O buraco negro da diferença sexual - Marie Hélène Brousse[1]
por Virginia Carvalho

Nessa Conferência, Marie Helène Brousse (2019) trabalha o tema da diferença sexual na contemporaneidade, tempo em que “o gênero suplantou o sexo” (s.p.). Para ela, “desde o momento em que se entra no campo da diferença sexual, tudo o que define a singularidade dos modos de gozar e das posições subjetivas torna-se inacessível” (s.p.), tal como ocorre no buraco negro. De acordo com a teoria da relatividade, “tudo o que entra no interior do buraco negro – toda a informação, toda a matéria –, é assimilada”(s.p.) a ele.
A diferença, ao mesmo tempo em que é um “dos fundamentos da ordem linguística” (s.p.), ligando e separando pares significantes, é “também um modo de satisfação que produz gozo, tanto se afirmando – pois cada falasser goza de sua diferença –, quanto se apagando” (s.p.). Por isso, a ordem diferencial pode resvalar-se para uma ordem segregativa, já que “não há segregação que não se prenda a uma diferença atribuída aos modos de gozo” (s.p.).
A psicanalista lembra que a abordagem lacaniana da diferença sexual nos seres falantes não ocorre a partir da natureza e sim da linguagem e do sujeito. Mudança radical que demarca a distinção entre o pênis e o falo, “metasignificante” (s.p.) que se reduz a um menos cujo valor comum permite aos corpos falantes entrarem em intercâmbio. A passagem do sujeito ao corpo falante nos permite considerar a “oposição não binária entre o Todo, incluindo todos os seres falantes de qualquer gênero que sejam, e o não-todo, que precisamente não permite mais à diferença binária consistir” (s.p.).
Brousse nos apresenta fragmentos clínicos sobre versões dessa diferença nos dias atuais, indicando que ela só pode se formular no campo da identificação e da fantasia: “ser classificado por gênero só é possível do lado da lógica do todo e da exceção fálica”(s.p.), pois tanto o homem, o macho, como A mulher são criações de discurso. E, nesse sentido, com Lacan, conclui que “o sexo é o efeito de um dizer” (s.p.).
Trata-se de uma Conferência que nos convida ao trabalho, abrindo várias perguntas que concernem ao tema da nossa 25ª Jornada. Questões que nos remetem às invenções das crianças, as perverso polimorfas apontadas Freud. Teriam elas novas teorias sexuais? De que palavras elas se servem hoje para dizer de seu pertencimento e de seus singulares modos de gozo? Estariam elas mais para perversas polimorfas ou para puritanas?
Aprendemos com Brousse (2019) que diante de tantas modificações na cultura, “a única coisa que permanece estável é a própria diferença como função engendrada pela linguagem e, portanto, o real da escolha que é a definição mínima da castração” (s.p.). Nesse panorama, ela lembra a ideia lacaniana de que não existe segundo sexo e também sua assertiva de que o terceiro sexo “não subsiste na presença dos outros dois” (Lacan citado por Brousse, 2019, s.p.), dependendo apenas do amor.
Da diferença sexual ao amor, Brousse conclui sua contribuição questionando se “o amor zomba da diferença sexual”. E, com Lacan (1973-74), sabemos que “o amor não é outra coisa que um dizer enquanto um acontecimento” (p.74).
REFERÊNCIAS
LACAN, J. O Seminário, livro 21: Os não tolos erram. (inédito)
NOTAS
[1] BROUSSE, M.H. O buraco negro da diferença sexual. In: Cien Digital, n.23, nov. 2019. Disponível em: https://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/?print=print