Interpretação no tempo do falasser > Lalíngua

Lalíngua, letra e acontecimento de corpo


por Paula Pimenta

A concepção de “acontecimento de corpo” surge, na obra de Lacan, à época do Seminário 23, “O Sinthoma” (1975-76/2007), contemporâneo de seu escrito “Joyce, o Sintoma” (1975/2003). Mas vemos que essa nova articulação entre corpo e gozo veio se constituindo desde o Seminário 20 (1972-73/1985). A partir dessa época, portanto, tem-se uma virada de orientação quanto ao status da interpretação analítica, que visaria esse gozo fora do sentido que causou marcas no sujeito.

Em uma intervenção no congresso da New Lacanian School, Miller (exposto por Barreto, 2018) define o acontecimento de corpo como

a percussão de lalíngua no corpo, o próprio encontro material, para o parlêtre, do significante com o corpo. A um só tempo, o acontecimento de corpo – o choque puro da linguagem sobre o corpo – seria um fato inaugural e constituinte do parlêtre e, também, algo a se reiterar sem cessar ao longo da existência, um acontecimento permanente. (Barreto, 2018, p. 39).

 

Temos, então, a relação estabelecida entre lalíngua e acontecimento de corpo. Para que este ocorra, todavia, é preciso a inscrição da letra. Lalíngua são os estilhaços do choque da linguagem com o corpo, que comporta gozo, mas não promove um acontecimento de corpo por não demarcar uma borda que contorna um vazio (a zona erógena freudiana), incorrendo na possibilidade de extração do objeto pulsional que localiza o gozo. O que faz isso é a letra, a marca no corpo de um dos estilhaços de lalíngua. (Álvarez, 2020).

Lalíngua é o enxame (“essaim”, homófono a S1) de significantes. Não de palavras, mas de S1s, significantes sozinhos, que não se acoplam a nenhum outro em uma estrutura de linguagem que promova sentido. O gozo de lalíngua refere-se à materialidade do som, à substância sonora em que se produzem as homofonias, assonâncias e onomatopeias.

Lalíngua institui o Um sozinho, sem o Outro, não estando a serviço da comunicação. Trata-se de um gozo anterior ao Outro, o gozo do “parlêtre”. O “sujeito” se constituirá somente em um segundo tempo lógico, pelo banho de linguagem que vem do campo do Outro. O enxame de S1s de lalíngua não produz sentido e não promove um acontecimento. É preciso que algum desses S1s se diferencie e seja alçado ao status de uma marca, que é a letra.

Se lalíngua é o impacto, a entrada do gozo no corpo, a letra implica uma localização desse gozo – que em lalíngua estava deslocalizado. Lalíngua é o início do gozo, enquanto a letra é sua marca, o recorte de um modo singular de gozo. A letra é marca de gozo e modo de gozo. É esse justamente o passo que permitirá a passagem de lalíngua à linguagem: o recorte de um S1 sintomático como o que escreve primitivamente, a letra que marca o início da repetição, se articulará em seguida ao S2 no que Lacan chama a elucubração de saber sobre lalíngua. (Álvarez, 2020, p. 85).

É uma contingência que funda um dos S1s do enxame como letra, por meio do encontro com o Outro.

Tem-se aqui o acontecimento de corpo que se produz no troumatismo: a inscrição da letra e sua borda, que instaura a compulsão à repetição do sintoma e a escritura primitiva do sintoma. Essa inscrição, essa marca que se repete, é um acontecimento de corpo. (Alvarez, 2020, p. 93).

Há uma sincronia entre a inscrição da letra e o troumatismo. À medida em que ela se escreve, também se inscreve o furo. A letra fura o gozo de lalangue, esvaziando-o ao extrair o S1 do conjunto indiferenciado de uns, deixando sua marca como cicatriz.

Assim, o Um pode fazer dois, articulando-se com um S2 e compondo uma cadeia. É a partir desse S1 da letra que a linguagem pode advir, concatenando um S2 que se encadeia e promove sentido, compondo a estrutura da linguagem (Miller, 1998).

O acontecimento de corpo é, portanto, marca no corpo da inscrição desse gozo localizado que é a letra. “A repetição do sintoma é esse algo do que acabo de dizer que primitivamente é escritura” (Lacan, Sem. 22, aula de 21.1.75). Esse Um que se escreve, por sua função de letra, constitui o necessário do sintoma.

O troumatismo é trauma por ser uma irrupção de gozo que produz um furo no real. Esse furo é a não-relação sexual e se produz como uma borda simbólica que a letra demarca; trata-se da borda do furo no saber, no S2. A letra é a borda mesma; ela “escreve o zero e o Um na contingência do trauma, ou seja, escreve o furo e a borda no mesmo ato”. (Álvarez, 2020, p. 93).

E como se apresenta lalíngua na clínica? Com os autistas, vemos o parlêtre habitado por lalíngua, sem poder realizar uma elucubração de saber (Álvarez, 2020, p. 67), sofrendo, como efeito, do que Laurent (2014) ressaltou como sendo o “ruído da língua”. O autista encontra-se embaraçado na passagem de lalíngua à letra, para conseguir fazer marca e borda (daí a orientação de constituir uma neoborda, para localizar o gozo). Nas psicoses, vemos o sujeito represado entre a letra e a linguagem. Um S1 se destacou dentre os uns-entre-outros de lalíngua, mas não se enganchou em um S2 de maneira a promover a inserção em um discurso.  Na clínica da neurose, onde há um discurso constituído, uma ordenação da linguagem por meio do significante do Nome-do-Pai, vemos o sujeito tendo de se haver com esse fora do sentido que é lalíngua, recorrendo à fantasia para recobrir o gozo e o furo, marcas do troumatismo da letra. Afinal, com o gozo fora do sentido de lalíngua e sua marca de letra e de acontecimento de corpo, só nos resta saber-fazer. É o que nos mostram os relatos de passe.

As formulações deste texto se apoiaram na mais recente produção teórica de Patricio Álvarez Bayón (2020), o convidado internacional de nossa jornada. Mais conhecido por sua inserção no campo do autismo, Álvarez, entretanto, orientado por Laurent, faz uma fina leitura das sutilezas da clínica de lalíngua em sua correlação com a letra e com o acontecimento de corpo, não apenas no autismo. Certamente, teremos uma boa conversa no próximo novembro!

 

ÁLVAREZ BAYÓN, Patricio. El autismo, entre lalengua y la letra. Olivos, AR: Grama, 2020.

BARRETO, Fábio P. Fenômeno e acontecimento de corpo na clínica da estabilização psicótica. Cythère, Rev. de la Red Univ. Amer., v. 1, ago. 2018, p. 34-43. Disponível em: http://revistacythere.com/wp-content/uploads/2018/08/CYTHERE-1.-PAES-BARRETO-Fen%C3%B4meno-e-acontecimento-de-corpo.pdf. Acesso em: 13 mai. 2021.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. Joyce, o Sintoma (1975). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 560-566.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 22: R.S.I. (1974-1975). [Inédito]

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma. (1975-1976) Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

LAURENT, Éric. A batalha do autismo: da clínica à política. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

MILLER, Jacques-Alain. Los signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 1998. (Curso originalmente ministrado em 1986-1987).

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