Breve comentário sobre a entrevista de Marie-Hélène Brousse à Lacan Web Télévision


por Rodrigo Almeida

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim no papel.
Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

Recorto dois fragmentos da entrevista de Marie-Hélène Brousse, em uma entrevista à TV Lacan no YouTube, que orientam a clínica psicanalítica atual.

“O que a subjetividade da época efetua é o corte entre o corpo e o falante. […] A perspectiva da psicanálise é precisamente a de manter ligado o corpo com o falante” (LES MODES, 2021, [s. p.]).

Brousse é precisa em dizer que estamos num período de mutação dos semblantes, como se a dimensão do real se impusesse, não havendo mais tanta diferença entre a palavra e o real – como se passasse a vigorar uma emancipação do real biológico sobre o real da palavra. Ela também afirma que o que a subjetividade de nossa época efetua é um corte entre o corpo e o falante.

Para a psicanálise, essa divisão entre corpo e palavra não funciona. O discurso da ciência contradiz a dimensão significante ao tratar o órgão como real, deixando de fora a singularidade do processo de sexuação de cada sujeito. Um desafio se impõe à psicanálise: cabe ao psicanalista acolher os falasseres em suas identidades considerando aquilo que do gozo lhes ressoa no corpo, apostando nas invenções e amarrações de cada um.

No segundo recorte, ela aponta um direcionamento, uma bússola para a clínica atual e aborda o fenômeno trans e as modificações corporais.

Alguém que tenha feito uma operação biológica em seu corpo, que terá transformado seu corpo: será que ele terá menos vontade de falar disso?  Será que ele sofrerá menos da relação que passará ou não passará por seu fantasma? Será que ele sofrerá menos do laço social? Não! O que leva uma pessoa à análise é um sofrimento, seja ele qual for. (LES MODES, 2021, [s. p.]).

Se Miller propõe toda uma discussão a partir de sua belíssima entrevista com Éric Marty sobre o fenômeno trans e as teorias de gênero, parece possível incluí-lo como mais um dos efeitos do contemporâneo sobre o corpo dos falasseres. Diante da feminização do mundo e da pluralização das identidades, cabe ainda recolher suas consequências – e a cada um se posicionar, considerando a ética e a política da psicanálise, questionando sempre as soluções oferecidas pela ciência para o tratamento do gozo.

 

Referências bibliográficas

LES MODES du sex//Marie-Helène Brousse. France: [s. n.], 23 maio 2021. Publicado pelo canal Lacan Web Television. 1 vídeo (21 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kM2Ogcq3CaU&t=667s. Acesso em: 24 maio 2021.

MILLER, Jacques-Alain; MARTY, Éric. Entrevisa sobre Le sexe des modernes. Correio Express, São Paulo, 21 mar. 2021. Disponível em:  https://www.ebp.org.br/correio_express/2021/04/14/entrevista-sobre-le-sexe-des-modernes/. Acesso em: 23 mar. 2021.

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