Resenha SOLANO-SUÁREZ, Esthela. De l´évenément à l´avénement. In: La Cause du Desir. Paris, no. 100, 2018, ps. 59-63.


por Renata Mendonça

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

A psicanálise estabeleceu um ponto fundamental: temos um corpo não somos um corpo. Ele se constrói, não está posto de imediato.  Sua escrita é única, feita a cada vez e, como se constrói um corpo passa diretamente pela construção de um sintoma, os modos de gozo e pela lógica fálica.

Neste texto, Esthela Solano-Suárez apresenta-nos,  em seu testemunho,  a sua construção de corpo, sua infância, a busca pelo saber, um laço com o Outro materno que oferece a ela a religião e a devoção como saída, um modo de gozo e uma resposta ao seu ser, que se sustenta até sua análise com Lacan.

Na adolescência, em que o encontro com o sexo se faz presente, em que o sujeito vive os embaraços deste encontro e a falha na fantasia, ela encontra o amor e se separa da devoção religiosa fazendo seu percurso pelo saber acadêmico. Esse percurso passa pela psicanálise, por tornar-se uma psicanalista, leitora de Freud, numa devoção ao saber e ao sentido. Ao ter alguns embaraços na própria clínica ela encontra com o texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” de Lacan. A leitura deste texto faz com que ela procure Lacan e continue sua formação e análise.

Ela o encontra na década de 70, época em que o Seminário 23 estava sendo ministrado e isso não foi sem consequências. Em seu testemunho relata o percurso de uma desconstrução de corpo no qual Lacan sustenta o fora de sentido para que ocorra uma nova escrita de corpo em que o gozo feminino possa ter lugar, bem como o fora de sentido e os embaraços da infância. O nó construído até aquele momento passa a se desfazer e assim se constrói um novo corpo, sendo uma mulher. Ela consente, então, com o impossível da relação sexual. Com o impossível do A Mulher.

“A operação de Lacan consistiu em opor uma recusa categórica na estratégia neurótica de fascínio, ruptura dos semblantes, desarticulação do Um unificante para o cessar categórico da falação, do bla blá blá, e por uma redução do gozo fálico que a análise operou, fazendo, assim, cessar os embrolhos do sentido. Isso não foi possível senão pelo secar da via de uma verdade para abrir aquela do Real.” (SOLANO-SUÁREZ, p.63)

Esse trabalho só foi possível com a “operação de Lacan, esvaziando o campo da linguagem das significações para manejar a letra fora do sentido. Uma operação que visava o acompanhamento do Real do sintoma do gozo irredutível, fora de sentido e sem lei” (SOLANO-SUÁREZ, p. 63). Esthela pôde, a partir deste trabalho, encontrar o seu lugar de uma mulher e construir um sinthoma.

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