Resenha BÉRAUD, Anne. La morsure. In: Quarto 123, La réson du rêve, nov. 2019.
por Mônica Campos Silva

A partir deste testemunho de passe é possível localizar como o acontecimento de corpo fixa a marca determinante do sintoma. É com o percurso da análise que será consentido nomear este evento e suas declinações. Anne Béraud parte de que o sonho para Lacan tem a ver com o real: “O umbigo é um estigma que se resume a uma cicatriz, a um lugar do corpo que dá um nó e que esse nó é pontuável, não mais no seu próprio lugar claro, pois aí há o mesmo deslocamento que está ligada à função e campo da fala.”
Anne narra um evento, aos dez anos de idade, quando a mãe lhe enuncia: “Fazer amor é a coisa mais maravilhosa do mundo”. Tal dito remete o sujeito a uma promessa de gozo infinito e de amor que faz sintoma como imperativo de gozo ilimitado se encarnando em uma demanda devorante impossível. Ante a essa experiência o sujeito consiste um muro, ponto de devastação, entre ela e a mãe, marcado por uma inacessibilidade à última. Aliado a esse fato, Anne acrescenta o eco de uma frase do pai – “suba naquilo, você verá Montmartre” – algo que inscreve a questão sexual como promessa ligada ao objeto olhar, convocando seu olhar na perspectiva de um ideal.
Todavia, é a partir da revelação de que a mãe a deixara sozinha aos quatro meses para ir ver uma amiga, esquecendo-a bebê que há um ressoar do acontecimento traumático precoce que tinha feito a cama de seu sintoma. Este dizer, segundo Anne, produziu um acontecimento de corpo. Em análise, confrontada com o horror de saber, consente com a interpretação do analista sobre o seu ódio e o endereçamento deste, tendo como efeito o esclarecimento de que a devastação que imputava à mãe é de estrutura, “o muro da culpabilidade entre mãe e filha desaparece, a crença nos ideais cai e o gozo em andamento cede. Uma vez percebido o ódio que dava consistência à A mulher, a solidão de minha feminilidade se torna possível.”
A esse relato acrescenta três sonhos:
O primeiro sonho a desperta para a sua relação à infinitude mortífera do gozo. “Estou em um barco com minha mãe em um rio selvagem. Eu caio na água que está cheia de crocodilos. Um crocodilo me morde na barriga. Em pé no barco, minha mãe me olha em silêncio. Eu sinto e vejo meu sangue esguichar em um fluxo hemorrágico. Sei que vou morrer.” Assim, o olhar opaco e cego da mãe, no sonho, sofre uma mudança, “a minha mãe me olha e me vê. É um olhar do qual eu não espero nada. Ela não pode fazer nada por mim. O objeto oral aparece sob a forma da devoração. O crocodilo é meu ainda”.
O segundo sonho. “Eu ando na beira de um lago com o companheiro. Na lagoa, crocodilos imóveis. Passamos na beira com cuidado”. O sujeito anota que, desta vez, há uma borda ao gozo feminino impossível de negar.
O terceiro sonho. “Ouço no sonho a seguinte frase: ‘A cicatriz da mordida do crocodilo é o que resta da perda do objeto perdido para sempre. ’ Ao ouvir a frase, vejo a cicatriz na forma de um ponto de costura. A mordida do crocodilo retorna sob a forma do resto inanalisável: a cicatriz.”
Ao articular o acontecimento que faz marca aos sonhos, Anne conclui que “a mordida poderia se ler no primeiro sonho como morte certa. Eu sou mordida no umbigo, lugar do recalque primordial, nó da vida e da morte, buraco que é o limite da análise. Desta vez é a cicatriz, a garra, o traço, a inscrição, o ponto de costura como uma escritura, no nível do umbigo. Este sonho toca um real: a marca do Outro, de minha entrada na vida, golpe do significante sobre o corpo. Da demanda devorante do início, objeto oral causa do desejo mudou de uso: mordida na vida, ser mordida – apaixonada – e nunca desista. A mordida significante, como chave do sintoma, costurou meu estilo.”
Ao comentar este testemunho, L. Dupont extrai o sonho não como efeito de verdade, mas como índex de uma marca, do traço deixado no corpo do vivente. Nesta medida, aparece um significante novo, mordida, que Anne lê como um nome de sinthome: “mais além, com a costura do umbigo presente no último sonho, se enlaça o corpo e lalangue.”