
O que fazer de seu corpo?
por Cristiana Pittella
O que singulariza o corpo do UOM é a incidência contingencial da língua sobre o corpo.
J.A- Miller[1] nos mostra como o corpo oferece a sua matéria, a sua realidade, ao significante. E Lacan não cessou de escrever o processo de elevação ao significante, a Aufhebung, que provoca uma certa anulação da coisa. O ideal da sublimação da coisa em face do significante, implica assim o saber incorporal.
Mas contingencialmente o significante também afeta o corpo, é incorporado e causa de gozo. Essa afecção desarranja as funções do corpo vivo, cujo efeito no falasser é uma repercussão desse gozo fora-de-sentido, que Lacan escreve lalíngua de cada um. Lalíngua traumatiza e esburaca o corpo que, vazio, como uma câmara de eco não dá o significado do significante, o que Lacan chamou da não-relação.
Com a palavra S.K.belo (que lemos escabelo), com essa escrita enigmática, Lacan desnuda o real que o falasser se confronta e que a sublimação tenta velar. No coração do belo e do sublime, um S.K enigmático e fora-de-sentido[2].
“O S.Kbelo é aquilo que é condicionado no homem pelo fato de que ele vive do ser (= esvazia o ser) enquanto tem…seu corpo: só o tem, aliás, a partir disso”[3]. Ele tem um e não é um.
O corpo do ser falante está comprometido, implicando o gozo e a satisfação da pulsão. O sintoma como metáfora e formação do inconsciente sai, para entrar o falasser e o sinthoma enquanto um acontecimento de corpo. Um modo singular de fazer-se um corpo a partir dos detritos desse acontecimento de gozo fora-de-sentido.
O S.K.belo faz assim decair o ideal de elevação, a perfeição e a tradição, destronando a esfera de Das Ding. Ele é modesto e ordinário, tem mais a ver com o descostume e o imundo. Nessa montagem, restos e peças soltas não exigem o sentido e a interpretação, com o S.K.belo podemos pensar uma outra forma de sublimação pois, ao se entrecruzar com o narcisismo, o corpo e o olhar estão de volta à cena.
Na arte contemporânea, ler a obra de Ernesto Neto – que se considera um autodidata -, seu gosto, nos encanta. Entre esculturas e instalações imersivas, ele utiliza materiais diversos como aqueles flexíveis que se assemelham a epiderme, as tramas e amarrações de chochês em formas orgânicas e sons que percutem no corpo. Suas obras podem ser tocadas e tocam o público que as penetram, elas envolvem e convidam o espectador não só a olhar, mas a sentir, experimentar e respirar.
Ernesto Neto traz no cerne de suas obras e preocupações, a natureza, o feminino e a mística. O artista falou em uma ocasião que quer que as pessoas “pensem com seus poros” e que seus objetos de arte acontecem e reverberam no mundo.
Eles são a forma de sentir a ‘sua própria pele’ no trabalho, como se eles, ao se reproduzirem e se multiplicarem, fossem uma extensão sua, “pedaços de mim que proliferam”. Ernesto Neto agora vem optando por declarar, de forma evidente, a sua presença dentro da obra. Ele coloca no centro dela o corpo e o acontecimento[4].
O belo é contemplado ao nível do sinthoma.
[1] Jacques Alain-Miller, Biologia Lacaniana p.65, Opção Lacaniana 41, Revista Brasileira Iternacional de Psicanálise, Dezembro 2004.
[2] Hervé Castanet. Escabelo/ S.K.belo (e Duchamp), in Silicet O corpo falante, sobre o inconsciente no século XXI, Associação Mundial de Psicanálise, Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro 2016.
[3] Jacques.Lacan, Joyce o Sintoma, p. 561, Outros Escritos, 2003, Jorge Zahar Editor
