Acontecimento do dizer no cartel, um clarão?!


por Marisa Renna de Vitta

“…o que será que será, que está na natureza…será que será…por que todos os sinos irão repicar…”

Chico Buarque de Holanda

 

Neste escrito, trabalho o acontecimento do dizer a partir da lógica de funcionamento do Cartel, orientada pelo segundo ensino de Lacan, que marca a dimensão real do inconsciente. Para Laurent, “o significante novo permite elevar o dizer à altura de um acontecimento, como o sintoma”.  (LAURENT, 2020, p.184)

“notem que eu não disse a fala, eu disse o dizer, nem toda fala é um dizer, se o fosse, toda fala seria um acontecimento, o que não é o caso, pois, se o fosse, falas vãs não seriam faladas. Um dizer é da ordem do acontecimento. (LACAN, 1973-1974, sessão de 18/12/1973)

E por que o Cartel é um espaço propício ao acontecimento do dizer? Diferentemente do grupo, que visa um trabalho em torno de uma causa comum e igual para todos, constituído pelo discurso do mestre fenômenos imaginários, no Cartel os sujeitos trabalham a partir da sua radical diferença, a partir da solidão de cada um, não sem alguns outros, e não sem um Outro – o Outro da linguagem. É o dizer, com o brilho dos significantes da história de cada sujeito, que ilumina e bordeia a elaboração e a produção em torno do tema de pesquisa, sempre único e singular. No Cartel, ao falarmos, algo da surpresa acontece! Ali onde não há nada previsto, esperado ou sabido, acontece um dizer! O vivo da enunciação faz ressonância a partir da letra de cada um, abrindo um campo novo de elaborações… Perguntas nascem e fertilizam-se, as subjetividades marcam a vivacidade do trabalho com seu ponto inédito. O efeito desse encontro com o inédito produz uma quebra no discurso que faz surgir uma opacidade! É com essa dimensão opaca no saber que nos reinventamos e avançamos… Miller no capítulo Causalidade e Liberdade, ao trabalhar a técnica analítica, pontua:

“quando nos afastamos deste registro de operabilidade para apontar para uma dimensão que não é, que é apresentada como opaca – embora a técnica seja apresentada como clara – o mistério sobre a psicanálise tem chances de ‘desentrañarse’.( MILLER, 2019, p.12-13)

Desentrañarse, em espanhol, significa desentranhar, fazer sair das entranhas, do ventre materno, parir. O que pode ser desentranhado numa experiência de Cartel, na literalidade da palavra parir, deixar de ser par, para ir…separar-se de seja lá o que for para ir a algum outro e novo lugar. Para então decolar…, segundo Lacan, em seu texto D’ecolage³.

Este trabalho implica suportar um impossível, ali onde nenhuma luz de sentido se inscreve mais. É nesse encontro opaco com o impossível que um ponto da significação se solta, bem como o gozo contido nela. O vazio como efeito dessa experiência, é o lugar que o trabalho de Cartel ajuda bordear, bordear o que acontece ali numa nova superfície – a superfície de um novo significante em que o gozo pode ser vivido como o gozo feminino, um gozo não-todo, distinto do gozo fálico.

Laurent distingue a visada do uso do significante na poesia da visada do uso do significante a partir da ética da psicanálise:

“O uso que o psicanalista faz da metáfora e da metonímia não tem, entretanto, a mesma visada pela qual o poeta visa o efeito estético, que libera um mais de gozar que lhe é próprio. O psicanalista, como no chiste, deve visar à ética, isto é, ao gozo. (LAURENT, 2020, p. 184)

E acrescenta: “Esse novo uso nessa nova visada define bem então o significante em um uso novo, e até a possibilidade de produção de um significante novo, sob medida”. (LAURENT, 2020, p. 184)

Tal possibilidade se fundamenta na mudança de perspectiva trazida por Lacan: “Por que não se inventaria um significante novo? Nossos significantes são sempre recebidos. Um significante que, como o Real, não teria nenhuma espécie de sentido. A gente não sabe, isso talvez fosse fecundo. Talvez fosse fecundo, talvez isso fosse um meio, um meio, de todo modo, de sideração’”. (LACAN apud LAURENT, 2020, p.184)

Podemos pensar em significantes novos como significantes de sideração?  Com efeitos de natureza sideral? Lacan no Seminário 18, a partir da escrita chinesa, afirma:

“…o significante pulula por toda parte na natureza. Eu lhes falei de estrelas, de constelações, para ser mais exato, já que existem estrelas e estrelas. Durante séculos aliás o céu foi isso – o primeiro traço, aquele que ficava no alto, que era importante”. (LACAN, 1971/2009, p.48)

Podemos pensar o acontecimento do dizer como um significante novo que marca o corpo, assim como estrelas marcam o céu? Em sua dimensão misteriosa e real de sua matéria, de sua temporalidade e espaço. Que emite uma luz, um brilho, um clarão?!

Revisão de Português: Cecília Lana

 

BIBLIOGRAFIA:

LACAN, J., Decolage o despegue de Escuela.  Disponível em: CLIQUE AQUI.

LACAN, J. (1971) O Seminário, Livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

LACAN, J. (1973-1974). O Seminário, Livro XXI: Os não tolos erram. Lição de 18 de dezembro de 1973. Inédito.

LACAN, J. (1976-1977) Le séminaire, livre XXIV: L‘insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Séances 19 avril et 17 mai 1977. Inédit.

LAURENT, É. “A Interpretação: da verdade ao acontecimento”. In: Curinga, no. 50, 2020, p 168-188.

MILLER, J-A. “Causalidad e Libertad”. In: Causa y consentimiento. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. 1a. ed. –Buenos Aires: Paidós, 2019.

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