Sobre Trauma e Destino: Leda e o Cisne


por Ana Helena Souza

Dyana Santos, Sem Título, da série Xifopagia, 2011

Leda e o cisne – W. B Yeats (1923)[1]

Trad. Paulo Henriques Britto

Súbito, um baque: as grandes asas brancas
Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito,
As patas negras lhe afagam as ancas
E a estreitam, impotente, contra o peito.

Com dedos trêmulos, como afastar
Das coxas fracas o esplendor plumado?
E como não sentir a palpitar
O estranho coração, desabalado?

Um espasmo ― e eis que se gera um novo ser,
O muro rompido, a torre incendiada
E Agamêmnon morto.
Ali, fremente,
Pelo poder brutal aprisionada,
Terá ela apreendido o seu saber
Antes que a solte o bico indiferente?

Tomo como guia para este comentário o que Miller elabora a respeito de verdade, saber e real nesta citação:

O simbólico fala. É a condição da verdade, verdade que sabemos que está rodeada de mentiras (…). Em todo caso, há verdade quando o simbólico fala, quando há, dizia eu há pouco, relâmpagos que rasgam a escuridão. Ao passo que o real é mudo, inclusive o saber que inclui.[2]

Sirvo-me ainda das elaborações sobre poesia, interpretação, sentido e significação e sobre a poesia como um modo de se aproximar do real sem sentido, do que não fala, mas que inclui um saber.[3] A verdade desse saber marca o mito e as tragédias subsequentes.

Leda e o Cisne de W. B. Yeats põe em relevo um trauma sexual e a ausência de amor como ausência de saber. No mito, Zeus deseja Leda e, para possuí-la, transforma-se em cisne. As duas primeiras estrofes descrevem o inusitado e o assustador, a força e a violência desse poder divino que subjuga um corpo humano mortal. E falam de um desejo infamiliar.

Desse intercurso nasce Helena, origem da guerra de Tróia. Outra filha de Leda, Clitemnestra, esposa de Agamêmnon, vai tramar e executar com o amante o assassinato do marido, quando este voltar da guerra. Na penúltima estrofe, o poeta sintetiza esses acontecimentos engendrados, ali, pela violação de Leda que, na transição para a última estrofe, de novo captura a voz poética.

No não-saber de Leda sobre o cisne, na violência de sua violação inescapável, surgida do “sangue bruto do ar”, inscreve-se o que constitui esse trauma. O poeta se refere à destruição dele decorrente – ruína de Tróia, morte de Agamêmnon. Acrescentaríamos a tragédia de Orestes, vingador do pai e matricida, seu destino inscrito na história familiar.

Yeats, cuja Irlanda, com sua língua silenciada, se debatia há séculos sob domínio inglês, não idealiza sua versão do mito. Escreve a cena de uma violência, perpetuada em destino, ao deter-se no silêncio e na estupefação de Leda. Ficamos por um instante largados com ela, no lugar trauma sem tratamento ou suplência de amor que lhe faça anteparo, sem saber se teria havido algum saber possível.

 

[1] Link para o poema no original em inglês: https://www.poetryfoundation.org/poems/43292/leda-and-the-swan

[2] MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013, p. 242 (tradução minha).

[3] Idem, p. 163-180.

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