Bibliografia


DUPONT, Laurent. De um dizer que faz acontecimento ao acontecimento de dizer. In: Revue La Cause du Dèsir n. 100, p. 80-83.

Laurent Dupont nos indica que, em uma análise, que é feita de palavras, pode-se fazer emergir um dizer que fará acontecimento. A condição essencial para que isso ocorra parte da transferência estabelecida ao analista.

O autor aborda a questão, que ocupa o título deste texto “de um dizer que faz acontecimento ao acontecimento do dizer”, partindo do pressuposto de que um sujeito vai buscar uma análise e esta se inicia quase sempre quando ocorre uma falha na significação. De modo que se dirige a um analista para buscar uma explicação disso que fez um furo no sentido ou que fez um enigma. É nesse sentido que a transferência ao analista é, para Laurent Dupont, o divisor de águas e, portanto, o que distingue a posição do analista em relação à psicologia.

Por essa via, ao não responder à falha de sentido, o analista viabiliza a entrada do analisante no dispositivo analítico, à medida que possibilita que o enigma inicial se desenrole, buscando um sentido sobre o qual o analisante se debruça do início ao fim de sua análise. Nesse contexto é que “a transferência repousa sobre o enigma que o sujeito é para ele mesmo e o fim da análise se opera, uma vez que todos os sentidos estão esgotados, todas as construções elaboradas […] sobre este ponto central do indizível […] do singular de cada um. Existe então um mais além do sentido que permite esperar este ponto que, se não se pode dizê-lo, pode se experimentar por um efeito do dizer.”

Neste contexto, temos um acontecimento de um dizer que pode levar a um dizer que faz acontecimento. Como Laurent articula isso?

Existe uma trajetória que vai do sintoma com sua parte interpretável – o sintoma do inconsciente estruturado como uma linguagem – ao sinthoma enquanto traço de um corpo marcado, que se repete infinitamente apontando aí a marca traumática do encontro inicial com a linguagem. É, pois, através dessa repetição que se pontua este mais além do sentido. Por exemplo, uma palavra ouvida na infância, quando lembrada e falada na sessão de análise, por meio da presença do analista, pode fazer um acontecimento, se fazendo dizer. É no dispositivo analítico, sustentado pela transferência e pelo desejo do analista, que essa operação é possível. Ao manter a brecha aberta entre o dizer (uma palavra falada, que foi ouvida na infância) e o S2, é que a singularidade absoluta de cada um pode advir. Então, o desejo do analista visa isto: “obter o mais singular disso de que é feito seu ser.”

Laurent Dupont nos guiará, neste texto, até o final de uma  análise e o testemunho do passe de um AE, no qual este se confronta com a experiência do acontecimento de dizer, dizer através do seu testemunho: “Os AE testemunham esses momentos que podem se cristalizar em um nome que passa a encapsular o gozo”.

Para concluir, existe no passe, no testemunho público, um acontecimento de dizer, um corpo que toma a palavra. É assim que Jacques Alain Miller propõe este momento de testemunho como uma demonstração, ou seja, alguma coisa que se mostra no oco, no oco disto que a palavra não alcança, mas que o dizer, que inclui o corpo permite fazer passar, ou não. Nenhuma garantia nos testemunhos, apenas um acontecimento, transmitir uma palavra que pode ou não ser um acontecimento. Com isso, nos testemunhos há uma ressonância do que é o dizer que faz acontecimento e o acontecimento de dizer.

Maria de Fátima Ferreira

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