Quando um acontecimento de corpo se produz - Pierre Naveau[1]
por Mariana Vidigal

Naveau (2017) percorre o ensino de Lacan para situar a relação entre o “inconsciente, o sintoma, o gozo e a letra que se escreve e que, por isso mesmo, é para ser lida” (p.221). Destaca que na aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI, Lacan especificou que a variável x é “o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra” e que essa escrita é “o que o sintoma opera selvagemente” (LACAN, 1975). Naveau (2017) extraí daí que o selvagem diria respeito a esta operação na qual o sintoma se apresenta como da ordem do necessário, do não cessa de se escrever e que acarreta uma irrupção de gozo. E, ainda acrescenta em Lacan (1975), que “o sintoma não é definível senão pelo modo como cada um goza do inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina”.
Naveau (2017) retoma que, na mesma lição, Lacan (1975) articula uma mulher ao lugar de sintoma para o homem, pelo fato de ser impossível, para ele, gozar do corpo dela, na medida em que o falo faz obstáculo. Como consequência, é preciso que homem acredite nela, il y croit, que ele acredite nessa mulher (LACAN, 1975).
Diante dessas perspectivas, Naveau (2017) faz a hipótese de que “uma mulher é, para o homem, um sintoma, mas não de qualquer forma e sim relativamente a um acontecimento traumático”, mas um “acontecimento que concerne à língua que se fala e, assim, ao inconsciente” (NAVEAU, 2017, p.221). Trata-se do encontro com a contingência de um real, relativo ao instante no qual se escreve algo do que recorre de uma “desordem de uma contingência (…). Um acontecimento de corpo se produz relativamente à contingência de um dito, ou seja, no instante em que um dizer atinge seu alvo, tem um impacto real” (NAVEAU, 2017, p.223).
A partir da definição milleriana (2001) de que o acontecimento de corpo são acontecimentos de discurso que deixaram rastros no corpo que perturbam o seu funcionamento e ali fazem sintoma, Naveau (2017) acrescenta a condicionante a isto de que é preciso um sujeito apto a ler esses rastros, a decifrá-los. Que o sujeito chegue a pensar que os sintomas são rastros de um acontecimento traumático, da incidência da língua sobre o corpo do ser falante, da “palavra que fere” (MILLER, 2009) o corpo.
Sustentando-se na formulação lacaniana de que a mulher é um sintoma para um homem e um homem é para uma mulher uma devastação, Naveau (2017) propõe identificar o homem com uma palavra que fere a mulher, “uma mulher ferida” (LACAN, 1992, p.69). Uma mulher pode ser ferida pelo o que se diz ou o que não se diz, “o próprio fato de a fala ter efeitos a torna vulnerável” (NAVEAU, 2017, p.226). Com isto, sustenta a sua hipótese de que “um acontecimento de corpo é relativo à contingência de um dito” (NAVEAU, 2017, p.226), um instante em que alguma coisa se diz ou não se diz e que deixa rastros de gozo no corpo que pode acontecer como vergonha, rubor, feridas, palidez, etc. Mas, quando torna-se repetido, toma a dimensão de um sintoma.
REFERÊNCIAS
LACAN, Jacques. (1975). Aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI. (Inédito).
LACAN, Jacques. (1969-70). O seminário livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, Ed, 1992.
NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017, pp.219-230.
MILLER, Jacques-Alain. (2009). A palavra que fere. In: Opção Lacaniana. n.56-57. São Paulo: Ed.Eolia, 2009.
___________________(2001). Elementos de Biologia Lacaniana. Belo Horizonte: EBP-MG, 2001.
NOTAS
[1] NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017, pp.219-230.