Fazer-se um corpo > Acontecimentos do corpo

Quando o corpo acontece


por Sérgio Laia

Na experiência analítica, discernimos diferentes modos de aparecimento do corpo: suporte imaginário da identificação de “si mesmo” e das persistentes ameaças do “outro”; fonte ou borda para a satisfação das pulsões; matéria da qual se recorta o objeto da fantasia; local para instalação desse objeto perturbador e invasivo que se impõe nas psicoses, etc. Entre esses modos de o corpo aparecer, destacarei, aqui, a fantasia e, a partir do que a excede, procurarei localizar “o sintoma” como “um acontecimento de corpo, ligado ao que: se tem, se tem ares de, se areja/erra, do que se tem” (LACAN, 1979/2001, p. 569)[1].

A fantasia implica uma compensação em termos de ser e de libido para o sujeito mortificado pelos significantes recebidos do Outro, para essa perturbação de que, por mais que se seja, ainda não se é como se almeja. Pelo objeto a, o $ tenta reparar-se de sua falta-a-ser, de seu desvanecimento entre os significantes. Porém, quando a objetalização do sujeito ganha uma espessura a ponto de demarcar, no enquadre da fantasia, certas fissuras e, sobretudo, seu desfuncionamento, há confronto com o real do qual esse enquadre tentava ser também tela, anteparo. Nesse contexto, não é como falta-a-ser que o sujeito responde porque ela ainda lhe confere alguma identificação, embora evanescente, no campo do Outro.  Há confronto com uma destituição de ser, com uma experiência de des-ser, de dissolução das referências identificatórias, com um esvaziamento do ser bem diferente da experiência de falta-a-ser.

Nada impede que essa destituição de ser se imponha, de forma selvagem e feroz, quando alguém, mesmo no início de uma análise, se vê perturbado por certas perturbações do corpo, deflagradas pelo que um analista já pode discernir como um modo de satisfação que extrapola o enquadre da fantasia. Esse esvaziamento, sem qualquer índice de selvageria (mas não sem angústia e perturbação), também se processa quando, no decorrer de um longo trabalho analítico, um analisante – sem ainda conseguir muito bem discernir outros modos de viver a pulsão – terá de se haver com a descrença de que fantasia possa continuar servindo-lhe de enquadre-anteparo para o real da satisfação pulsional.

Aludindo a uma homofonia francesa utilizada por Lacan (1979/2001, p. 565), sustento que, quando “o homem” que “vive do ser (vit de l’être)” encontra esse “vazio do ser”  (vide de l’être) como diverso de sua falta-a-ser ($) e de sua própria objetalização na fantasia (a), ele tem essa experiência que MILLER (2001) localizou como “ter um corpo… marcado essencialmente pelo sintoma… definido como acontecimento de corpo”. Considero importante esclarecer que o sintoma como acontecimento de corpo não se confunde com a “somatização” ou com o que alguém recebe, sob a forma de significado do Outro, s(A) (LACAN, 1959/1998, p. 820 ), nas referências identificatórias que marcam sua vida como falta-a-ser. O sintoma é acontecimento de corpo quando há experiência de que se tem um corpo que, mesmo sendo “seu”, não deixa de lhe ser literalmente Heteros, ou seja, uma diferença que lhe concerne sem no entanto deixar de lhe escapar. O corpo, se posso dizer assim, acontece. Logo, a concepção lacaniana do sintoma como acontecimento de corpo me parece ser melhor elucidada se lermos a expressão “de corpo” como o que a gramática nos ensina a designar como “genitivo subjetivo”: em vez de o corpo ser simplesmente o objeto de acontecimentos sintomáticos, é ele que acontece, chegando mesmo – como sintoma – a se sobrepor ao sujeito e à sua objetalização na fantasia. Por isso, tal acontecimento de corpo não é exclusivo do que se passa ao fim de uma análise, mas tampouco deve ser confundido com o que aparece aparece como perturbador ou invasivo no corpo: trata-se, de o corpo, ele mesmo, como acontecimento heterogêneo e presente para quem vive essa experiência perturbadora (mas que pode ser também liberadora) de um corpo que acontece.

 

REFERÊNCIAS

 

LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 807-842.

 

LACAN, J. Joyce le Symptôme (1979). In: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 565-570.

 

LACAN, J. Joyce o Sintoma (1979). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.  560-566.

 

MILLER, J. Cours de l’Orientation lacanienne. L’être et l’Un, 2011. (inédito).

[1] Minha tradução, acima, é bem diferente daquela que se encontra na edição brasileira desse mesmo escrito de Lacan (1979/2003, p. 569). A principal diferença é que preferi traduzir événement por “acontecimento” (e não por “evento”). Destaco, ainda, que l’aire (possível de ser traduzido literalmente por “o ar”, l’air, ou mesmo “a ária”) é homófono de leurre (“engodo”) e, por isso, preferi colocar – ao lado de “areja” (que remete ao “ar”) – o verbo “errar”, mas a referência à “ária” aparece apenas de modo indireto, graças à possibilidade de, nesta frase escrita por Lacan, escutarmos uma espécie de canto, como ele próprio sustenta, na frase que vem logo depois dela.

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