Interpretação acontecimento: a jaculação


por Maria Aparecida Farage

A tese de Miller do “inconsciente intérprete” situa a passagem, no ensino de Lacan, entre a interpretação que dá sentido e seu avesso. A interpretação é o próprio inconsciente, ela faz valer que o inconsciente se escreve de rupturas, surgindo como revelação. A tese do “inconsciente intérprete” faz apelo à interpretação ao avesso, onde se trata de obter um franqueamento do limite, fora do fluxo semântico, não se tratando mais da busca pela verdade do sujeito. A passagem de uma à outra se situa “no laço entre a interpretação heterogênea e o vazio inaugural”[1]. A escansão é trazida de volta, isolando o significante mestre recalcado, colocando em jogo a extração dos S1 depositados na lalíngua. A interpretação ao avesso visa o corte que produz o sujeito desabonado do inconsciente.

Na interpretação ao avesso, o corte expõe a ilusão do Sujeito Suposto Saber, uma vez que se desfaz da referência à história, mantendo-se sobre o “estava escrito”, registrado no corpo. Vemos que, em um primeiro plano, está a leitura em ato do inconsciente. Assim, só a substância fônica, como tal, é que permitirá o contato com o passado. O que era a história do sujeito se torna efeito de um equívoco, enquanto ruptura, fazendo valer a hiância entre a palavra e o escrito.

Seguindo com Miller, localizamos aqui uma substituição, feita por Lacan, da palavra pela apalavra estabelecendo algo como um monólogo, isto é, na apalavra o sujeito não terá “o querer dizer” ao Outro. A apalavra surge quando a palavra, dominada pela pulsão, assegura o gozo e não a comunicação. Vemos aí a fala surgindo a partir do real. O tema do monólogo é caro a Lacan nos anos 1970 e a apalavra abre um campo de interrogação: “lalíngua serve primeiro ao diálogo? Nada é menos certo”.[2] A jaculação de Lacan Yad’lun, se distingue por toda diferença que existe entre escrita e fala, introduz outra vertente singular da interpretação: a interpretação como jaculação. Yad’lun designa um novo uso do significante, todo só, o Um sozinho, produzindo um vazio de significação, que visa reduzir a conexão entre sentido e gozo. Da lógica do Yad’lun se desprende primeiro a equivocidade de lalíngua e, depois, a topologia poética.

Eric Laurent assinala que, para dar conta da força do texto poético, a palavra jaculação foi usada por Lacan, por várias vezes, começando pela abertura do Seminário I. Ainda no Seminário XX: “O que há de melhor no budismo é o Zen, e o Zen consiste nisto: em te responder com um mugido, meu amiguinho”[3]. Lacan, também, fez do “Fort-Da” freudiano uma jaculação. Entretanto, é no Seminário XII que encontramos uma referência central ao mestre Zen, que nos autoriza a vincular a jaculação com a interpretação: “Cada um sabe que um exercício zen tem certa relação, ainda que não se saiba bem o que isso quer dizer, com a realização subjetiva de um vazio”.[4] Lacan se serve da língua japonesa para fazer valer a relação de uma escritura-referente ao vazio. Assim, interpretar seria fazer o laço entre a produção do vazio subjetivo e a jaculação, indicando que tem sempre um impossível de dizer, não sem se valer do fechamento do nó em torno do acontecimento de corpo

A interpretação opera por ressonância, pondo em função o corpo e a linguagem: é preciso que haja no significante algo que ressoe. A vociferação é o nome dado por Miller à voz que retorna na jaculação, que acrescenta valor à fala, dando peso à voz. Para Lacan, a voz é aquilo que, no significante, não participa do efeito de significação, ela ultrapassa a divisão do enunciado e da enunciação, vai além do sentido, compartilhando a voz e o gozo. Assim, a voz faz um retorno, marcando o novo uso do significante.

A interpretação como jaculação apresenta duas dimensões: a moterialidade da linguagem, entendida como a junção entre o som e o sentido, e o vazio, operando por ressonância com a moterialidade, um modo de tocar simbolicamente o real. Ecos de uma operação que produz acontecimento de corpo.

 

[1] Laurent, E. (2020). A interpretação: da verdade ao acontecimento. Curinga, n. 50. Belo Horizonte, EBP-MG, jul./dez., p.174.

[2] Lacan, J. (1985 [1972/1973]) O seminário, livro XX: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.189.

[3] Lacan, J. (1985 [1972/1973]) O seminário, livro XX: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,p.157.

[4] Lacan, J. [1964/1965] O seminário, livro XII: problemas cruciais para a psicanálise, lição de 27.02.1965. Inédito.

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