EDITORIAL – Ecos 3

por Laura Rubião


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O Inconsciente e o Acontecimento de Corpo

Entrevista com Éric Laurent para Revista La Cause du Désir


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Lacan e alguns lugares do corpo do analista sob transferência

por Márcia Rosa (mais-um)


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Interpretação acontecimento: a jaculação

por Maria Aparecida Farage


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por Mariana Ruas Rodrigues


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Acontecimento do dizer no cartel, um clarão?!

por Marisa Renna de Vitta


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A Transferência e o Corpo do Analista

por Claudinéia Bento


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Ecolalias

Playlist


Rebonds A, by Iannis Xenakis

Iánnis Xenákis, em grego Ιάννης Ξενάκης foi um engenheiro, arquiteto, teórico musical e compositor grego, naturalizado francês. É considerado como um dos mais influentes compositores do século XX. Suas composições revelam uma profunda reflexão sobre o tempo. Foi aluno de Messiaen e compôs peças musicais como: Oriente Ocidente, Metastasis, Diamorfoses e inúmeras peças para percussão.

Sérgio de Mattos

Pichação


Obra: Arthur Barreto Garrocho

Recitação


Vídeos


LEGENDAS EM PORTUGUÊS:

Em 1985, Marguerite Duras imaginava o que seriam os anos 2000. Visionária.

– Eu creio que o homem estará literalmente imerso na informação. Em uma informação
constante sobre seu corpo, sobre o seu futuro corporal, sobre a sua saúde, sobre a sua
vida familiar, sobre o seu salário, sobre o seu lazer.
– Não está longe de um pesadelo.
– Não haverá ninguém para ler.
– Eles verão televisão.
– Haverá aparelhos em todo lugar, na cozinha, nos banheiros, nos escritórios, nas ruas.
– Não se viajará mais, não valerá mais a pena viajar.
– Quando se pode fazer a volta ao mundo em 8 dias ou 15 dias, por que fazê-lo?
– Na viagem, há o tempo da viagem. Não é para se ver depressa.
– É ver e viver ao mesmo tempo. Viver da viagem não será mais possível.
– Restará o mar de todo modo, os oceanos.
– E também a leitura. As pessoas vão redescobrir a leitura.
– Um homem, um dia lerá, então, e depois, tudo recomeçará…

Tradução: Helenice de Castro
Revisão : Márcia Bandeira

Apresentação do vídeo de Marguerite Duras

Se o artista sempre precede o psicanalista, encontramos nesta entrevista concedida por Marguerite Duras em 1985, uma surpreendente antecipação de como seria a vida no século XXI.

Como não remeter “à literalidade da imersão do corpo na informação”, vislumbrada por Duras há 36 anos, à constante presença da internet e das redes sociais na produção dos fenômenos de corpo contemporâneos?

Se a escritora prevê tão bem os modos de gozo futuros, não podemos deixar de lembrar que é também na homenagem que Lacan lhe faz que o sintagma “prática da letra” aparecerá em seu ensino pela primeira e única vez.

A 25a Jornada da EBP-MG, portanto, nos convida a testemunhar como a experiência analítica lida com os desafios de uma clínica cada vez mais próxima do território da letra e da escrita, no qual cabe ao analista o lugar de supor saber ler de outro modo o sintoma.

Que a arte arrebatadora de Marguerite Duras e o que Lacan leu dos escritos dessa artista nos sirvam de bússola nesse percurso.

Helenice de Castro


O CORPO
(Arnaldo Antunes)

O corpo existe e pode ser pego.
É suficientemente opaco para que se possa vê-lo.
Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo.
O corpo existe porque foi feito.
Por isso tem um buraco no meio.
O corpo existe, dado que exala cheiro.
E em cada extremidade existe um dedo.
O corpo se cortado espirra um líquido vermelho.
O corpo tem alguém como recheio.

Fonte: https://www.lyrikline.org/pt/poemas/o-corpo-5640

Comentário sobre o poemaO Corpo de Arnaldo Antunes

Na contemporaneidade, são muitas as formas de manifestação da incidência de lalíngua no corpo, em um escape dessa inscrição imaginária que toma como referência a cadeia significante. De alguma maneira, o que testemunham os analistas, são modos singulares de invenção do corpo próprio que, se existe, “existe porque foi feito”, em uma invenção do ser falante, invenção esta sempre singular. Arnaldo Antunes nos indica um corpo opaco, ao qual algo falta, ao encontro do que nos ensinou Lacan, que nenhum sujeito da linguagem escapa a essa opacidade, e por isso inventamos formas de lidar com esse “buraco no meio”, seja pela fantasia, pelo delírio ou pelo ato. E é nas veredas da manufatura de um corpo para si que o sujeito o inventa. Os autistas, em especial, nos possibilitam, como Bayón (2020) nos ajuda a pensar, vislumbrar mais de perto, se assim posso dizer, os efeitos de lalíngua sobre o corpo. O sujeito autista, especificamente, não conseguiria afastar-se desse ponto de gozo primário e, sem o recurso do significante que possibilita uma extração de gozo, busca, em um sentido fixado, em um signo, fazer uma borda ao corpo que, embora por vezes não pareça, “tem alguém como recheio”, um sujeito suposto pelo analista que o escuta e que por ele se deixa guiar.

César Rota Jr.

Referências

BAYÓN, Patrício Álvares. El autismo, entre lalengua y la letra. Olívios: Grama Ediciones, 2020.

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Apresentação de Khât

Harada Shodo Roshi, monge do ramo Rinzai, mostra o Khât, a “ eructação”, o ato que Lacan conheceu através de Demiéville.

Professor de línguas orientais e tradutor das “ entrevistas de Lin-Tsi”,parece estar na fonte das intervenções impactantes que impressionaram Lacan em seu uso próprio do Zen.

Sérgio de Mattos

Bibliografia

Entrevista com Elisa Alvarenga

com Elisa Alvarenga


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Entrevista com Sérgio de Campos

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Projeto AE Né Trem Lá Vem Bibli Uai

Comissão de Bibliografia da XXV Jornada – EBP-MG

Citações


LACAN, J. O seminário, livro 20: mais ainda, 1972/1973. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

“O budismo, este é o exemplo trivial por sua renúncia ao próprio pensamento. O que há de melhor no budismo é o Zen, e o Zen consiste nisto: em te responder com um mugido, meu amiguinho. É o que há de melhor quando se quer naturalmente sair desse negócio infernal, como dizia Freud.” (LACAN, 2008, p. 123)

LACAN, J. O seminário, livro 24:  L’insu que sait de l’une bévue... (1976-1977). Lição de 18 de abril de 1977. (Inédito)

“O sentido isso tampona, mas com ajuda daquilo que se chama escritura poética, vocês poderiam ter a dimensão do que poderia ser a interpretação analítica. É absolutamente certo que a escritura não é aquilo pelo que a poesia, a ressonância do corpo se exprime.” (LACAN, Seminário 24, Lição de 18 de abril de 1977)

LAURENT, É. Vigências de três exigências deduzidas dos ensinamentos de Lacan sobre as psicoses. In: Versões da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

“A psicanálise tem em comum com o budismo o fato de que não estamos
na psicanálise para falar; sabemos, por experiência, que cada um de nós fala
para, no final, encontrar a paz de se calar. Se é preciso fazer esforços para falar,
é para, no final, podermo-nos situar num ponto onde, o que existe, não são
palavras, mas uma resposta que, para os neuróticos, é a resposta do gozo. E
nesse lugar está, como sublinha Lacan, a paz, a justificação para o tormento que
é falar. No final, algo que não é um outro significante vem responder ao nosso
chamado, porque tudo o que um outro significante produz é o reinício do ciclo
infernal.” (LAURENT, 1995, p. 119)

LAURENT, É. Política do passe e identificação dessegregativa. Opção Lacaniana, Rio de Janeiro, n. 82, p.47-57-, abr. 2020.

“[…] o analista só interpreta porque faz parte do inconsciente e se faz o produto de sua operação.” (LAURENT, 2020, p. 47)

MILLER, J-A. O inconsciente e o corpo falante. Portal Associação Mundial de Psicanálise, [s. l.], 30 set. 2014. Disponível em: CLIQUE AQUI.  Acesso em: 21 jun. 2021.

“Essa metáfora, a substituição do inconsciente freudiano pelo falasser lacaniano, fixa um lampejo. Proponho tomá-la como índice do que muda na psicanálise no século XXI, quando ela deve levar em conta outra ordem simbólica e outro real diferentes daqueles sobre os quais ela se estabelecera.” (MILLER, 2014, [s. p.])

“Em contrapartida, o sinthoma de um falasser é um acontecimento de corpo, uma emergência de gozo. O corpo em questão, aliás, nada diz […].” (MILLER, 2014, [ s .p.])

“Na época do falasser, digamos a verdade, analisa-se qualquer um. Analisar o falasser demanda jogar uma partida entre delírio, debilidade e tapeação.” (MILLER, 2014, [ s .p.])

MILLER, J-A. (1995-1996) La fuga del sentido: Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2012.

“Si la interpretación analítica es aquello por lo cual se asegura lo real, entonces es del orden de la formalización, en la medida en que solo la formalización matemática alcanza un real. Es eso lo que Lacan explica. Eso implica que la interpretación analítica se hace, como la formalización, al contrario del sentido.” (MILLER, 2012, p. 158)

“En ‘R.S.I’ Lacan eligió el significante divorciado del significado, y casado, si puedo decirlo, con el goce. Toda la construcción que da a ese momento consiste en decir que el inconsciente es relativo a lo simbólico y que el significante tiene esencialmente efectos de goce.  El sentido está en otra dimensión, está en lo imaginario.” (MILLER, 2012, p. 274)

MILLER, J- A. A erótica do tempo. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise, 2000.

“Com a interpretação do acontecimento o ponto de infinito cessa de não se escrever. […] o acontecimento só se inscreve sobre o fundo de impossível, nunca sobre o fundo de possível. […] O que é da ordem do acontecimento propriamente dito é o que não poderia ocorrer, ou seja, tudo aquilo que sai do círculo do possível. Esse é o sentido preciso que Lacan dá a contingência.” (MILLER, 2000, p. 59)

BARTHES, R. Uma problemática do sentido. InInéditos vol. 1: Teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 104-138.

“Uma terceira forma de regime do sentido seria um regime de assemia, ou seja, ausência do sentido, ou melhor, de isenção de sentido. […] isenção de sentido é, portanto, um estado do sentido infinitamente mais difícil de realizar, é uma espécie de vazio do sentido, ou melhor, o sentido lido como vazio.” (BARTHES, 2004, p. 117)

por Rodrigo Almeida

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Citação comentada


LACAN, J. O seminário, livro 20: mais ainda, 1972/1973. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

Es la confianza en una utilidad indirecta, una utilidad misteriosa, una causalidad que nos costaría mucho detallar, una causalidad acerca de la cual ignoramos por qué canales pasa, pero que endefinitiva se impone. […]En este sentido, una sesión de análisis siempre esun esfuerzo de poesía, un espacio de poesía que el sujeto se reserva en medio de una existencia, la suya [...].[1]

 

A poesia na psicanálise tem relação com a poiésis, com a criação. Como nos diz Graciela Brodsky, o esforço de poesia na psicanálise não está em converter a fala em verso, ou dizer coisas belas a um analisante. Na orientação lacaniana, a poesia está mais próxima de um Witz do que dos versos alexandrinos,[2] com sua métrica rigorosa que guarda o mesmo ritmo em sua versificação. A interpretação como instrumento do psicanalista surge nesse sentido em fazer ressoar outra coisa que está além do sentido comum.

Se “a interpretação é um dizer que visa o corpo falante para produzir nele um acontecimento”,[3] cabe ao analista um saber-fazer: fazer um uso da técnica da interpretação, como um flash que visa ao real sem a ele se aderir, em que, ao acolher o falasser em seus modos de gozo, é preciso localizar os acontecimentos que determinam seu sintoma. A condução de uma análise seria um esforço poético, em que a partida que se joga é feita por silêncios e palavras recolhidas do que ressoa de mais singular em cada ser falante.

Rodrigo Almeida

 

[1] MILLER, J- A. Un esfuerzo de poesía. Paidós: Buenos Aires, 2002-2003. p.160.

[2] BAUDINI, S. Entrevista a Graciela Brodsky. Virtualia, [s. l.], n. 8, ano 2, jul. 2003. Disponível em: CLIQUE AQUI. Acesso: 21 jun. 2021.

[3] MILLER, J-A. O inconsciente e o corpo falante. Portal Associação Mundial de Psicanálise, [s. l.], 30 set. 2014. Disponível em: CLIQUE AQUI. Acesso em: 21 jun. 2021.

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Agradecimento

Nossos agradecimentos a Miguel Gontijo pelo uso das imagens que ilustram Ecos #3. Apresenta-lo é desperdício de palavras. Não apenas por ele ser um artista de renome internacional e ganhador de prêmios. A questão radica em que, a cada obra – escrita ou pintada – ele se apresenta de tal forma surpreendente que já não é ele.

Nem seu avesso, nem seu direito. Outro. Para não ser entendido, sequer dizível.\

Melhor repeti-lo:

“Quando termino meu quadro, desligo a luz, dou as costas e ele fala por mim. Sei que ele me trai.”