Lacan e alguns lugares do corpo do analista sob transferência


por Márcia Rosa (mais-um)

Cartel: Anamáris Pinto, Cristiane Ribeiro, Cristina Vidigal, Elisa Alvarenga, Musso Greco, Olivia Loureiro, Samyra Assad.

A ideia de traçar um percurso do corpo do analista sob transferência no ensino de Lacan surgiu à medida em que, nas nossas conversas, íamos evocando casos que, pensávamos, terem colocado este tema em evidência. Ao tentarmos lê-los, decantamos um percurso possível de tratamento da questão no ensino de Lacan.

Nos anos 50-60, Lacan fala do desejo do analista e, na “Direção do tratamento e os princípios de seu poder “, diz que o analista paga – com palavras; – com sua pessoa, que empresta como suporte aos fenômenos singulares que a análise descobriu na transferência; – com o que há de essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir numa ação que vai ao cerne do ser[1]. Lacan está às voltas com a ontologia, e o analista ainda, em alguns textos, está em posição de sujeito, por exemplo em “Função e Campo da fala e da linguagem em psicanálise” quando, a respeito do supervisor, fala de “subjetividade secundária”[2].

Já em 1964, no Seminário 11, ele introduz a presença do analista como uma manifestação do inconsciente, testemunho de uma perda incluída no conceito de inconsciente como pulsação temporal, que abre e fecha. Freud já dizia que a transferência é uma faca de dois gumes, propicia e obstaculiza o trabalho analítico. Mas, o que causa o fechamento do inconsciente não é o amor, mas o objeto a, diz Lacan[3]. Isto nos leva à “Proposição de 9 de outubro de 1967”[4]. Na passagem final do analisante à posição de analista, o analista cai como sicut palea, dejeto[5]. Onde está o corpo do analista em tudo isso? No objeto a causa do desejo e, depois, dejeto?

Finalmente, nos anos 70, talvez possamos falar com mais clareza no corpo do analista, quando Lacan dirá dele, mais notadamente nos Seminários 23 e 24, como analista-sinthoma, ou identificado a seu sintoma. Aí, não mais encarnando o vazio da causa do desejo, mas os restos de gozo, o analista carrega consigo seus restos sintomáticos. Esses restos, que podem perturba-lo em seu ato – e por isso Lacan fala do analista rinoceronte e da supervisão que opera para liberar algo do sinthoma[6] – seriam também aquilo que aparece em seu corpo, presença mais ou menos discreta conforme os casos. Olhar, voz, aperto de mão, corpo que se interpõe e evoca, para cada analisante, algo do parceiro-sintoma, ressoando em seu corpo. Alguma coisa no significante ressoa como acontecimento de corpo. Aqui, Lacan dá adeus à ontologia e é através da letra, litoral entre a linguagem e o gozo, que marca o corpo e separa o falasser do sentido, que podemos falar de existência, e mesmo de ex-sistência.

Alguns casos dão corpo a esse percurso.

1 – A presença do analista: um corpo vivificante sob transferência

É bastante nítido como em alguns casos, o corpo do analista, presença necessária, provê um apoio, uma consistência fálica e restaura a imagem do analisante, para que ele se sinta vivo, lá onde o Outro da linguagem falha.

1.1. Anna e “uma analista de carne e osso” [7]  

Como uma identificação à precariedade da mobilidade de sua mãe alcóolatra, Anna, 30 anos, passou a ter uma doença evolutiva em seu corpo, o que a impedia de se locomover normalmente. De um lado, tem-se o pai nomeado como um “ogro” e de quem ela se escondia por ser violento para conter a mãe; por outro lado, a mãe que desejava a decadência, transmitia ainda o desespero e a infelicidade reservados à condição feminina: “ Você nasceu sem sorte”. Tudo isso alimentava sua culpa edipiana. Surge a angústia do lugar vazio deixado por uma mãe alcoólatra e pela relação entre os pais, na ausência de todo o laço vivo entre os sexos. A partir de uma cena de horror, na qual, quando adolescente, Anna chuta a sua mãe estendida no chão, gritando para que ela se levantasse ―supondo-a bêbada, quando na realidade ela estava morta―, surge a culpabilidade e a punição que o seu sintoma no corpo encobria como resposta à cena real da mãe alcoolizada deitada ao chão.

Mas, apoiar-se na presença viva, “em carne e osso”, da analista a apaziguava, dizia Anna. O horizonte de sua análise teria então como suporte o acontecimento especular do corpo da analista, de modo a que a ressonância da cadeia significante se colocasse, a partir de uma marca no corpo: um “corpo que grita”. A analista encarna este objeto-corpo, cuja falta é de não poder falar de si enquanto corpo, mas fazendo uso dele como analista, isto é, segundo a relação ao objeto que ela mesma, analista, percebera haver ali”. Laure Naveau, psicanalista que relata o caso, observa que “o corpo da analista é um corpo vivo, ela abre as portas, aperta a mão, escuta com sua orelha. Sua boca emite um som que ressoa com o dizer da analisante. É também um corpo que lança um olhar de boas-vindas e de despedida”.[8]

Desse modo, a presença da analista, com o seu corpo, torna viva a imagem do próprio corpo de Anna; acolhê-la e introduzir um corte ou uma vacilação no que tange à sua identificação com a mãe, promove um não-sentido, irredutível, traumático, ao qual ela pode se ver assujeitada – duplo efeito do significante, de sentido e de buraco. Mais do que aquilo de que Anna se põe a falar, a presença da analista traz a chance de restaurar uma junção suportável entre o simbólico e o real, já que, como diz Miller,[9] “o real do corpo do analista, trata-se de fazer dele nosso horizonte” (Miller citado por Naveau). [10]

2- O representante representativo e um corpo reduzido a semblante de objeto a

O desconhecimento, no início da análise, de sua significação de sujeito é a raiz mesma do saber que o analisante supõe ao analista. No trabalho de final de análise esta raiz é equacionada através de (-φ) e ‘a’, através da falta fálica e do que surge obturando-a. Fazer vacilar esta significação fantasmática implica em que, em um momento, o analista tenha sido reduzido a ela, redução através da qual se lhe atribui um ser – um ‘ser’ de merda, por exemplo.[11]

Em sua “Proposição’ Lacan trata este momento crucial de uma análise através de dois casos, um dos quais apresentado nos termos: “E esse outro que, criança, encontrou o seu representante representativo em sua irrupção através do jornal aberto, do qual se protegia o despejo dos esgotos dos pensamentos de seu genitor, reenvia ao psicanalista o efeito de angústia onde ele oscila em sua própria dejeção.”

Do jornal aberto pode-se dizer que funciona como encobrimento e que, ao evocar o falo como véu (-φ ), inscreve do lado do pai o x do desejo. Do lado do sujeito, surge a fantasia de “irromper”, de “mergulhar” através do jornal, caindo do lado do x do desejo do pai. Na frase fantasmática, o pensar do pai é equivalente à merda. Assim, de um lado há o desejo como x e do outro a resposta. A resposta é que x é igual a ‘a’ e ‘a’ é igual a merda, dejeto. Isto faz com que se possa escrever o “representante representativo” deste sujeito – a merda representa o seu ser no desejo do Outro.

Se, no início, ele bascula na dejeção do Outro – o pai, cujo pensar equivale à merda – no fim, numa báscula inversa, ele, analisante, atravessa a sua própria dejeção, o seu ser de merda. Momento crucial no qual a angústia assinala para o sujeito a presença de uma resposta fantasmática ao desejo do Outro. Aí, ele reenvia ao analista o efeito de angústia no qual este bascula em sua própria dejeção, ou seja, o analista é ejetado, ele mesmo, como esse objeto excrementício. A separação real com o analista opera um descolamento entre os dois polos do fantasma; uma dissociação realizada em ato entre o $ e o ‘a.

Se o que se reduz da suposição de saber não é o saber mas a suposição do Sujeito do Saber resta, ao final, um saber sem sujeito. Algo resta inefável, inessencial. É o recurso posterior à lógica que permitirá a Lacan situar precisamente a dimensão do objeto a como consistência lógica, como vazio, como isto que não se sabe, sem que se chegue a sabê-lo.

3- Analista: um corpo dessubstancializado sob transferência

Para muitos dos que procuram um analista a extração corporal já está feita, o objeto como mais-de gozar já está no campo do Outro. O artificio da psicanálise, observa Elisa Alvarenga[12], é concentrá-lo na figura do analista, a fim de trata-lo e de fazer aparecer sua consistência lógica.

Se o objeto a se presta ao laço social, oferecemos, no mercado, o objeto-analista. Ele é um corpo sobre o qual o objeto pode encarnar-se. Ter passado por uma análise lhe permite oferecer seu corpo esvaziado de gozo, para que o objeto possa aparecer aí. O passe mostra como cada um, em sua análise, pôs o objeto no Outro e como fez para tirá-lo e ver que ele não é do Outro. O analista deve saber alojar esse vazio. Ali aonde estava o objeto mais-de-gozar do analisante, advém o objeto causa de desejo no ato analítico. O analista, mais do que sustentar a causa de desejo do analisante, passa a encarnar a caixa de ressonância que permite fazer escutar a voz que ressoa e passa, a voz de ninguém, uma voz que fala sozinha! Resta o laço entre dois vazios.

O corpo do analista surge aí como um corpo que se vai, tal como nos mostra Solano:

“Quando cheguei a este ponto, o analista me propôs uma supervisão, signo do desejo inédito ao qual a análise me havia conduzido. Um dia fui à minha sessão e ele me fez entrar em seu consultório como de costume. Mas, desta vez, ele não veio. Fiquei durante um certo tempo só, deitada no divã, e, passado um tempo, me fui. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa. Enquanto estava só, me dei conta do vazio que me rodeava. Escutei o silêncio desse vazio e dei risadas. Na vez seguinte, quando retornei, disse-lhe que, em realidade, havia feito minha sessão sozinha, e que me havia dado conta de que, há já algum tempo, isso ocorria. Ele o confirmou. O ato analítico, abria em direção ao des-ser do analista e derivava da perda de consistência que havia sido provocada. Com o desvanecimento da ilusão do SsS, precipitou-se o momento de concluir. Quando anunciei que aquela era a última sessão, ele não me acompanhou. Permaneceu sentado em sua poltrona. Antes de atravessar a porta, virei a cabeça e, ao encontrar-me com seu olhar, experimentei uma imensa ternura. Não sabia que não o veria nunca mais”[13].

4: Quando a orientação é o sinthoma, o que resta do corpo do analista?

A redução final do sintoma a um signo introduz um certo deslocamento, que supõe não ficar à mercê do buraco que se abre em face da inexistência do Outro. Isso supõe recuperar-se e servir-se de outra maneira do objeto, mantendo-se a certa distância do sintoma, reduzido a um signo, que resta no final.

Assim é que o sopro, que dará lugar ao analista “ventosa”, no relato de passe de Mauricio Tarrab, passa a ter outro uso e se torna sinthoma. O percurso analítico fôra orientado pela posição de “ser o sopro que faltava ao Outro”, sustentada por uma lembrança da doença pulmonar do pai e do esforço do sujeito para ser o sopro que dava vida ao pai, retomando o primeiro sopro, marca escrita no corpo pela fala da mãe. Esse giro não ocorreu sem o acontecimento imprevisto que levou o sujeito da contingência à letra, ié, ao escrito no título do livro “E o sopro torna-se signo”.

Anne-Lysy, no seu interessante texto publicado no Boletim Ecos nº1[14], observa que essas histórias de “sensações corporais”, de vivificação, pedem que se retome a questão do afeto de novas maneiras, não mais com o maníaco-depressivamente ou ainda o entusiasmo. Agora, é o corpo que é “sensível”. Como podemos relatar esses afetos do corpo através do “isso se sente” ou dos “efeitos de afeto”: “Lalíngua nos afeta primeiro por tudo que ela comporta como efeitos que são afetos”?

Não nos deixemos obcecar pelo acontecimento de corpo “na origem”, propõe Anne-Lysy. A análise produz acontecimentos na medida em que um “dizer faz acontecimento”, inventando “palavras que suportam, alojando-se na juntura opaca entre lalíngua e o corpo”; a análise é criacionista, como sublinha Éric Laurent. A análise produz um real singular para cada um, ao invés de reencontrar, rememorar, até o fim, o real que estava lá “nas origens”. Os índices daquilo que escapa ao relato, não são as “últimas palavras”, nem as palavras da origem do choque inicial jamais diretamente restituível: eles só podem circunscrever o impacto, eles traçam bordas. A análise consegue “desfazer pela fala o que se faz pela fala”, mas ela o faz “en corps”, afirma Anne-Lysy.

Enfim, enquanto cartel, nos vimos diante de alguns restos deste percurso inicial.  Restos a partir dos quais esperamos produzir, cada um, em nome-próprio, uma contribuição para a nossa Jornada, em novembro.

 

[1] LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder, Escritos. RJ, Zahar, 1998, p. 593.

[2] LACAN,, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Escritos. RJ, Zahar, 1998, p. 254.

[3] LACAN, J. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, RJ, Zahar, 1985, p. 128.

[4] LACAN, J. Proposição de 9 de outubro sobre o psicanalista da Escola. Outros Escritos. RJ: Zahar, 2003.

[5] Ibidem, p. 259.

[6] LACAN, J. O sinthoma. RJ, Zahar, 2007, p. 18-9.

[7] NAVEAU, L. “Le corps, faute d’en pouvoir parler”. La Cause freudienne, n.44, pp.82-86.

[8] Ibidem, p. 85.

[9]  MILLER, J.-A. (1998-1999). “Lacan desenvolveu de modo muito ilustrativo sobre a cadaverização do analista, bem como para a instância do corpo se apresentasse, posto que se trata de encarnar. Ao mesmo tempo, esta presença realiza o assassinato da Coisa e, portanto, adquire uma dimensão da ordem do real” La experiencia de lo real em la cura psicoanalitica. Buenos Aires: Paidós, 2008, p. 98.

[10] NAVEAU, L. La cause freudienne, nº 44, février, 2000, p. 84.

[11] ROSA, M. “Uma interrogação sobre o desejo”. Anais do III Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, “O que pode um analista?”. Salvador, Editora Vozes, 1991. Pp. 408-414.

[12] ALVARENGA, E. Dessubstancializar para usar, Curinga 26. BH, EBP-MG, 2008, p. 98-103.

[13] SOLANO, E. La práctica del pase, Bs As., Paidós, 1996, p. 29-31

[14] LYSY, Anne. “Acontecimento de corpo e final de análise”. Boletim Ecos, n.1, s.p.

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