender-me pelos outros tinha de fato caracterizado minha vida, da mesma forma que o cálculo dos custos e benefícios tinha acompanhado todos os meus anos de análise. No entanto, esse “fora de medida” abrira uma dimensão que não era mais absorvível no que a precedera.

 

Despender-me para manter o outro inerte

Foi somente mais tarde que o me despender, que havia caracterizado minha vida e que na análise eu tinha podido reconhecer como um meio de sustentar o Outro, pôde revelar sua face mais escondida. Quando a figura que havia presidido à construção de minha fantasia – a imagem da Pietà de Michelangelo – tomou forma na análise, ela pôde, em dois tempos diferentes, revelar suas duas faces: a mãe que sustenta o filho morto, mas também a mulher que tem um homem inerte em seus braços. Um sonho, no fim da análise, me permitiu apreender essa dupla configuração assim como o gozo que estava conectado a ela.

 

Despender-me

Se o filho morto e o homem inerte, ao fim da análise, caíram como semblantes fundamentais, despender-me restou para mim como a maneira de dizer o que anima o corpo, um nome da pulsão que me anima e que representa essa “reiteração inextinguível do mesmo Um[7] da qual fala J.-A. Miller. Despender-me é uma maneira de dizer o que resta da análise e que não cessa de se reproduzir, uma maneira aproximada de indicar “(…) no corpo, o eco do fato de que há um dizer”[8].

No fim da análise, esse resto, que é também ponto de causa, é de alguma maneira “liberado” da obrigação que o articulava ao Outro segundo as coordenadas da fantasia – no meu caso para sustentar o Outro ou bem para mantê-lo inerte. “Há Um sozinho”[9], mas ele pode achar no fim da análise um encontro e uma articulação inédita ao Outro e pode ser também um laço que, porque é inesperado e não mais ligado às contingências, é também marcado por uma certa precariedade.

 

Éric Laurent comenta a exposição de Paola Bolgiani[10]

A exposição de Paola ensina muito sobre os paradoxos do que nos nomeamos “sujeito suposto saber”. Essa figura tomou para ela a forma de um Deus Pai.

O analista, para Paola, encarnou com efeito as duas faces do Deus Pai, aquelas que Pascal distinguiu: o deus dos filósofos e dos sábios e o deus de Abraão e Jacó. O analista suposto saber, que garantiu as passagens dialéticas, é aquele dos filósofos e sábios.

E o analista de Paola passa por um certo número de mudanças, nas quais, Paola descobre, ela que quer fazer tudo bem, que fazer bem é, finalmente, fazer-se vítima desse bem, vítima sacrificial. Ela descobre ser a vítima que se mata na tarefa.

O analista toca em sua posição de arquiteta do universo aumentando o preço das sessões. Ele que até aí era bem tranquilo, como pai, como bom pai, torna-se uma figura inquietante, ávida. O que ele quer se transforma em questão: “Mas o que é que eu quero?” Aí, de fato, muda-se de registro, não imediatamente, sem dúvida. É o momento em que Paola, ela mesma, que experimentou em sua análise as diferentes básculas dialéticas, instala uma báscula que não se torna mais dialética.

O que é terrível na análise, da forma como Lacan nos fez percebê-la, é que os jogos de báscula da dialética, em dado momento, tocam o analista mesmo. Ele se torna um objeto não dialético, angustiante: ele me demanda o impossível.

Ao colocar o analista de Paola no masculino, eu faço o avesso do que se faz nos estudos culturais americanos, pois o analista de Paola é um analista mulher que, entretanto, encarnou perfeitamente para Paola as figuras do pai, do Nome-do-Pai, de ele.

No momento da báscula, então, é a própria Paola quem dobra a aposta. O que transforma o analista naquele, naquela que demanda o impossível. Aí não estamos mais na dialética hegeliana, estamos na angústia diante do deus kierkegaardiano, aquele que pode lhe desejar o mal, aquele que está contido no deus de Abraão e de Jacó, aquele que ordena o impossível e com o qual não há mais jogo dialético, qualquer que seja a sutileza dialética da Mishná para saber exatamente o que Deus demanda. Existe um ponto que leva à angústia e que está fora da dialética.

A partir daí, entramos nos mistérios do fim de análise para Paola: de início, a redução dessa dialética em torno de uma escrita despender, que é ao mesmo tempo uma palavra da língua e um traço da energia pulsional, que faz pensar um pouco na corredora de Anne Lysy[11], um tipo de nomeação de uma energia pura, eco de Georges Bataille: perda, despesa.

Esse despender se apresenta de início como um me despender. E, surpresa, me despender para fazer de modo que o parceiro fique inerte, morto. E, em seguida, me despender se torna antes um se fazer despesa. Não é mais me despender como ação, é um “se produzir”, se fazer despesa que permite retomar a questão da feminilidade e do parceiro feminino.

Travessia, vemos, escandida do que Lacan em algum momento tinha designado como travessia das identificações como tendo em seu horizonte o ser para a morte, que se declina de início entre todas as identificações possíveis da vítima. Depois, um ser para a morte aparece do lado do parceiro. E, em seguida, permite o acesso à questão pulsional, como tal, o “se fazer”. E, daí, insiste o Um, o puro Um fora de sentido, uma vez atravessadas as identificações e as aparências. Aí novamente, a exposição termina sobre a questão do parceiro, que não está mais no lugar do inerte, que não é mais o motor imóvel como sujeito morto, mortificado de uma certa maneira. E se abre a questão, para Paola, do que é esse parceiro.

É a mesma questão que finalizava a exposição de Leonardo, com isto de variação; para uma mulher, não se pode dizer que o homem é seu sintoma. Lacan disse “sua devastação”. Não é sob essa forma que isso aparece para Paola. Mais exatamente, para ela, esse parceiro, saído do lugar do sujeito inerte, poderá, talvez então, falar-lhe. Fiquemos com a questão, nós a retomaremos depois da exposição de Sonia.[12]

 

Tradução: Márcia Mezêncio

Revisão: Ana Helena Souza

[1] Traduzido de Bolgiani, P. Saut dans le vide. Mental, Bélgica: EFP, n.29, fev/2013, p. 87-92. Texto publicado com a gentil autorização da autora.

[2] Psicanalista, AME, Membro da SLP (Scuola Lacaniana di Psicoanalisi) e da AMP.

[3] Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 70, 2005, p. 21.

[4] Lacan, J. “Intervenção sobre a transferência” (1951). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1998, p. 214-225.

[5] NT. Em português esse tempo verbal é chamado de futuro do pretérito composto.

[6] Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 70, 2005, p. 21.

[7] Ibid.

[8] Lacan, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2007, p.18.

[9] Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1985, p.91.

[10] Comentário não relido pelo autor.

[11] NT. Cf. publicado no boletim Ecos 1, Lysy, Anne. Acontecimento de corpo e final de análise.

[12] NT. Laurent se refere aos testemunhos de Leonardo Gorostiza e de Sonia Chiriaco, por ele comentados nessa mesma ocasião.

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