Entrevista com Ram Mandil sobre Acontecimento de corpo e o final de análise

Ram Mandil (A.E. 2012-2015)
Fragmento do primeiro testemunho: “Conjunto vazio”[1].
“A escolha pelo terceiro analista foi, à primeira vista, sobre alguém cuja transferência estava estabelecida, a princípio, em relação aos textos e conferências que eu acompanhava com grande interesse. Eu o via também como alguém um pouco mais “integrado” ao mundo, o que poderia ser um bom contraponto à minha tendência “apocalíptica”, para ficarmos com o par proposto por Umberto Eco. Só mais adiante, já na própria análise, é que pude me deparar com as razões libidinais da transferência a este analista.
Decisão tomada, logo me deparei com um momento crucial desta análise, associado a uma cena de infância/adolescência. Nas ocasiões em que eu ficava doente, me via diante de meu pai trazendo um medicamento, na forma de uma drágea, de uma cápsula ou de uma pílula, para que eu o ingerisse. A cena adquiria ares de horror. Eu simplesmente não conseguia engolir esse medicamento, que ficava retido em algum canto de minha boca. Colocava o remédio sobre a língua, tomava um gole de água e em seguida eu entrava numa espécie de fading, para só depois procurar saber se eu o havia engolido ou não. Quando isso não acontecia, aumentava a cólera de meu pai, e seus gritos de “engula”, o que levava a um estado de angústia intensa diante da figura de um Outro que se apresentava de forma cruel. A questão, desde o início, não era o fato de estar ou não tomando um medicamento, mas com a forma deste medicamento, o fato de ser um sólido, uma cápsula, um envoltório no qual o remédio estava encerrado. Isso tinha várias consequências: por vezes escondia algum mal-estar ou doença, com receio de que a cena se repetisse; quando era inevitável, perguntava por versões em xarope, já que não tinha problemas com a forma líquida.
Quando esta cena retorna na análise, é que me dou conta da motivação libidinal envolvida na escolha do analista e que eu até então ignorava. Há tempos, quando editava uma revista do Campo Freudiano, eu mesmo havia publicado a tradução de um artigo do analista com o título: “Como engolir a pílula?” no interior do discurso analítico. A suposição de saber, portanto, não era algo difuso, mas recaia sobre um modo de gozo no qual eu havia me enredado na infância. A recusa em engolir a pílula – e não há como não perceber uma certa ressonância com o feminino – repercutia a recusa do nome Avraham. Mas aqui, a dimensão corporal do que estava em jogo, torna-se mais evidente. A recusa era também a de abrir o orifício do corpo frente a demanda do Outro, e consentir com o trânsito de um objeto através desse orifício.
A cena estava montada. A recusa em engolir aquilo que se articulava à demanda do Outro se conjugava com o temor de ser engolido pelo Outro. Engolir/ser engolido, esta era a gramática da pulsão cuja pulsação estava diretamente ligada à abertura e ao fechamento dos orifícios do corpo. O trabalho analítico indicava uma direção: para consentir em engolir a pílula, e tudo aquilo que ali estava condensado, seria necessário encontrar um modo de desarmar a fantasia de ser engolido pelo Outro.”
NOTAS
[1] Testemunho publicado em Opção Lacaniana, n.66, agosto de 2013.