Sexo como acontecimento
por Suzana Barroso (mais um)
Cartel: Cristina Drummond, Fernando Casula, Guilherme Ribeiro, Henri Kaufmanner, Lucia Mello, Monica Campos, Paula Pimenta, Rachel Botrel, Sandra Espinha

No final dos anos sessenta, diante do progresso da ciência, Lacan perguntava: “estaremos nós à altura do que parecemos, pela subversão freudiana, ser convocados a carregar — o ser-para-o-sexo? ” (LACAN, 1968/2003, p.362). O ser para o sexo é aquele marcado em sua origem pela castração, isto é, pela perda de gozo do vivente, que dá lugar à constituição da realidade do quadro da fantasia de cada sujeito.
Apoiada numa perspectiva naturalista do sexual, a extensão do real da ciência ao campo da sexuação vem promovendo sua desordem evidenciada nos seguintes pontos: 1) a dissociação entre sexuação e reprodução; 2) o descrédito conferido ao falo reduzido a um instrumento de poder supostamente nefasto à diversidade sexual[1]; 3) a proliferação ilimitada das identidades sexuais; 4) a liberação das práticas sexuais; 5) as comunidades do sexo como formas contemporâneas de viver a orientação sexual; 6) a soberania dos corpos sobre as identificações aos ideais típicos de cada sexo. Todos esses aspectos da vida sexual não priorizam a incidência traumática da língua sobre o corpo e tendem à elisão do real pulsional, que Freud introduziu na cultura com a psicanálise.
A noção de acontecimento pertence ao último ensino de Lacan, que ao promover o real ao centro de sua teorização, alcançou o status de um acontecimento do discurso psicanalítico. Na lição de 16/02/2011, Miller aborda o real traumático, ao nomear o “acontecimento de terra”: “tenta-se extrair as cifras da natureza, da geologia, da terra, tenta-se deduzir uma lei, mas o fato é que não se sabe ainda inibir nem mesmo prever os deslizamentos de terra e das placas tectônicas, a força dos tsunamis, a irrupção dos tremores de terra e, portanto, se vê – se sobrevivemos, talvez poderemos calculá-lo mais tarde – mas por enquanto vê-se a contingência fazer irrupção nos cálculos. Espetáculo grandioso do que eu chamaria um acontecimento de Terra, que nos representa o real sem lei”.
O real lacaniano implica a dimensão do vivo incomensurável eliminado do campo neurocientífico, isto é, a dimensão do inconsciente do gozo e não somente da lógica. O falasser parasitado pela linguagem e sem os recursos do Édipo, há muito em declínio, encontra-se desamparado das soluções standards quanto à sexuação. Em que a orientação do real pode nortear nossa prática quanto aos impasses do ser sexuado?
Como o sexo chega ao falasser
O sexo como acontecimento se desprende da determinação dialética da cadeia significante, visto que depende do acaso, da tiquê. Nesta perspectiva, o sexo não chega ao falasser pela via do Outro simbólico, da significação fálica das teorias sexuais infantis, da perversão polimorfa e das identificações balizadas pela estrutura edipiana, mas pela via do gozo.
A irrupção de gozo na vida do ser falante, o choque de lalíngua com o corpo é a experiência do real sem lei, sem regra lógica, imprevisível. Isso se reduz a um “instante da encarnação” (Miller, 2009, p. 40) esvaziado de historicidade e de sentido, que deixa marcas no corpo, inaugurando-o como alteridade absoluta. “São os pontos de viragem da história, os fatos, as contingencias e os encontros, que no après coup são designados pelo sujeito como momento de suas escolhas e de suas determinações” (Georges, 2018, p. 16). Essas experiências de ruptura, capturadas pelo inconsciente real, são determinantes da escolha de gozo e da singularidade do sintoma de cada um.
Dentre os casos clínicos de Freud, encontramos dois, Hans e Ema, que ilustram, particularmente, como o sexo chega ao falasser. No do pequeno Hans trata-se do encontro com sua ereção, isto é, com o gozo no corpo. No caso de Ema, o encontro traumático foi com um gozo vindo do Outro[2]. Ambos demonstram o que estava em jogo, a saber, a estranheza do gozo, um acontecimento inédito e êxtimo. “O sexo é Outro corpo, corpo estranho que irrompe no corpo conhecido até então. […] O sexo é o Um do gozo” (Bassols, M. 2021, p. 50).
A diferença sexual esburaca o discurso por implicar dois modos de furo, o do simbólico da estrutura significante, (S(Ⱥ) e a “função do trou” (Lacan, 1975/2019, p. 35) a qual se reduz a pulsão, isto é, o orifício corporal. O pequeno Hans o demonstrou com sua angústia – “é o que há de mais hétero” (Lacan, 1975/1998, p. 10). Ao contrário de uma leitura da fobia que privilegiaria as perturbações das relações familiares como causa da neurose do menino, verificamos que o acontecimento sexual deixa a criança sozinha, sem a parceria com a mãe ou com o falo imaginário. Sintomaticamente foi o cavalo que inscreveu para Hans uma cifra fálica do gozo e enlaçou o sujeito ao Outro.
A “evaporação do pai” (Lacan, 1968/2015, p. 7) revela o estatuto do gozo quando esse se libera da interdição e da lei, ponto que foi generalizado pelo ultimíssimo Lacan, que entreviu pelo viés do gozo feminino o regime do gozo como tal. “É o gozo reduzido ao acontecimento de corpo” (Miller, J. A. lição 02/03/2011).
Escolha do sexo
A lógica da função fálica intervém depois do choque inicial do corpo com lalingua através de uma construção secundária, que chamamos de sexuação, isto é, a assunção a uma posição sexuada. A lógica da sexuação conta com a elocubração de saber e a fantasia. A função fálica inscreve uma diferença em termos lógicos de um gozo masculino, finito e localizável; e outro, feminino, infinito e deslocalizado. No entanto ela não fornece a cifra da relação sexual.
A diferença de sexos é o que não cessa de não se escrever, na medida em que não há lei natural entre os sexos. Nesse ponto, é que verificamos no contemporâneo a contingencia dos encontros de gozo e a abundância de normas que buscam inscrição de novas relações, tais como novas configurações familiares, novas construções sociais marcadas pelo ideal do liberalismo, a saber, “teu corpo é teu”. Com essa finalidade recorre-se aos dispositivos da transformação dos corpos e a diferentes modalidades de relação ao corpo, a exemplo da comunidade butleriana da performance sexual dos corpos (Laurent, 2019, p. 162).
Os seres falantes enquanto Uns-sozinhos, buscam se auto identificar, recorrendo às categorias do discurso do mestre contemporâneo multiplicador das posições sexuais, L,G,B,T,Q,I,A+, que vigoram no discurso internacional, para além do clássico binário homem/mulher.
Para a psicanálise lacaniana a escolha do sexo não é limitada pela ordem simbólica. “A conexão do gozo a linguagem, que une, mantém junto a perda traumática do vivente (a) e sua cifração significante (S1) constitui o que Lacan designa como a função fálica no seu último ensino” (Maleval, 2019, p.1). Essa função concerne aos corpos humanos no tanto que eles falam, qualquer que seja a categoria de gênero a qual eles se identificam e segundo a qual eles se nomeiam. “Chamemos esses corpos falantes “LOM”, neologismo inventado por Lacan para designar a incidência do ter um corpo sobre o sujeito do inconsciente. Quanto ao lado “feminino”, que não é o monopólio do LOM dito mulher, é suficiente, sem dúvida, de o nomear como suplementar” (Brousse, 2020, p. 32). O que é decisivo na escolha do sexo é o real da distribuição do gozo no corpo sexuado. Disso decorre que essa escolha não esteja aberta ao infinito das identidades de gênero, como pretende o construtivismo do gênero. Ela supõe uma fixação de gozo num sintoma a partir de um acontecimento.
Essas noções de sexo como acontecimento e da escolha do sexo foram abordadas na Conversação Preparatória da Jornada em 9 de setembro de 2021, quando foi apresentado esse relatório seguido do caso clínico de Maria, atendido por Rachel Botrel, durante oito anos. Para Max, cujo nome foi escolhido pelo sujeito, ser um “um homenzinho que suporta viver”, foi uma solução construída em análise, isto é, uma nomeação que conferiu dignidade à sua existência singular, restaurando o seu sentimento de vida. Além disso, o caso ilustrou como a imagem do sexo permitiu a Max fazer-se um corpo, questão trabalhada no artigo “O transsexual e a imagem”(Alvarez, P., 2016, p. 128).
A clínica do caso nos ensina que o gênero não pode ser reduzido a um determinismo biológico tampouco social, visto que a eleição do gozo implica o inconsciente real. Cristina Drummond elaborou um contraponto entre Maria, Hans e Mishima para quem o acontecimento de sexo promoveu o rompimento da tela do imaginário.
“Um passo além nessa investigação da relação do corpo com a irrupção de um gozo sem sentido é dado por Lacan quando vai trabalhar a disjunção entre gozo fálico e gozo do corpo nos nós em sua conferência A Terceira, a partir do exemplo de Mishima. Aqui fica claro o tempo em que a imagem totalizante da fase do espelho é rompida, mostrando-se insuficiente para aparelhar o sujeito para enfrentar essa irrupção do real. O escritor descreve sua primeira masturbação como um efeito de seu encontro com uma imagem de São Sebastião. “Todo o meu ser estremeceu”[…], diz o escritor. Lacan fala que esse gozo “rouba a cena” e diz que ele rouba a cena justamente porque ele não vem de dentro dela […]. A expressão de Lacan é: “crève l’écran”, literalmente arrebenta a tela, que nos traz de maneira mais forte essa ideia da irrupção do gozo que rompe com a estrutura anterior. É um pouco distinto do que ele disse a respeito de Hans porque ele introduz o momento em que algo da relação entre o gozo e a letra se sedimenta. Algo desse encontro não se perde e fica fixado para o sujeito.
Na verdade, Mishima foi “arrancado” da mãe pela avó com poucos dias e foi criado em seu quarto que “cheirava a doença e velhice”. Desde pequeno sofria graves manifestações alérgicas em seu corpo apresentando, ao menos uma vez por mês, sinais de autointoxicação que faziam sua família achar que ele iria morrer.A experiência de encontro do sujeito com o gozo é descrita em seu livro Confissões de uma máscara e podemos verificar que, distintamente de Hans, a imagem do outro está implicada nesse gozo. Ele descobre o universo erótico às escondidas a partir do encontro da imagem de São Sebastião em um livro de reproduções de arte de seu pai. Para Mishima está em primeiro plano a não-relação com o Outro, de estar sozinho em seu gozo autístico e a cisão entre carne e espírito permanecerá como uma indagação ininterrupta que o levará a trabalhar intensamente para dar uma solução a ela. Esse traço do gozo associado a uma imagem que é particular ao sujeito vai estar presente em sua escrita e em sua prática de tratamento do corpo através da disciplina dos exercícios físicos, na busca de reconciliar o universal com a existência, entre o ver e o existir. Ele necessitava de seu corpo para colocar um limite à palavra. Dizia: “na maioria das pessoas presumo, o corpo precede a linguagem, em meu caso são as palavras que vieram em primeiro lugar”. Uma indagação sobre a beleza tratada pelo fetichismo e pelo travestismo e uma posição de pária irão atravessar a vida desse sujeito até chegar ao suicídio como derradeira erotização da morte”.
O corpo, o sexo e o sintoma trans
Podemos fazer a distinção das várias modalidades do transexualismo e da sua evolução conceitual em diferentes épocas: o transexualismo de Stoller; as formulações lacanianas relativas às apresentações de pacientes; a teoria do gozo transsexual schreberiano na década de 50; a especificidade da relação do transexual ao falo na década de 70; e os trans contemporâneos. Todas essas formulações implicam o corpo, o sexo e o sintoma.
O transexual definido por Lacan no “Seminário, livro 19 : … ou pior” é aquele que rejeita o órgão fálico enquanto significante e cuja certeza de estar num corpo errado requer, de modo imperativo, a mudança de sexo. Ele encarna a diferença sexual, que é um fato de discurso, em um órgão: “a pequena diferença que passa enganosamente para o real por intermédio do órgão” (Lacan, 1971/2012, p. 17). Sua paixão é a de querer livrar-se do erro comum que não vê que o significante é o gozo e que o falo é apenas o significado.
No artigo “Biopolítica da norma trans” (2021) Éric Laurent distingue a passagem para o real associada à encarnação da diferença sexual no órgão da passagem do real, quer dizer, o forçamento do discurso sexual pela cirurgia ignorando que o gozo não faz relação.
Considerar a proposta de Laurent do “paradigma trans” amplia a concepção lacaniana de 1971. “Os sujeitos trans são sujeitos que sofrem da inadequação de seus corpos, não da crença que eles são de outro sexo”(Laurent, 2021). Diferentemente da paixão transexualista, a paixão trans é de autodeterminação da escolha do sexo, “paixão do self made” (Laurent, 2021), cujo reconhecimento se inscreve nas leis de mudança de estado civil, sem necessariamente um tratamento hormonal ou cirúrgico.
O paradigma trans se estende hoje à adolescência e à infância. De fato, a chamada “criança trans” demonstra o sofrimento advindo do mal estar no corpo que pode ser lido à luz da precariedade das referência do Outro para a tradução dos acontecimentos de gozo. No entanto, uma escolha de gênero, que se manifesta muito cedo na infância, tem sido tomada pelo discurso contemporâneo como argumento favorável à ideia da suposta determinação estritamente biológica da identidade sexual. É no Lacan do tempo do pós-Édipo que vamos encontrar recursos para investigar a sexuação precoce da criança, a partir do seu modo de enlaçamento ao fantasma ou ao sintoma da mãe, o que implica a posição de objeto da criança.
A variedade de demandas trans é enorme! Na Conversação Preparatoria da Jornada discutimos um caso relatado por Monica Campos de uma demanda que chegou ao Judiciário – a troca de nome no registro civil – pedido de um sujeito que passou por cirurgia, passando a ter uma anatomia feminina. Quanto a isso o ativista trans Miquel Missé dá seu testemunho: “creio que é preciso reconhecer a essas pessoas, sua legitimidade, sua necessidade, e tratar de entende-los segundo a lógica de que a gente não transita por prazer, a gente transita porque tem alguma coisa que tem que reordenar”(Missé, 2021).
Enquanto os manuais diagnósticos classificam e patologizam o “trans”- uma síndrome, um tipo clínico específico incluido nos bordeline, etc. – o discurso analítico o inscreve como um sintoma da nossa época.
Ao considerar essa dimensão sintomática do trans, podemos incluir a elaboração de Éric Laurent sobre “Joyce trans”, apoiada nas repetidas transformações de homens em mulheres com relação a personagens de Ulisses. “Joyce, como homem, na vertente UOM, tem um corpo. Ele só é mais sensível à vertente feminina, declinada em termos de sintoma, de ser-sintoma”(Laurent, 2016, p. 161). Trata-se do ponto no qual Joyce se toma por mulher ocasionalmente para se consumar como sintoma.
REFERÊNCIAS:
ALVAREZ. P. (2016) “O transexual e a imagem” in Opção Lacaniana, v. 73, p. 126-128
BASSOLS.M. (2021) La diferencia de los sexos no existe en el inconsciente. Buenos Aires: Grama ediciones.
BROUSSE, M.H. (2020) Mode de jouir au féminin, Paris: Navarin Éditeur
GEORGES.P. (2018) “La foudre conduit toutes choses” in La Cause du désir, revue de psychanalise, n. 100, p.10-21
LACAN, J. (1967/2003) “Alocução sobre as psicoses da criança”, in Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 359-371.
_______ (1975/2019) “L´ombilic du rêve est um trou” in La cause du désir, revue de psychanalise, n. 102, Paris, juin, 2019, Navarin Editeur
_______ (1975/1998) “Conferência sobre o sintoma” in Opção Lacaniana, vol. 23, p. 6-16.
_______ (1968/2015) “Nota sobre o pai” in Opção Lacaniana, vol. 71, p. 7-8
______ (1971-72/2012) O seminário, livro 19, …ou pior. Texto estabelecido por Jacques Alain Miller. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
_______ (1974/1993) “La terceira”, in: Intervenciones y textos 2, Buenos Aires, Manantial, p.73-108.
LAURENT. É. (2021) “Du paradigme trans” in Lacan Quotidien, n. 928.
______ (2019) “Butler y Gender” in El goce sin rostro, Buenos Aires: Editorial Tres Haches, p. 157-163
______ (2021) ‘Biopolitique de la norme trans” in Lacan Quotidien, n. 932.
______ (2016) O avesso da biopolítica, uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Conta Capa Livraria Ltda.
MALEVAL J. C. (2019) “Quand Preciado interpelle la psychanalyse” in Lacan Quotidien, n. 856.
MILLER. J. A. (2011) O Ser e o Um. Seminário inédito.
______ (2009) “O inconsciente e o sinthoma” in Opção Lacaniana, vol. 55, p.35-44.
MISSÉ. M (2021) “Entrevista: “Paradojas del género y de la diversidad sexual” in El Psiconalisis, Revista de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis, n. 37.
NOTAS
[1] Esse ponto é trabalhado por Sérgio Laia no artigo “Meninos e Meninas não são (ainda) homens e mulheres” https://www.encontrobrasileiro2016.org/sergiolaia
[2] O cartel contou com a contribuição do artigo de Sandra Espinha, “O sintoma e o corpo”, apresentado no NPPcri.