Sexo como acontecimento


por Cristina Drummond

Dyana Santos, Cabo de Guerra, 2012

Há vinte anos ocorreu um congresso da Associação Mundial de Psicanálise no qual os grupos do Cereda tomaram como norte de sua pesquisa o tema Como o sexo chega às crianças. Tínhamos, então, no seminário As formações do inconsciente (LACAN, 1956-1957/1999), a tradição e o falo como referências para ler a questão. A etapa fálica primitiva, a criança investida de valor fálico para a mãe, é o signo de sua tomada no simbólico. A passagem do ser ao ter, onde o pai priva a mãe daquilo que ela não tem, é decisiva para a posição da criança na sexuação. E a saída do Édipo é demarcada pelas provas que um pai dá daquilo que tem, qual seja, o falo, dando início ao que decorre da significação fálica. O complexo de castração permite, assim, segundo Lacan, a instalação, no sujeito, de uma posição inconsciente sem a qual ele não saberia se identificar ao tipo ideal de seu sexo.

No entanto, em O avesso da psicanálise, Lacan (1969-1970/1992) aponta o caráter estritamente inutilizável do complexo de Édipo e, em 1970, anuncia um além do Édipo. Entramos no campo do gozo e da função paterna encarnada e transmitida, referências fundadas numa releitura do falo na experiência de Hans e das soluções sintomáticas como resposta ao sexual, tomado como algo que vem de fora, hetero, e que faz furo no saber, tal como podemos ler também na Conferência de Genebra sobre o sintoma (LACAN, 1985/1998). 

Mais vinte anos se passaram e essas referências ficaram obsoletas? De forma alguma. Ainda nos servimos delas para pensarmos o encontro com o sexual e o centrarmos em torno do acontecimento, reforçando a ideia de que o de que se trata é de um encontro com um real diante do qual o sujeito se coloca a trabalho para se arranjar.

O que mudou nesse tempo, diz respeito às mudanças no simbólico que nos trazem novas configurações subjetivas e novas respostas sintomáticas. São novas maneiras de distribuição do gozo. A mutação do discurso do mestre para uma lógica capitalista se impõe no campo discursivo e elimina a barra que marcava um impossível. Em consequência, surgem novos arranjos sintomáticos sem o auxílio da ancoragem edípica que chegam mesmo à utopia de afirmar uma possibilidade de uma posição sexuada que dispensaria o Outro. São novas amarrações sem referência ao nome do pai, evaporação ou inexistência do nome ao invés de foraclusão ou adesão simbólica.

Trata-se de um novo regime de funcionamento do Outro, onde esse Outro passa a ser o corpo. Há uma inadequação do significante para nomear o gozo e, por outro lado, uma dificuldade para sintomatizar a posição sexuada. A proliferação de significantes deixa muitas vezes em suspenso a amarração identificatória que permitiria localizar um sintoma.

Nessa inexistência da sexuação nos encontramos diante dos infinitos gêneros, sob o comando de uma lógica do supereu que apresenta um gozo que não encontra nem o limite fálico nem o limite feminino do não-todo.

Servimo-nos, então, do fato de que há o sintoma como acontecimento de corpo decorrente do encontro com o significante sem sentido estabelecido e há o encontro com o gozo sexual que se apoia sobre essa maneira singular pela qual cada ser falante foi tocado pela palavra. Se tomávamos o encontro com o sexual como algo que faz furo e que aciona uma busca de saber, agora nos deparamos com situações em que esse encontro não localiza qualquer furo, provoca um desarranjo e o sujeito, como diz Miquel Missé (2021), “transita porque tem alguma coisa que tem que reordenar”.

As bricolagens que sustentam os corpos exigem uma prática do furo, tal como os Lefort, analistas que se dedicaram ao trabalho com crianças na orientação de Lacan e que deram início ao Cereda, nos introduziram, distinta da prática do continente, tal como foi tomada pelos kleinianos. Temos muito a aprender com as crianças autistas e psicóticas em seu trabalho enlouquecido sobre superfícies não orientáveis e no trabalho analítico com elas para criar uma articulação entre uma superfície e uma borda. Aqui não há recurso aos discursos estabelecidos, o que não impede que, em alguns tratamentos, os sujeitos acabem encontrando maneiras de se articular a eles, ainda que de modo imaginário.

Quando há uma falta, o saber pode ser acionado porque, por definição, a falta está localizada no simbólico. Já o furo tem a ver com o real, com o gozo e em muitos casos a dispersão que o encontro sexual provoca não se localiza nem no corpo nem no simbólico. Estamos aqui no campo em que a topologia, da qual Lacan se serviu, nos ajuda a pensar em como fazer uma borda ao furo que não existe e poder fazer operar uma amarração a partir desse processo. A amarração do gozo com a lalíngua e o corpo terá que ser feita por cada um, um por um, como solução sintomática.

REFERÊNCIAS:

Lacan, J (1998) Conferência em Genebra sobre o sintoma in: Opção Lacaniana n.23, dezembro 1998, p. 6-16

–––––– (1956-1957/1999) O Seminário, Livro  6, As formações do inconsciente

–––––– (1969-1970/1992)  O Seminário, Livro17, O avesso da psicanálise

Missé, M (2021) “Entrevista: Paradojas del género y de la diversidad sexual” in El Psiconalisis, Revista de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis, n. 37.

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