Fazer-se um corpo > UOM, o corpo que se tem

Murmúrios


por Maria Rita Guimarães

O poema Os homens ocos, de T.S.Eliot, (1888 – 1965)  nos sopra que, como trumains que somos, suportamos que “…há mais de um buraco no que se chama o “homem”. Trata-se mesmo de uma verdadeira peneira: eu entro onde?”[1].

Um corpo cheio de buracos, que se aguenta como “saco de pele, vazio, fora e ao lado de seus órgãos”.[2] E “entramos”, como sujeito,  pelo objeto a e, por outra parte,  pela morte. “O homem se apega muito a ser mortal. Ele se apodera da morte.”[3] A morte, o corte! “Assim é que o mundo acaba” … em murmúrios, diz Miller, lembrando-nos a tradução de Leyris –neste Boletim. Murmúrios, gemidos,  que, não à toa, nos lembram “o  horror , o horror” ditos magnificamente, como ecos sinistros, por Marlon Brando na pele do Coronel Kurtz  no filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Não será o caso de desenrolar a intertextualidade entre o filme e T.S.Eliot, mas, apenas lembrar que o poeta apreciava muito O Coração das Trevas, de Josef Conrad, do qual Coppola fez a adaptação livre para seu filme. A tal ponto de ter colocado como epígrafe de seu poema –  “A terra desolada”- justamente “O horror, o horror”, retirada, segundo dizem, por influência de Ezra Pound.

Este link levará você ao belo momento  no qual Marlon  Brando recita o poema em inglês.

https://youtu.be/th8Y2V0qumE

 

Os homens ocos[4]

 

Nós somos os homens ocos

Os homens estofados

Uns aos outros apoiados

Crânio recheado de palha

Ai de nós!

Nossas vozes secas

Frouxas sem sentido

São vento em capim seco

Pés de rato pisando

Em nossa adega seca

 

Figura sem forma

Sombra desbotada,

Força entorpecida, gesto sem expressão

 

Assim é que o mundo acaba

( This is the way the world ends

This is the way the world ends

This is the way the world ends)

 

 

 

 

 

 

[1] LACAN,Jacques,( 1977-78) seminaire Le Moment de conclure. Inédit. Leçon de 17 Janvier 1978.

[2] MILLER, Jacques-Alain. Nota passo a passo.  O Seminário, livro 23,  o sinthoma, 1975-1976, RJ: J.Zahar, 2007, p.213.

[3] Ibidem

[4] MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do seminário 23 de Lacan: O sinthoma. RJ: Zahar, 2009.p.191-192. Eliot, T.S. “Os homens ocos”, in Poemas 1910/1930 (trad. Idelma Ribeiro de Faria). São Paulo, Câmara Brasileira do Livro, p. 63-7.

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