Bibliografia

MERLET, Alain. La mort comme acte manqué. In: Révue Cause Freudienne, n. 44. Paris : École de la Cause Freudienne, fev. 2000, p. 73-82.
Mors certa, hora incerta. A frase em latim traz a questão do tempo e da contingência como acontecimento que põe fim à vida. A morte é um acontecimento na convergência do ser e do não ser. Lacan, em RSI, nos diz: “Para o obsessivo a morte é um ato falho. Não é nada bobo, pois a morte só é abordável por um ato, ainda que para ser bem-sucedido seja preciso que alguém se suicide sabendo ser um ato[1]. O sintoma, em RSI, pode ser lido como algo que está errado no campo da realidade. No caso do obsessivo, é possível localizar um ponto de real que pode ganhar valor de sintoma, ao se articular de forma conivente com o inconsciente e o modo de gozo. Ainda nessa referência ao ato suicida, Lacan localiza um saber embutido no próprio ato, que é interpretado no inconsciente pelo obsessivo como um ato falho, pois não traz a dimensão da estranheza, mas de uma encenação. Como nos diz Freud, há uma permissão inconsciente para o suicídio[2].
Neste texto, Alain Merlet lança luz sobre o tratamento de um obsessivo que não conclui a análise, pois morre de câncer.O autor evidencia a transferência como motor de entrada em análise para este sujeito, a partir de um ato falho pelo qual o paciente vai dizer de seus atos compulsivos durante o sintoma da insônia. Ao trazer o caso de forma retroativa, é possível reconhecer a intenção suicida e, consequentemente, o desejo de morrer do paciente já anunciado no início do tratamento. Merlet questiona o lugar do analista na condução desse caso. O que escapou ao analista quando o paciente anunciou que iria morrer? Ele teria se recusado a acreditar na forma explícita de o paciente dizer que iria morrer? Se o obsessivo se antecipa tardiamente, o analista precisa ser preciso e estar uma jogada à frente na partida.
Como nos orienta Lacan: “A análise é isso. É a resposta a um enigma, e uma resposta […] completamente besta. Corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual.”[3]
Se, como dizem, uma análise termina quando desaparece o corpo, neste caso clínico, leva-se em conta a morte na medida em que arruína um corpo e revela um fracasso mais ou menos bem-sucedido, que é a vida humana.
Rodrigo Almeida
[1] LACAN, Jacques. O seminário, livro 22: RSI. (Inédito) Lição de 18 fev. 1975. p. 37.
[2] FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (v. VI). In: FREUD, Sigmund. Obras completas de Sigmund Freud: edição standard. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 167-192.
[3] LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975/1976. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 70.