De Hans a Sacha


por Hèléne Bonnaud[1]

Trata-se de saber como o pequeno Hans vai poder suportar seu pênis real, na medida em que este não é ameaçado. Aí está o fundamento da angústia. O que há de intolerável em sua situação é esta carência do lado castrador.

(Jacques Lacan, O Seminário, livro IV, A relação de objeto, p. 375)

Dyana Santos, Eva e Adão, da série Pó de Estrelas, 2012

O que há de mais impressionante do que esse comentário de Lacan sobre o pênis do pequeno Hans, objeto central do caso freudiano que ele desenvolveu ao longo de seu seminário IV? Ele situa de saída o problema: ter um pênis é incômodo para o pequeno sujeito, ainda mais quando ele não sofreu a ameaça de castração. Sem a castração, a angústia surge.

O falo fora de serviço

Se tomarmos o documentário que teve grande repercussão, Pequena Garota[2], somos surpreendidos pela presença da angústia, sintoma reconhecido da disforia de gênero, definida como distúrbio da identidade na criança e isto, antes da idade de cinco anos. Esta disforia de gênero não é lida à luz dos conceitos psicanalíticos e, particularmente, da tese freudiana sobre o falo como condensador de gozo. Nesse sentido, ela se reduz a um sofrimento sentido como um prejuízo ligado a um erro sobre seu sexo, responsável por uma impossibilidade de se identificar a seu sexo biológico. A disforia de gênero não teria outra causa senão a de existir enquanto verdade para o sujeito, ou mesmo certeza. De fato, não escolhemos nosso sexo. Mas escolhemos nosso modo de gozo, o que a disforia de gênero ignora. Ela supõe um gozo do órgão masculino como identidade masculina e um gozo do sexo feminino como identidade feminina, respeitando assim o binarismo colocado em questão pelos partidários da transidentidade. Ora, como vemos no documentário, o que na clínica está em jogo é o pavor suscitado pela presença do pênis real no menininho. Ter este órgão é insuportável e é sintomático desta questão da ameaça de castração, especialmente, quando esta é totalmente ignorada. Segundo essa hipótese, a criança que não suporta seu órgão real sem dúvida não encontrou a ameaça de castração. Esta permanece muda, impossível de ser simbolizada. O pênis real, como indica Lacan, assume o valor de objeto undétachablel[3], em excesso, não portador de seu valor fálico. Ele é vazio de sentido. Isto leva a uma indiferença ou a uma rejeição desse pedaço de corpo, pois ele se mostra fora de sentido.

Recusa do sexo e castração

Sacha sabe que, devido à presença do órgão, ele é um menino. Mas ele queria ser uma menina. Esta disforia de gênero repousa inteiramente na recusa do sexo masculino que passa pela presença real de seu pênis. A ausência de simbolização provoca na criança esse sentimento de presença insuportável do pênis. Esta forclusão estaria ligada à ausência de ameaça de castração ou, ao contrário, à sua presença ativa? O que quer dizer a ameaça de castração? Ela opera em dois níveis e remete, primeiramente, à castração materna. Se a Mãe aparece para a criança como faltante e se a criança quer por isso preenchê-la, a angústia surgirá quando ela compreender que não a satisfaz inteiramente, que a mãe permanece “insatisfeita”, como diz Lacan. Por outro lado, quando a criança vem se alojar neste lugar de objeto da mãe, a angústia surgirá devido ao medo de ser devorado por ela ou que ela queira tomar seu falo. A partir daí, a ameaça de castração opera. Quando a ameaça de castração é proferida pelo pai, este interdita a criança de gozar de sua posição de objeto da mãe. Ele se interpõe entre o par mãe-criança, o que o pai de Sacha foi incapaz de fazer, deixando todo o lugar à mãe para exercer sua função materna, sua “potência”, como diz Lacan.

Um desejo de maternidade

A angústia surge, portanto, quando a ameaça não foi proferida ou ouvida. Ela concerne à castração. O que viria responder a uma recusa de seu sexo? Digamos que a angústia de castração focaliza uma resposta em termos de escolha que faça sintoma tanto para o sujeito como para o Outro. No caso de Sacha, o desejo de ser uma menina entra em ressonância com o desejo da mãe. Há aqui colisão de dois desejos. Isso reforça a dimensão de permanecer o falo que falta à mãe, abrindo a via para se identificar a ela como aquela que se satisfaz em ter filhos. Um desejo de maternidade em Sacha vem compensar o fracasso da operação-castração. O desejo de maternidade, de fato, permite uma identificação que é, de certo modo, uma sublimação do objeto fálico ou, para dizê-lo com o último ensino de Lacan, um sinthoma que pode vir enodar as três instâncias que são o Real, o Simbólico e o Imaginário. A maternidade vem enodar o pênis real, a mãe simbólica e a imagem ideal de si como menina. Ela faz suplência à forclusão do falo.

A vestimenta, uma solução?

O que nos ensina também o documentário, é que ser um menino ou uma menina consiste, para a criança que sofre de disforia de gênero, num gozo de se apropriar dos semblantes da feminilidade. Assim acontece aos meninos que usam cabelos longos, jóias e roupas de menina – o inverso para as meninas – mas não é totalmente equivalente, já que estas usam roupas de menino desde muito tempo… E, qualquer que seja o sexo de origem, cada um busca atingir A mulher no horizonte do gozo se fazendo um corpo para além do falo. Vemos aqui como as roupas de menina ou de menino abrem para uma semblantização do corpo que basta às vezes para apaziguar o sujeito. Vestir-se segundo sua escolha de sexo guarda um valor de atribuição sexuada que insere o sujeito em sua dimensão do Outro sexo.

Texto publicado com a amável autorização da autora.

 

NOTAS

[1] Hèléne Bonnaud é psicanalista, analista membro da Escola (AME) – ECF-AMP.

[2] Documentário realizado por Sébastien Lifshitz, 2020.

[3] Essa expressão un-détachable faz referência à ausência de uma operação simbólica que, em Hans, se fez possível por meio de uma construção lógica, como podemos ler nos comentários de Lacan no seminário A relação de objeto. No caso de Sacha, Bonnaud aponta que a construção do pênis como objeto destacável, desenraizado do corpo, não se deu, razão pela qual o órgão se mantem em seu estatuto de objeto real.

Tradução: Márcia Bandeira

Revisão: Letícia Mello

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