ECOS 4 – Editorial


por Patrícia Ribeiro

Dyana Santos, Corpo Servil, da série O Lastro do Capital, 2020

É com muito prazer que apresentamos mais uma edição do nosso Boletim Ecos, desta vez, reverberando o intenso trabalho de nossa comunidade em torno do seu quarto eixo temático, o “Sexo como acontecimento”.

Tal tema focaliza uma outra leitura sobre o corpo, promovida por Lacan na última parte de seu ensino e pela qual ele esclarece que a incidência da linguagem não opera apenas efeitos de esvaziamento de gozo. Sua prática clínica lhe permite vislumbrar como o corpo do falasser também é afetado pelo “estatuto real da língua” e produz marcas traumáticas de gozo que têm a natureza de um acontecimento, designado por Lacan como “acontecimento de corpo”.

Nesse sentido, os relatórios elaborados por nossos colegas Antônio Teixeira e Suzana Barroso, frutos dos trabalhos dos cartéis sobre “A intepretação nos tempos do falasser” e “Sexo como acontecimento”, respectivamente, muito têm a contribuir para esclarecer a clínica contemporânea a partir dessa nova perspectiva.

Como vocês poderão ler, Antônio destaca a importância de que a prática interpretativa também opere “sobre esse efeito ressonante do significante sobre o corpo do falasser”, [para além] do que seria a revelação de uma significação sexual oculta na fala do sujeito, pois interpretar também “implica incidir no nível de um circuito pulsional, (…) concernente à incidência contingente sobre o corpo de uma declaração significante traumática”. Seu relatório traz exemplos clínicos desse modo de interpretação desatrelada do sentido, além do emocionante depoimento de Caetano Veloso em seu livro Verdade tropical.

Suzana Barroso, por sua vez, nos traz de início a pergunta sobre de que modo uma orientação clínica pelo real “pode nortear nossa prática quanto aos impasses do ser sexuado”. Seu texto tem como horizonte considerar que o sexo não chega ao falasser pela via do Outro simbólico, mas pela via do gozo. Sublinha ainda que “a lógica da função fálica intervém depois do choque inicial do corpo com lalíngua através de uma construção secundária, que chamamos de sexuação, isto é, a assunção a uma posição sexuada”. Um fragmento clínico e comentários sobre Hans e Mishima, o escritor japonês, nos permitem entrever que a determinação da “escolha do sexo se dá pelo real da distribuição do gozo no corpo sexuado”, assinalando a diferença dos postulados das teorias de gênero ligados às determinações eminentemente sociais.

Ainda nessa via de investigação, Cristina Drummond aborda as novas configurações subjetivas e novas respostas sintomáticas do nosso tempo, marcado pela inadequação do significante para nomear o gozo, gerando, por conseguinte, embaraços para sintomatizar a posição sexuada.

Nesse sentido, é bastante esclarecedor o comentário de Hélène Bonnaud acerca do documentário Pequena garota, de Sébastien Lifshitz. A autora evoca o caso Hans como chave de leitura para a recusa do sexo masculino em Sacha. O que Bonnaud enfatiza são os efeitos, nesse sujeito, da ausência da ameaça de castração, o que impossibilita a simbolização de seu órgão e, por isso, torna-lhe insuportável a presença do pênis real.

Vale igualmente conferir uma outra leitura, desta vez, feita por Márcia Mezêncio, do filme As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky. Márcia destaca que esse filme demonstra como “a chamada crise de adolescência desvela (…) os embaraços do sujeito com a sexualidade e a angústia com o encontro traumático com o real do corpo e do sexo”.

Seguindo nessas questões que permeiam o tema deste boletim, de forma contundente Miquel Bassols declara, em um capítulo de seu mais recente livro, que aqui publicamos, que Não há uma estética do gozo, pois “a experiência real do gozo no corpo introduz (…) uma diferença absoluta”, e ressalta: “o sexo é um Um, distinto do Um do narcisismo, é um Um sem outro possível com o qual medi-lo, compará-lo, imaginá-lo, simbolizá-lo”, razão porque não há uma estética do sexo que permita ditar uma forma melhor de gozar em relação a outra, seja ela qual for.

Continuando a série de entrevistas proposta pela Comissão de Bibliografia aos colegas da Seção Minas que tiveram a experiência do passe, neste número, Ram Mandil é quem nos traz elementos ligados ao tema do acontecimento de corpo e final de análise. Ele destaca, em um de seus testemunhos, um modo de gozo que se apresentou na infância e que comportava uma questão corporal: a recusa em abrir o orifício do corpo e, com isso, “engolir a pílula”, modo de se contrapor à demanda do Outro e que se esclarece, ao fim da experiência analítica, pelo temor de ser por ele engolido.

E mais: leiam as resenhas especialmente preparadas para este boletim e os instigantes comentários provocados por citações, bem como aproveitem a extensa bibliografia que, certamente, será de grande valia na elaboração dos trabalhos que aguardamos chegar para enriquecer a nossa Jornada Clínica!

Last, but not least, não deixem de apreciar o impactante poema Leda e o cisne, do poeta irlandês W. B Yeats, acompanhado da bela leitura que dele faz Ana Helena Souza e, melhor ainda, ao som da magnífica canção “The Black River”, que está em nossa playlist.

E não bastassem todas essas contribuições, o Boletim 4 apresenta ainda novos vídeos, nos quais a presença dos corpos e dos sons que os fazem vibrar — temos certeza — irão encantar a todos!

 

Façam um ótimo proveito!

 

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