Do ‘fulgor das ausências’ à mística como acontecimento de corpo


por Lucíola Macêdo

“…a relação sexual não existe… é meu verdadeiro tema deste ano, por trás desse mais, ainda e é um dos sentidos do meu título… talvez assim eu chegue a fazer aparecer algo de novo sobre a sexualidade feminina”[1].

Já nos anos sessenta, em “Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina”, a arquitetura de mais, ainda parece encontrar alguns dos seus pilares fundamentais. Lacan inicia esse artigo ressaltando certa negligência, algumas suspensões e marcadas ausências sobre o modo como os psicanalistas pós-freudianos se arvoraram sobre o tema, mascarando o embaraço ao recobrir inteiramente o enigma do feminino com o campo do sentido[2]. A questão fundamental posta por Lacan ao abordar as vicissitudes da sexualidade feminina naquele Congresso é precisa e fulgurante: “convém indagar se a mediação fálica drena tudo o que pode se manifestar de pulsional na mulher, e notadamente, toda a corrente do instinto materno”[3].

É num horizonte de “desconhecimentos e preconceitos” que as teorias sobre o masoquismo feminino e a frigidez em voga naqueles tempos é rebatida por Lacan, já com algumas formulações e esboços dos caminhos retomados na década seguinte, em mais, ainda. Quanto à frigidez, diferenciará as formas transitórias daquelas que se constituem sob os auspícios do sintoma: “o homem serve aqui de conector para que a mulher se torne esse outro para ela mesma, como é para ele”[4].

O masoquismo é reconduzido ao âmbito daquilo que não é drenado pela mediação fálica. Quanto ao lugar da passividade na economia libidinal das mulheres, Lacan é preciso: o dito masoquismo da mulher é uma fantasia do desejo do homem. A sexualidade feminina por sua vez, “surge como um esforço de um gozo envolto em sua própria contiguidade”[5], como modalidade do gozo não drenada pela mediação fálica, esse suplemento, esse mais, ainda, a partir do qual Lacan fará surgir algo novo.

Ou seja, o que está em jogo aí, é um corpo que se goza, porquanto o gozar-se, do lado não toda, comporta um genitivo que tem uma nota extática. Lacan dedicará a esta nota extática a exuberante aula VI de mais, ainda, abrindo-nos a um riquíssimo campo de investigação: tanto no âmbito da relação amorosa com deus, ou seja, de uma transcendência, como é o caso de Hadewich d’Anvers, Teresa D’Ávila e João da Cruz; quanto da experiência mística como imanência, sem a presença de deus, cujos testemunhos nos dão alguns escritores no âmbito da literatura e da escrita poética[6], tal como é possível notar, de modo exemplar, na poética de Mar Becker[7], para quem a experiência mística seria um estado do próprio poema. O encontro com a dimensão do sagrado se daria num momento de desaviso do leitor, de espanto e deslumbre no instante fulgurante da fratura entre significante e significado, diante da emergência de silêncio que compõe o discurso poético: há “uma dimensão inalcançável e indizível dentro do próprio poema e isso é a dimensão de deus no poema, mesmo que seja um deus deposto, um deus que está ali como carcaça e como hybris”. Nessa perspectiva, a poesia seria “uma oração para um não-deus”, ela diz. Na mística como imanência, toca-se nos limites da linguagem, mas continua-se a dizer, a escrever. Não se trata de uma ontologia, de uma experiência do ser, nem de algo que estaria fora da linguagem. Neste forçamento, em que a própria  linguagem é fruição e ferida, fala e silêncio, morada e desterro, a experiência mística como acontecimento de corpo é também um acontecimento de linguagem.

 

O recurso à poesia mística cristã e à experiência extática que lhe é correlata, é sabido, são determinantes para Lacan em sua formulação de um gozo não negativado pelo falo. Tal proposição situa esse gozo do lado “não-toda” Ⱥ® S(Ⱥ), sem que isto implique uma anulação da vertente fálica Ⱥ®f: “não é porque ela é não-toda na função fálica que ela deixa de estar nela de todo”[8]. Ou seja, é possível afirmar com Lacan que o gozo na experiência mística não esteja exatamente no mesmo plano do arrebatamento como correlato da devastação, e nem tampouco seria facilmente localizável na seara das psicoses[9].

Tal qual Lacan nos faz notar, o testemunho da aventura mística e a fruição do êxtase que nas bordas do indizível arrebatam o corpo, não prescindem da linguagem em suas formas poética e jaculatória. No horizonte desta experiência que se dá entre a pura ausência, numa mistura entre gozo, amor extático, e abertura ao Outro[10] e a iminência da presença de um corpo vivo que se goza, não estaríamos diante da jaculação de um corpo que se vivifica, o que se diferencia do enquadre clássico presente na infinitização da demanda de amor, em que o arrebatamento advém como “a outra face da devastação”[11]?

Em “O ser e o Um” J.-A. Miller retoma o que Lacan isola sob a égide do gozo feminino como um “puro acontecimento de corpo”[12]. Este gozo “não simbolizável, indizível, que tem afinidades com o infinito”[13] é por vezes experimentado nos sonhos. Ele o exemplifica por meio de um sonho relatado por uma analisante, que não deixa de evocar os estados extáticos: um gêiser efervescente, como um turbilhão de vida inesgotável que aparecera a uma mulher como aquilo a que sempre havia buscado.

Um corpo, dirá Lacan, “isso se goza… por corporizar-se de maneira significante”[14]. O significante é causa de gozo. O corpo em jogo aí não é o corpo da relação sexual, nem mesmo aquele que se define pela imagem, mas consiste unicamente como um corpo que se goza a si mesmo. Na esteira de tais formulações, Lacan interroga: “como, sem o significante, centrar esse algo que, do gozo, é a causa material”[15]? Questão retomada por J.-A. Miller nos seguintes termos: o que introduz a linguagem no registro do gozo? Freud havia postulado que é a castração. Lacan propõe algo diferente. O que da linguagem se introduz no registro do gozo é a repetição do Um, esta que “comemora a irrupção de um gozo inesquecível”[16].Tal repetição de gozo dá-se fora do sentido. É por esta via que Lacan generaliza a instância deste gozo opaco, atinente à sexualidade feminina. A linguagem, sob este prisma, é apreendida no nível daquilo que se imprime sobre o corpo como efeito de gozo, produzindo aí traços de afetação. Isto quer dizer que no nível da pulsão, da castração e do objeto a, temos ainda uma perspectiva do corpo sublimado, transcendentalizado pelo significante. A partir da jaculatória “Há Um”, o corpo advém como o Outro do significante, e o “acontecimento de corpo, como a verdadeira causa da realidade psíquica”[17].

 

[1] Lacan, J. Seminário 20: mais, ainda, RJ, JZE,1985, p.79.

[2] Meseguer, O. Masochistes ou frigides: diffamations. La cause du désir, n.103, 2020, p.66-69.

[3] Lacan, J. Diretrizes para um Congresso sobre sexualidade feminina, RJ Escritos, JZE,1998, p.739.

[4] Idem, p.741.

[5] Idem, p.744.

[6] Cf. Bologne, J.C. Une Mystique sans Dieu. Paris: Albin Michel, 2015.

[7] Cf. Lacan na Academia, Encontro com Mar Becker e “A mulher submersa”, disponível

l em: https://www.youtube.com/watch?v=p3_jgeogTek . Cf. Podcast Rabiscos, c/Mar Becker, Spotify.

[8] Lacan, J. Seminário 20, p.100.

[9] Cf. Macêdo, L. No ‘Fulgor das ausências’, dizer o indizível. Curinga, n. 50, jul/dez 2020, p.61-72.

[10]Laurent, É. La relación corporal, In: Miller, J.-A Piezas sueltas, p.404-405.

[11] Miller, J.-A. O osso de uma análise, 1998, p.114-116.

[12] Miller, J-A. O ser e o Um, 9/2/2011, inédito.

[13] Miller, J-A. O ser e o Um, 2/3/ 2011, inédito.

[14] Lacan, J. Seminário 20, p.35.

[15] Lacan, J. Seminário 20, p.36.

[16] Miller, J-A. O ser e o Um, 23/3/ 2011, inédito.

[17] Miller, J-A. O ser e o Um, 11/2/ 2011, inédito.

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