Aceitamos o amor que acreditamos merecer


por Márcia Mezêncio

Dyana Santos, Obediência, da série o Lastro do Capital, 2020

Em que medida a frase “aceitamos o amor que acreditamos merecer”, ouvida inicialmente pelo protagonista do filme “As vantagens de ser invisível” e depois por ele enunciada, se refere ao próprio sujeito? Em que podemos tomá-la como chave de leitura do filme e da questão em jogo na adolescência? Em sua primeira aparição, trata-se da resposta a uma pergunta endereçada ao professor: “por que as pessoas legais escolhem pessoas erradas para namorar?”. Refere-se a uma série de mulheres importantes para ele: tia Helen, a irmã, Sam (a garota por quem está apaixonado). Na segunda, é sua resposta à pergunta de Sam: por que ela escolhe pessoas que a machucam para namorar? Diante da resposta, ela o interpreta:

– E por que você nunca me pediu em namoro?

– Eu achei que você não queria.

– E o que você queria?

– Que você fosse feliz.

– Não entendo isso, não pode priorizar os outros e achar que é amor. Quero que as pessoas me olhem como sou.

– Sei que sou quieto, mas eu vejo você como você é.

Falta em dizer que se encontra em ação na relação com o objeto (LACADÉE, 2011), o silêncio do adolescente é uma forma de não tomar posição na língua. Ele vê, pensa, escreve, mas não diz nada, fica na sua. Encarna o adolescente descrito na crônica de Clarice Lispector “Um adolescente, C.J.”: os silenciosos são os mais perigosos pois, perdidos em suas hesitações, podem não sair disso.

O corpo: encontro com o real traumático

O filme é narrado por Charlie (Logan Lerman), através das cartas que escreve a um destinatário não identificado. Nestas cartas ele narra suas experiências, dificuldades e tentativas de se inserir em uma nova escola ao longo do primeiro ano do ensino médio. Marcado por traumas, como o suicídio recente de um amigo e a morte da tia em um acidente em sua infância, convive com a preocupação de seus familiares com sua depressão e episódios ditos alucinatórios. Na escola ele encontra um apoio em seu professor de literatura e na amizade com Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), alunos do terceiro ano, também “deslocados”, que passam a andar com ele.

Ironia do título – em inglês, The Perks of Being a Wallflower – pois o maior desejo do adolescente é ser visto de outra maneira e se não acontece, leva-o à solidão, depressão, errância e condutas de risco. Wallflower que em tradução literal seria flor de parede, é também uma pessoa que não tem com quem dançar ou que se sente tímida, estranha ou excluída de uma festa. Faz alusão à posição de expectador, encostado na parede, do baile, da dança, da vida, da verdadeira vida. “A verdadeira vida acontece em outro lugar”, segundo Lacadée (2011). Objeto olhar (ver – ser visto – fazer-se ver) em cena, Charlie tenta se esconder (no primeiro dia de aula), mas também se mostra, busca o olhar de um veterano que o sustente nessa travessia. Depois se mostra em sua diferença, adotando a “roupa de escritor” que Patrick lhe presenteara. Insere-se na turma dos deslocados, desajustados. O corpo é fonte de vergonha e angústia.

Em seu esforço de separar-se da autoridade dos pais e situar-se na partilha sexual (FREUD, 1905/1989) a chamada crise da adolescência desvela o embaraço do sujeito com o que está em jogo: a sexualidade e a angústia do encontro traumático com o real do corpo e do sexo. O despertar da primavera, sabemos com Freud (1905/1989) e Lacan (1974/2003), é, na verdade, um novo despertar da sexualidade infantil, depois do intervalo da latência.

No filme vemos um retorno do encontro traumático com a sexualidade, o abuso sofrido na infância, algo que o sujeito não consegue traduzir, indizível. As lembranças desse abuso aparecem fragmentadas em diversas situações em que algo do corpo se apresenta. Em uma delas, Charlie planejara um encontro com Sam na festa de fim de ano, mas ela vai com o namorado. Deslocado, ele usa drogas alucinógenas e relembra a cena de um Natal de sua infância: tia Helen lhe fala do “nosso segredinho” e diz que vai buscar o presente dele, sai de carro, tem um acidente e morre. É encontrado sem sentidos deitado na neve, no dia seguinte à festa. Não se lembra de como foi parar ali.

Mas a situação que desencadeia “suas alucinações”, acompanhadas de culpa, de extrema angústia e ideias suicidas, se dá na despedida de Sam. Eles estão no quarto dela, Charlie ajudando a arrumar suas malas para a partida para a faculdade. Depois de interpelado por ela sobre o que quer, Charlie a beija e Sam toca-lhe entre as pernas. Ele fica perturbado. Lembranças da tia se misturam a alucinações. De volta para casa, sozinho, desarvorado, liga para a irmã: “é minha culpa, não é? Eu matei a tia Helen. Ela não tinha ido buscar meu presente? E se eu quisesse que ela morresse?”

O abuso é vivido como uma irrupção de gozo, num momento em que não devia acontecer, sem que o sujeito tenha instrumentos para entender o que se passa ou para recusar. Trata-se de um gozo sem sentido. Uma satisfação paradoxal que é diferente de prazer. Troumatisme, escreve Lacan. Sua lembrança é recalcada, mas o despertar da sexualidade vivenciado na puberdade traz consigo a irrupção dessa lembrança, não articulada no simbólico e que faz seu retorno no real das alucinações.

O suicídio do amigo também pode ter contribuído para mascarar o verdadeiro trauma e desencadeado as chamadas alucinações? Podemos chamá-las de acontecimento de corpo? Diante do enigma do sexo e da existência, o sujeito se depara com a falta em dizer. O que o Outro quer de mim? Via de acesso ao saber indizível: deparar-se com o objeto que se é para o Outro.

A questão seria: o que fazer com o corpo que se tem? Esse corpo que escapa o tempo todo. O real da puberdade, a maturação sexual, ao contrário de viabilizar a relação sexual – que não existe, nos termos de Lacan – coloca em jogo o gozo das fantasias, que justamente afastam tal possibilidade, o sujeito goza sozinho de seu corpo e de seus pensamentos. “A vida sexual do jovem em processo de amadurecimento não dispõe de outro espaço que não o das fantasias, ou seja, o das representações não destinadas a concretizar-se” (FREUD, 1905/1989, p. 212) Nessas fantasias o jovem revisita suas investigações sexuais da infância. Lacan (1974/2003) afirma que o adolescente não pode fazer amor com as garotas sem antes despertar de seus sonhos, de suas fantasias.

Não há despertar sem o exílio, como nos lembra Phillippe Lacadée (2011). Exílio fundamental de ter de situar-se como falasser na linguagem, não somente corpo vivo, mas também ser de palavras. Exílio da infância, das palavras da infância, insuficientes para dizer o que se passa no corpo. Exílio do gozo que afasta o/do Outro e leva à solidão, ao sujeito faltam palavras para traduzir, falta a interpretação do Outro. Essa falta de saber do Outro, S(A/), repercute como desarvoramento, tédio, solidão, vergonha e pode levar ao pior (o suicídio, por exemplo). Mas também pode levar a invenções linguageiras para nomear o que acontece (desajustados, deslocados, punk, budista… nomeações que aparecem no filme). A escrita também surge aí como invenção.

“Escreva sobre nós”

A escrita conduz a narrativa do filme. No início, Charlie escreve uma carta em que diz de suas dificuldades e de não ter com quem conversar, alguém que as entenda. Outras cartas pontuam momentos de solidão e desamparo. A escrita ajuda a fixar o gozo fora do corpo e encontrar uma ancoragem no Outro, na forma de um apelo.

Outra vertente da escrita se estabelecerá no laço com o professor, cuja importância foi destacada por Freud (1914/1995), que funcionará como apoio na travessia de dentro para fora de casa, incentivando o projeto de ser escritor. Ponto de onde o Ideal do eu pode se ancorar, no encontro com um Outro que diz sim.

O ideal do eu equivale ao ponto de basta que estabiliza o sentimento da vida, que dá ao sujeito seu lugar no Outro e sua fórmula. Aí está o ponto de apoio, o ponto de onde o adolescente pode se ver digno de ser amado, e mesmo amável por um Outro que saiba dizer sim ao novo, ao real da libido que nele surge. (Lacadée, 2011, p. 46)

É como escritor que é reconhecido pelos amigos. Patrick o presenteia no Natal com “roupas de escritor”, enquanto Sam lhe dá uma máquina de escrever, acompanhada da mensagem: “escreva sobre nós”. É com as vestes de escritor que ele retorna ao colégio no ano seguinte, é delas que usa para se ver belo, ainda que não aos olhos de todos.

Outro ponto de apoio será a psiquiatra, quando a crise se desencadeia, na forma de uma oferta de escuta e convite a tomar a palavra. À princípio, Charlie se recusa a ficar no hospital ou conversar com a psiquiatra: “é o outro, não eu, muito sofrimento, não posso ignorar”. Consente quando ela lhe diz que, se quiser melhorar, terá que falar de coisas que falou quando dormia, inconsciente (?). Ele teria falado sobre tia Helen e os abusos que sofrera na infância.

Ressaltemos que não se trata de “falar faz bem”, mas da tarefa de bem dizer o sofrimento, ou seja, buscar a tradução do enigma da existência, de modo a inventar modos de dizer o indizível e modos menos devastadores de viver. Quando Charlie deixa o hospital, lembra uma frase da médica: não escolhemos nosso passado, mas podemos escolher nosso futuro. E é disso que irá se ocupar, sem esquecer o passado, não deixando de viver o presente, tempo fundamental da adolescência.

Ao final do filme, a escrita será colocada um pouco de lado. Charlie escreve uma última carta. Está ocupado em viver/participar. Sai com Patrick e Sam e pode se soltar. Na última cena, o carro atravessa um túnel (metáfora da adolescência para Freud[1]), ao som da música “Heroes”. Reproduzindo a situação em que Sam, no dia em que se conheceram, abre os braços em pé na carroceria da caminhonete em grande velocidade, Charlie se ergue e, também, abre os braços para a “verdadeira vida”: “eu estou aqui, eu estou vivo, nós somos felizes”.

 

REFERÊNCIAS

AS VANTAGENS de ser invisível. Dir. Stephen Chbosky. Estados Unidos. 103min. Cor. Mr. Mudd. 2012.

FREUD, S. Três Ensaios para uma teoria da sexualidade. (1905). In: _____ Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 7. Rio Janeiro: Imago, 1999, p. 117-228.

Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. (1914). In: _____ Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 13. Rio Janeiro: Imago, 1995, p. 246-250.

LACAN, J. Prefácio a O despertar da primavera (1974). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003.

LACADÉE, Ph. O despertar e o exílio. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2011.

 

[1] Nos Três Ensaios, Freud descreve a adolescência/puberdade como “a travessia de um túnel perfurado desde ambas as extremidades” (1905/1989, p.195), de um lado pela corrente afetiva e do outro pela corrente sensual. A convergência das duas correntes teria como resultado uma vida sexual normal.

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