Acontecimento de Corpo


por Ana Lydia Santiago

Lacan define o sintoma como “um acontecimento de corpo” em Joyce o Sintoma[1], conferencia proferida em 1975. Essa expressão, mencionada apenas nessa ocasião, foi extraída e destacada por Jacques-Alain Miller como uma noção crucial no ultimo ensino de Lacan. A perspectiva inédita introduzida em O seminário, livro 20, Mais, ainda, do significante produzindo efeitos de gozo e não apenas de mortificação, levou à proposição do inconsciente como falasser e do sinthoma enquanto “algo que acontece no corpo por causa de lalíngua”[2].

Cada sujeito responde de uma maneira singular ao banho de lalíngua, no momento de sua chegada ao mundo. O que faz corpo para o ser falante é que seu gozo sofre a incidência da palavra[3]. O acontecimento de corpo é a percussão da língua sobre o corpo, é o traumatismo da própria língua, que se situa no encontro sempre faltoso entre a linguagem e a carne. Concebido como um advento de gozo, o acontecimento de corpo está no cerne, repercute e itera, nutrindo autisticamente o sintoma. Por isso, em uma experiência de análise, alguns temas podem ser interpretados à posteriori como versões, roupagens do acontecimento de corpo.

É preciso diferenciar o sintoma como formação do inconsciente, decifrável e revelador do desejo inconsciente, do sinthoma acontecimento de corpo, que sobressai do registro de um gozo indecifrável, “gozo opaco, por excluir o sentido”[4]. Em uma análise, estes dois opostos são explorados: deciframos os sintomas, buscando saber o que querem dizer, e também a quê satisfazem, de que gozam[5]. O gozo do sintoma testemunha que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo depois do qual, o gozo natural do corpo vivo, transtornou-se e se desviou[6]. Seguimos seus traços pela trama de sentido do sintoma que o sujeito lhe dá, que é sua face interpretável, até o ponto em que, esvaziado do sentido inconsciente e reduzido a seu osso de gozo, não demanda mais nada, revelando o enodamento entre imaginário, simbólico e real.

Muitos testemunhos de passe mencionam algo que sobrevém ao corpo, no final de análise, uma perda que se acompanha de uma vivificação. Na minha experiência um dos acontecimentos de corpo foi assinalado pela perda do brilho do objeto olhar. Ao atravessar a Pont Royal, mirando a Concorde, no horizonte, não vejo mais Paris como antes. De repente, este lugar considerado como uma das mais belas paisagens urbanas do mundo, perde todo o seu deslumbramento e, aos meus olhos, sua beleza deixa de ter o esplendor exuberante de antes. O desinvestimento escópico é correlato à inscrição do vazio no objeto olhar.

O objeto, antes aprisionado em sua face imaginaria, perde o brilho; opera-se, então, a redução do real do gozo do objeto escópico. Considera-se que o imaginário é o corpo[7], e o corpo é impensável sem o gozo, afirma Lacan. Freud, em Mal-estar na civilização, observa que a beleza é a do corpo humano. O que se vê na paisagem é a própria beleza, na paisagem. A interpretação do analista, a esse respeito, sinaliza a retirada do objeto de seu esconderijo e a instauração, para o sujeito, da separação entre o valor de gozo do objeto e seu valor de semblante. O objeto não é mais creditado ao Outro, não há mais o Outro para assegurar ao sujeito esse seu brilho narcísico. É nesse ponto que a operação de “menos” sobre o brilho do olhar que cai, produz um “mais”, um mais de vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outras referências:

 

LECOEUR, B. Acontecimento de corpo. In Scilicet: semblantes e sinthoma. São Paulo: EBP, 2009. p. 26-29.

LYSY, A. “Évenement de corps et fin d’analyse”. In nsl-messager, Traces, 3662.fr.

MANDIL, R. “Há um acontecimento de corpo”. Opção Lacaniana online, Ano 5, n 13, março 2014.

MILLER, J.-A. Elementos de Biologia Lacanina. Belo Horizonte: EBP-MG, 1999.

 

 

[1] Conferência proferida no Ve Symposium international James Joyce, acontecido em Paris, em 20 de junho de 1975. Para o texto estabelecido ver:  LACAN, J. “Joyce le Symptôme”. In: Autres Écrits, Paris: Seuil, 2001. p. 596. Na versão brasileira, p. 565, de Outros Escritos, a expressão foi traduzida por “um evento corporal”.

[2] MILLER, J.-A. Piéces détachées (2004-2005). Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/166445600/J-A-Miller-Pieces-detachees-Cours-2004-2005

[3] MILLER, J.-A. (1998). “Lacan avec Joyce: le séminaire de la section clinique de Barcelone”. In: Revue de la Cause freudienne, n. 38. Paris: Navarin Éditeur, 2011. “Ler um sintoma”. Blog da AMP. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com.br/2011/08/jacques-alain-miller-ler-um-sintoma.html.

[4] LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 566.

[5] MILLER, J.-A. “L’économie de la jouissance”. Choses de finesse en psychanalyse, 2008-2009. In Revue de la cause freudienne, n.77, p. 169.

[6] Miller, J.-A. “Ler o sintoma”.

[7]Lacan, J. (1975-1976). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: JZE, 2007, p. 64.

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