Bibliografia

O corpo: na falta de poder falar dele
NAVEAU, Laure. Le corps: faute d’en pouvoir parler. In: Révue Cause Freudienne, n. 44. Paris: École de la Cause Freudienne, fev/2000, p. 82-86.
Esse texto de Laure Naveau traz a experiência de um caso clinico, Ana, uma mulher com 30 anos de idade que passou a ter uma doença evolutiva em seu corpo, o que a impedia de se locomover normalmente. Se a presença da analista “em carne e osso” a apaziguava, o horizonte de sua análise teve como suporte o acontecimento especular do corpo da analista para que a ressonância da cadeia significante do sujeito se colocasse a partir de uma marca no corpo. Interroga-se, portanto, em que o corpo da analista faria cumprir uma consistência fálica que restaurasse a sua imagem, lá onde o Outro da linguagem falha para que ela se sinta viva. Se “o corpo grita” através do sintoma, supõe-se que o banho de linguagem instaura uma operação inadequada entre o uso e o gozo do significante.
A identificação de Ana com a precariedade da mobilidade de sua mãe alcóolatra estava em jogo, bem como a violência do pai para conter essa mãe, quem não conseguiu resistir à destruição operada por ela.
A partir de uma cena de horror, na qual Ana, quando adolescente, chuta a sua mãe bêbada ao chão, gritando para que ela se levantasse, toda a dimensão de culpabilidade e punição que o seu sintoma no corpo encobria, veio à tona. Surge a angústia do lugar vazio deixado por uma mãe alcoólatra e pela relação entre os pais na ausência de todo o laço vivo entre os sexos. A mãe que só queria a decadência e não se curar, negando todas as tentativas de cuidados médicos, transmitia ainda o desespero e a infelicidade reservados à condição feminina, bem como o que buzina sempre em seu ouvido: “ Você nasceu sem sorte”. Para o pai, uma frase: “ele é um ogro. Sempre eu me escondia sob a mesa quando ele chegava em casa”. Tudo isso alimentava sua culpa edipiana. O que esperar do destino funesto da culpabilidade que a levou para a doença do seu corpo sofrido, se toda esperança de felicidade é reduzida a nada?
Desde a infância, entretanto, alguns cenários fantasmáticos ocuparam o lugar desse vazio. São cenários onde ela se colocava como uma Amazona que combatia o mundo dos homens, sua crueldade, barbárie. A partir das inúmeras versões desse cenário infantil, as palavras tomaram corpo em sua análise: “Fui uma amazona, não tinha medo, eu defendia com vigor a causa das mulheres, depois fiquei doente, deitada na cama, agora um divã, de onde só consigo me curar pela palavra, a minha e aquela de um homem que diz me amar”. As variações do cenário infantil tornam marcantes a constância e a fixidez do seu corpo deitado, que pode, inclusive, responder à cena real da mãe alcoolizada deitada ao chão. A interpretação do sujeito é que sua doença seria um retorno sobre seu corpo dos golpes dados sobre o corpo da mãe – uma espécie de avatar de “Espanca-se uma criança”, de Freud.
Mas, a presença da analista com o seu corpo torna viva a imagem do próprio corpo de Ana; além de acolhê-la, introduzir um corte ou uma vacilação sobre o sentido de ela se tornar sua mãe, promove um não-sentido, irredutível, traumático, ao qual o sujeito poderá se ver assujeitado – é o duplo efeito do significante, de sentido e de buraco. A presença da analista, mais do que aquilo que Ana se põe a falar, traz a chance de restaurar uma junção suportável entre o simbólico e o real, já que, como diz Miller em “A experiência do real” (1998-99), “ o real do corpo do analista, é o de que se trata no horizonte da análise”, suscitado em seu ato.
O sujeito, enfim, reconheceu seu dom de se curar dos sintomas, reintegrando sua história ao objeto que lhe causou, até o ponto onde um único sintoma, fundamental, restabelece uma certa humanidade, lá onde o preço, em sua origem, foi muito alto. Trata-se de um deslocamento da identidade significante ao modo de gozar, onde o significante ganha corpo no sentido real, introduzindo um novo afeto.
Se o traço unário recobre a marca invisível do significante, alienando o sujeito à identificação primária que forma o Ideal do eu, no buraco da linguagem está a causa da repetição onde surgiu a função do objeto perdido.
Samyra Assad