Não  há uma estética do gozo[1]


por Miquel Bassols

Dyana Santos, Manifesto Resistência, escultura em cobre

A irrupção do sexo no corpo é sempre traumática, na medida em que rompe a unidade imaginária que cada um construiu a partir da imagem de outro ou de outra. Ou de outre, dá no mesmo. Dá no mesmo, exatamente porque apenas dá no que faz com que eu me creia idêntico a mim mesmo[2]. A imagem do corpo se constrói de forma recíproca – embora nem sempre simétrica – a partir da imagem desse outro especular. É sempre e necessariamente um Um com Outro, e o Um é o Outro para o Outro, é o Um feito à imagem do Outro, sempre a partir de pequenas ou grandes diferenças relativas. Nós o chamamos “o semelhante”, e é o único que podemos representar do nosso corpo para torná-lo um pouco mais suportável. Às vezes o escolhemos como par, ao estilo “homo”, que aqui quer dizer homogêneo mais que outra coisa. Porque da Outra coisa não queremos saber nada. E assim cada um se “arruma”– no sentido também de “arrumar-se” para sair na rua – o melhor que pode. Mas é sempre a partir da imagem do outro, mais ou menos ideal, mais ou menos estranha, mais ou menos monstruosa, sempre recíproca entre Um e Outro.

A experiência real do gozo no corpo introduz, contudo, outra diferença, uma diferença absoluta, impossível de reciclar na experiência da unidade homogênea do corpo. O sexo é um Um distinto do Um do narcisismo, é um Um sem outro possível com o qual medi-lo, compará-lo, imaginá-lo, simbolizá-lo. E é por isso que não há estética do sexo ou do gozo que possa sustentar-se sem derivar em uma moral, segundo os costumes da época. Melhor não se queixar demais por isso, mas melhor também não se confundir demais com os semblantes que a época nos propõe: com a moda, pelo costume, no movimento, na confraria, na igreja, sempre com uma insígnia … os semblantes que hoje são nossos deuses. A experiência do sexo é sempre uma experiência parcial e parcializante da unidade imaginária e sentida no corpo: ereção de um lado, ruptura de outro, cócegas convulsivas, tremor espasmódico, ardor de calafrio, tremor trêmulo até a exasperação. Quer seja sentido como interior ou exterior, sua origem é finalmente impossível de localizar. Borda dos orifícios do corpo que se funde palpitando no vazio que quer cercar. Sempre vem de fora, mas é um fora tão interior que põe em xeque qualquer unidade imaginária do corpo. O sexo é Outro corpo, corpo estranho que irrompe no corpo conhecido até o momento. Mas só é Outro para alguém que possa pensá-lo desde um fora. Desde esse espaço interior e exterior ao mesmo tempo, o sexo é o Um do gozo, sem Outro possível de onde se possa representá-lo.

Esse gozo sem Outro só pode ser experimentado como alteridade radical incrustrada, a partir de então no corpo, como um alien. Se em algum momento há algum outro monstro que não seja Eu, é esse alien de gozo, só que não tem nome nem imagem possível, de tão Outro que aparece para nós. É uma das razões do racismo e das diversas formas de segregação social, a começar pela que recai há séculos sobre muitas mulheres. Parece um gozo Outro – é por isso que às vezes o chamamos assim, o gozo do Outro ( goce del Otro), o gozo de o Outro ( el goce de lo Otro) – mas na realidade é a irrupção do Um do gozo sem Outro a quem se dirigir, sem Outro de quem receber uma significação, uma representação. E ninguém está suficientemente bem preparado para isso. Quando chega, chega, sem que se possa esperar. E quanto mais o esperamos, menos ele chega. Para fazer-lhe frente ou para encontrá-lo da boa maneira não há pedagogia possível, nem sexologia que não se converta finalmente em uma moral, inclusive em moralismos. Seria menos moralismo promover a homossexualidade como forma melhor de gozar em relação a outra, heterossexual ou não? Não, para o discurso da psicanálise não há uma forma boa e melhor de gozar que se possa propor como objetivo de sua experiência e de sua ação. Dito de outro modo, não há uma estética possível do gozo, não há um que se possa propor como melhor, mais belo ou menos patológico que outro. Qualquer forma de gozar, levada ao limite, se converte em pura pulsão de morte. Há, isso sim, uma ética do gozo, uma posição que assume de saída a insistência dessa pulsão de morte na própria lógica do prazer. E diante dessa fratura, há poucos discursos que não retrocedam, ou que se afastem quanto mais pensem que se aproximam dela.

Sempre na contracorrente desse movimento de segregação, o que a psicanálise constata é o seguinte: quando uma experiência de gozo irrompe na vida de um sujeito, há um antes e um depois, nada pode voltar a ser como antes, para o bem ou para o mal. Os analistas lacanianos, nós o chamamos: um encontro com o real.

Tradução: Ana Helena Souza
Revisão: Márcia Mezêncio

NOTAS

[1] Capítulo do livro de Miquel Bassols: La diferencia de los sexos no existe en el inconsciente. Sobre um informe de Paul B. Preciado dirigido aos psicanalistas. Olivos: Grama Ediciones, 2021, p. 49-52. Gentilmente cedido para publicação  pelo autor e por Alejandra Glaze da Grama Ediciones.

[2] Aqui nos permitimos sublinhar a contundência do título escolhido por PBP, “Eu sou o monstro…”, que em francês ficava mais atenuada com “Je suis un monstre…”, título com o qual foi publicado na França o discurso de PBP. E que finalmente melhor conviria traduzir, a la Rimbaud, simplesmente por: “Eu é o monstro”. O monstro, como o inferno, não são os outros, o monstro é o Eu de sempre, eu que se mostra com as penas peroladas do narcisismo.

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