Resenha ROY, Daniel. Quatro perspectivas sobre a diferença sexual.
por Cristina Pinelli

Daniel Roy produziu essa intervenção como um saber frente às desordens da clínica sensíveis no campo da infância que testemunham a deriva de nossas convicções, os semblantes que nos mantêm, os gozos que nos convêm e, produz linhas de falha e zonas de fratura. A diferença sexual é o nome de uma dessas zonas privilegiadas. Ele propõe quatro perspectivas sobre a “diferença sexual”, extraídas das obras de Freud e de Lacan, nos referindo à leitura de Jacques-Alain Miller. [1]
A primeira perspectiva é aquela indicada por Freud em 1910.[2] O fator sexual, tal como ele o introduz no discurso universal, é de fato uma novidade que não pode ser “universalmente admitida”. A posição que o sujeito, desde a infância, assume em relação a esse elemento de novidade, de singularidade, o germe de sua diferença absoluta. Nenhum código permite ao sujeito decifrar o que lhe acontece e, portanto, ele não sabe por que aquilo lhe acontece, nem o que quer dizer. Contudo, está a seu cargo e é diante dessa falha que vão se construir as teorias sexuais infantis e se edificar as diversas identificações da infância. A segunda perspectiva abre-se em 1923[3] e continua em 1925, [4] introduzindo um órgão muito particular, o falo, que, nos termos de Freud, exerce uma “primazia” sobre a vida sexual infantil para os dois sexos, cuja eficácia se sustenta em ser possivelmente perdido. A terceira perspectiva foi elaborada por Lacan entre 1956 e 1959 [5] e em seu texto de 1958 “A significação do falo”, no qual propõe o falo como terceiro termo, que vai ser o eixo em torno do qual pode se operar uma repartição dialética entre homem e mulher. Falo do qual se pode dizer que há uma relação do sujeito ao falo que se estabelece sem considerar a diferença anatômica entre os sexos, falo como significante, significante do desejo do Outro.
Mas se esse falo assume possivelmente toda a responsabilidade do que há de sexual na diferença e, se para responder “a esse falo, o que a criança tem não vale mais do que o que ela não tem”, [6] Roy se interroga sobre como fica a pulsão sexual, seus objetos e os acontecimentos do corpo que deixam traços de seu impacto, coisas que escapam ao Outro e que estão no fundamento da solidão e da diferença. Seriam esses os elementos que fazem reiterar o gozo do Um, conforme questão levantada nesse eixo?
A quarta perspectiva toma forma no ensino de Lacan dos anos 1970-1972 no curso dos quais ele reformula as coordenadas da inscrição de cada ser falante no “discurso sexual”. Lacan parte de uma constatação que não precisamos esperar pela fase fálica para distinguir uma menina de um menino; há uma diferença, não é “sexual”, pois se houvesse diferença sexual, ela estabeleceria com efeito uma relação entre os dois sexos, uma relação de diferença. Essa dita “diferença” responde ao fato real de que “na idade adulta é próprio do destino de seres falantes distribuírem-se entre homens e mulheres” [7]. Distribuição de puro semblante que é o que define o homem em sua relação à mulher e vice-versa, eles não têm outra existência que significante como os sites de encontro exploram tão bem.
Há uma forte tese de Lacan de que no encontro dos corpos sexuados o real do gozo sexual é o falo [8] o “obstáculo” feito à relação entre os sexos e, portanto, “à bipolaridade sexual” [9]. Ele não é o nome do gozo sexual na relação de um sexo a outro, mas de preferência o index do gozo sexual enquanto ele se interpõe entre um sexo e o outro.
A família aparece, assim, tanto como o lugar onde se transmite a falha do sexual, como o lugar em que ela se mascara, sem a mediação do Édipo, mas não sem a castração, aqui castração do gozo. Esta falha adquire nome de “diferença sexual” –, correndo o risco de todos os mal-entendidos e erros. Nós acolhemos como tal as ficções da criança que nos fala, ficções que carregam a marca da diferença absoluta que elas contêm, sempre sexual.
NOTAS:
[1] MILLER, J. A. Os seis paradigmas do gozo. (2000). In: Opção Lacaniana. n. 26/27. São Paulo: Ed, Eolia, 2000, pp. 87-105.
[2] FREUD, S. (2016 [1901-1905]). Obras completas, volume 6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”). Trad. Paulo Cezar Souza. São Paulo: Cia das Letras, p. 14.
[3] FREUD, S. (2011 [1923-1925]). A organização genital infantil. In: Obras completas, volume 16: O eu o id, e outros textos. Trad. Paulo Cezar Souza. São Paulo: Cia das Letras, p. 168.
[4] FREUD, S. (2011 [1923-1925]). Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos. In: Obras completas, volume 16: O eu o id, e outros textos. Trad. Paulo Cezar Souza. São Paulo: Cia das Letras, p. 283.
[5] LACAN, J. (1995 [1956-57]) O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor;
LACAN, J. (1999 [1957-58]) O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor
LACAN, J. (2013 [1958-1959]) O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[6] LACAN, J. (1998). A significação do falo. In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 701.
[7] LACAN, J. (2012 [1971-1972]) O Seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.30.
[8] LACAN, J. (2009 [1971]) O Seminário, livro 18: De um discurso que não seja do semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.30.
[9] Ibid, p. 33