Interpretação no tempo do falasser > Lalíngua

Lalangue: o uso do lapso[1]


por Alessandra Thomaz Rocha

O surgimento de lalangue ocorre a Lacan precisamente na primeira lição do seminário O saber do psicanalista  (1971-1972), de 04.11.71[2], seminário no qual seus alunos, inspirados pela leitura de Georges Bataille, levantavam a bandeira do não saber. Lacan refere-se à Bataille e a suas conferências sobre o não saber, dizendo que a ideia de não saber não teria vindo de outra parte senão dali, para, em seguida, afirmar que “há o não saber”.[3] (Lacan, 1971-1972, p.09-10)[4] É então a partir do não saber de Bataille, que ele designa como sendo um achado, que escolherá partir para introduzir o que ele chamou de uma “confusão definitiva sobre um assunto delicado, aquele que é o ponto em questão na psicanálise, aquele a que eu chamei fronteira sensível entre o saber e a verdade”. (Lacan, 2011, p. 18) Será a partir deste acontecimento inconsciente que ele irá extrair o termo que mais tarde adquire toda sua importância e será elevado à dignidade de um conceito. Ao abordar o que seria seu segundo achado – que tem relação com seu discurso “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, (Idem, p.18) refere-se ao encontro do que ele acreditou terem sido os dois melhores sujeitos que poderiam trabalhar na sua linha, de modo a fiar seu fio. Neste momento lhe ocorre o lapso. Ao invés de dizer Vocabulário da Psicanálise, ele diz Vocabulário de Filosofia. O primeiro foi elaborado por Laplanche[5], seu antigo aluno, e o segundo é um dicionário de filosofia de autoria de Lalande. Lalangue é a condensação dos significantes Laplanche, Lalande e a língua – La langue –, revelando-se uma metáfora que ele irá adotar, a partir de então, como um significante mestre, um S1, representante da linguagem do inconsciente, esse não saber gozoso, lapso, que se apresenta como sendo a própria fronteira entre a verdade e o saber.

Alíngua (Lalangue), como escrevo de agora em diante, em uma única palavra, é outra coisa”. (Lacan, 2011. p.19) Entretanto, afirma que não se trata de dizer que o inconsciente se estrutura como lalangue, mas como uma linguagem. Esclarece que lalangue nada tem a ver com o dicionário, mas tem tudo a ver com o inconsciente. O que dá passagem ao inconsciente tem a ver, de início, com a gramática e tudo a ver com a repetição. A gramática e a repetição são uma vertente na função de lalangue, uma vez que remetem a uma lógica do funcionamento do inconsciente. A gramática é da ordem do escrito e a repetição da ordem do dito.

Quanto à Laplanche, seu ex-aluno à época do Seminário 19, era seu opositor. Afirmava que o postulado lacaniano “o inconsciente está estruturado como uma linguagem” poderia ser invertido, uma vez que o inconsciente seria a condição da linguagem. Nada mais equivocado, já que sua oposição revela, mais além do desconhecimento do ensino daquele a quem acompanhara tão de perto, que se tratava de uma resistência àquele que foi para ele um mestre. Desta forma, Lacan transforma seu lapso em resposta a seus opositores, mas também em um conceito que marca seu estilo, sua interpretação pessoal e original da psicanálise. Lalangue é o significante inventado, produto do inconsciente de Lacan, que marca a impossibilidade da inversão de seu postulado ao longo de seu ensino, apontando para a ascendência da linguagem e do gozo que ela veicula sobre o corpo. O que Lacan irá desenvolver, incorporar, em seu seminário Encore (1975), não por acaso, já que faz homofonia com un corps, um corpo.

 

Bibliografia

Lacan, J. Estou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne. RJ: Zahar, 2011.

Lacan, J. Le savoir Du psychanalyste. Entretiens de Sainte-Anne. (1971-1972) Fotocopia. Inédito. Sem data.

Lacan, J. O seminário, livro 19: …ou pior. (1971-1972) RJ: Zahar, 2012.

Lacan, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. (1972-1973) RJ: Jorge Zahar Editor, 1985.

 

[1] Esta nota foi extraída do texto intitulado: “Interpretação acontecimento: Lalangue e o não saber”, que apresentado no Núcleo de pesquisa em Psicanálise com crianças do IPSMMG, em 05.05.21. Inédito.

[2] Esta aula e duas outras do Seminário O saber do Psicanalista, foram publicadas no livro de Lacan Estou falando com as paredes, RJ: Zahar, 2011. Este livro é apresentado por Jacques-Alain Miller como uma digressão ao Seminário 19 …ou pior. Miller desmembrou este seminário, publicando 3 lições em Estou falando com as paredes e as outras 4 lições foram diluídas ao longo do seminário 19 …ou pior, na ordem cronológica em que elas foram dadas.

[3] Na tradução de Estou falando com as paredes, (p. 17 da versão brasileira), aparece a frase modificada “Trata-se do não saber”, em francês: “Il s’agit du non savoir”(p. 16 da versão francesa). Mas no seminário inédito aparece:

Il y a le non Savoir” (p.9-10). Esta afirmação se articula com a justificativa de Lacan da lógica aristotélica sobre a diferença entre a verdade e o saber: “Ora, se a verdade não é o saber, é que ela é o não saber. Lógica aristotélica: tudo que não é preto é o não preto.” (Lacan, 2011, p.17 versão Bras.) Esta precisão me parece importante, já que é exatamente neste seminário que Lacan desenvolve a lógica do Um e que estaria ligada a esse não saber como verdade, ou seja, não há relação sexual, mas Yad’lun e “Há o não saber”.

[4] Versão inédita do Seminário Le savoir du psychanalyste. p.09-10.

[5] Lacan se refere ao Vocabulário de psicanálise de Laplanche e Pontalis. SP: Martins Fontes, 1991.

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