
Fazer-se um corpo
por Lilany Pacheco (mais-um)
Cartel: Bernardo Micherif, Cristiana Ferreira, Cristiana Pittella, Inês Seabra, Luciana Silviano Brandão, Marcelo Quintão, Maria José Salum, Rodrigo Almeida
O tema concernente a este eixo de nossa 25ª jornada está presente, já há algum tempo, nas conversações do campo freudiano, seja em atividades locais de cada seção e seus institutos, seja nas atividades das escolas que compõem a Associação Mundial de Psicanálise, seja em seus Congressos.
No Congresso da AMP que aconteceu no Rio de Janeiro em 2016, intitulado “O corpo falante: sobre o Inconsciente no século XXI”, pudemos escutar de Miller que a ênfase dada ao corpo no último ensino de Lacan não exclui o Inconsciente, uma vez que o falasser designa, a um só tempo, o sujeito e o inconsciente[1]. É nosso desafio, portanto, nos dedicarmos às formalizações do último ensino de Lacan e transmitirmos os ecos deste em nossa experiência como psicanalistas de orientação lacaniana, ou, ainda, como escreveu Miller, analisar o falasser é o que já fazemos; resta-nos saber dizê-lo[2].
Estamos imersos em um mundo repleto de uma diversidade de manifestações sintomáticas nas quais o corpo está em evidência, como o uso de drogas; a pornografia; o culto à aparência; o exibicionismo; as mais variadas intervenções no corpo; as manipulações estéticas ou cirúrgicas; a body art; o cutting; os esportes radicais; as técnicas cirúrgicas e hormonais para transformação de gênero; a medicalização disseminada apoiada na tecnologia médico-científica, na qual está em jogo a recomposição da imagem do corpo: a busca pela amarração da imagem ao gozo e suas inconstâncias.
Miller chamou esses fenômenos de “corporização” por tratar aí do corpo como superfície sobre a qual escrevemos, decoramos, pintamos, mas também o corpo onde ferimos a substância, mutilamos ocasionalmente e fazemos tantas outras operações nas quais se evidencia a corporização do significante. Trata-se da corporização contemporânea, sem o valor tradicional de formas outras de corporização significante existentes no laço social. Na corporização contemporânea destes tempos do Outro que não existe, o corpo tende a ser deixado ao abandono pelas normas, e, então, retorna como sede das invenções que tendem a responder à questão “o que fazer de seu corpo?”[3].
O que é um corpo?
Em “A tópica do imaginário”, ao inaugurar seu esquema ótico como formalização primeira do registro imaginário, Lacan demonstra que a urbild, a imagem através da qual o Eu se constitui, implica na operação capciosa de colocar um buquê real (sabendo-se o que a imagem real na fotografia é tal qual o arco-íris que vemos no céu) em um vaso virtual. Tarefa inacabada, a qual o falasser terá que se ocupar por toda a sua vida, tendo em vista que há sempre algo desse buquê real que resiste em se alojar nesse vaso virtual. Como destacou Miller, nesse esquema de Lacan em O seminário, livro 2, o germe do falasser já estava lá[4].
O último ensino de Lacan promove uma recondução do tema do imaginário: “O corpo, como corpo falante, muda de registro”. Já não se trata mais do imaginário especular, implicando redefinir o imaginário. A afinidade entre o corpo e o imaginário é reafirmada no ensino de Lacan sobre os nós. A construção borromeana enfatiza que é pelo viés de sua imagem que o corpo participa, primeiro, da economia do gozo.
O “amor-próprio” é o princípio da imaginação.
O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem. Na realidade ele não o tem, mas seu corpo é a sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. Já é um grande milagre que ele subsista durante o tempo de sua consumação, que é de fato, pelo fato de dizê-lo, inexorável. Ela, a consumação, não é reabsorvível[5].
A adoração é a única relação que o falasser tem com seu corpo e, nas palavras de Lacan, o mistério do corpo falante[6] é, sobretudo, o da união da fala com o corpo[7].
Linguagem e corpo
Fala-se sozinho e nunca se diz senão uma mesma coisa, uma única e mesma coisa que, em suma, atrapalha, daí sua defesa[8]. Uma única e mesma coisa que atrapalha quando a alíngua é interrogada como linguagem[9].
A alíngua serve para coisas inteiramente diferentes da comunicação[10]. É o que a experiência do inconsciente mostrou, no que ele é feito de alíngua, essa alíngua dita materna, e não por nada, dita assim. A linguagem é o que se tenta saber no que concerne a função de alíngua[11], registro singular do trauma da língua, uma vez que é aí que o trauma da língua escreve o que não cessa de não se escrever como letra de gozo no corpo que acontece.
As pulsões são, no corpo, o eco de um dizer[12]. A esse dizer, para que ressoe, para que consoe, é preciso que o corpo lhe seja sensível. É um fato que ele o é. Porque o corpo tem alguns orifícios, os quais o mais importante é o ouvido, porque ele não se pode tapar, se cerrar, se fechar, dirá Lacan em O seminário, 23, e é por esse viés que, no corpo, responde ao que ele chamou de voz. Vejamos como um AE da Escola Una testemunhou a incidência da voz como letra de gozo em seu corpo.
Ele tem cinco anos. Está brincando. Ouve seu pai cantar e tocar piano. Um amigo de seu pai, que toca violino, está de pé ao lado do piano e escuta seu pai. Esse analisando, que se tornou analista, disse que a criança que estava brincando no chão é, naquele momento, essa voz. “Ele é a voz”. Ele é impressionado e capturado por essa voz que canta. É muito importante que esse sujeito tenha enfatizado que ele não ouvia a letra da música, ouvia somente a voz. Foi naquele instante que, de fato, ele se tornou essa voz. E é notável que justamente esse psicanalisando tenha dito que as palavras que seu pai estava cantando, ele as ouviu como se fossem uma língua estrangeira. Essa cena de sua infância saiu do esquecimento no momento em que ele se perguntava por que havia escolhido viver entre duas línguas: a língua espanhola e a língua francesa. Às vezes, acontece-lhe ter a impressão de não saber qual é a língua que ele fala, de não compreender a língua que fala. Assim, um dia, em sua análise, não teve outra escolha a não ser perguntar ao seu analista: “Senhor, diga-me, qual é língua que eu falo?”. Essa interrogação quanto à língua que ele fala foi esclarecida quando a lembrança daquela cena lhe veio à memória. Ele não sabia mais que língua falava porque ele era a voz do pai. Ele não dizia nada. O gozo do pai toma corpo nessa voz no instante em que a criança é capturada por ela[13].
Lacan toma de Platão a forma do corpo como um saco vazio que, com sua potência de cativação, incha. Como demonstrá-lo? Há um ponto de partida. Toda demonstração é sustentada para demonstrar o imaginário que ela implica. O saco, tal como configurado na teoria dos conjuntos fundada por Cantor, manifesta-se, ou mesmo demonstra-se ser merecedor de ser conotado por uma mistura de 1 e de 0, único suporte adequado ao que confina o conjunto vazio que se impõe nessa teoria. Daí a inscrição S1, cuja leitura Lacan especificou com S índice 1. Ela não constitui o Um, mas o indica como podendo nada conter, como podendo ser um saco vazio[14].
Nem por isso o saco vazio permanece um saco, ou seja, isso que só é imaginável pela ex-sistência e pela consistência que o corpo tem, de ser pote. É preciso aprender essa ex-sistência e essa consistência como reais, posto que apreendê-las é o real[15]. É por causa da forma que o indivíduo se apresenta troncho, como um corpo[16]. E esse corpo tem uma potência tal de cativação tal qual testemunhamos em nossa experiência como psicanalistas ante os impasses verificados em cada caso, quanto a deixar ex-sistir o corpo que se crê que é para ter um corpo que, como escreveu Lacan no Seminário 23, não se evapora; está aí a consistência, mas ele sai fora a todo instante.
O saber do Um revela, então, não vir do corpo, e por pouco que possamos saber disso, vem do significante UM que não é um qualquer entre os outros. S1, esse um, essaim, o enxame, significante mestre, é o que garante a unidade, a unidade da copulação do sujeito com o saber. O “significante Um” não é um significante qualquer — ele é a ordem significante[17]. Longe do corpo, existe a possibilidade do que Lacan chamou de ressonância ou consonância. É no nível do real que essa consonância pode ser achada. Em relação a esses polos que o corpo e a linguagem constituem, é o real que faz o acordo[18].
Ao homenagear Robert e Rosine Lefort, Miller afirmará que a relação direta do real com o real, sem passar pelas embrulhadas do verdadeiro, está na clínica com crianças, em especial com a criança bem pequena, e, mais particularmente, no que tange ao que esses dois designaram como o nascimento do Outro. Mas como o Outro não está lá desde sempre? Não nascemos do Outro, do banho de significantes? Não, é o Outro que nasce! O Outro se constrói a partir do Um-corpo, daí a transmissão dos Lefort de que o autismo diz do estado nativo do sujeito, uma vez que o falasser designa, a um só tempo, o sujeito e o inconsciente[19].
O Um encarnado na alíngua é algo que resta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, mesmo todo o pensamento. É o “significante Um” que Lacan ousa ilustrá-lo, ele mesmo o diz em O seminário 20, como um pedaço de barbante, no que ele faz essa rodinha, cujo nó possível, com uma outra rodinha, começa a se esboçar[20].
O caráter fundamental da utilização do nó por Lacan é ilustrar a triplicidade que resulta de uma consistência que só é afetada pelo imaginário, de um furo fundamental proveniente do simbólico e de uma ex-sistência que, por sua vez, pertence ao real. É preciso apreender a consistência e a ex-sistêcia como reais mostrando a homogeneidade do imaginário com o real[21]. De outro lado, a linguagem não é ela mesma uma mensagem, mas se sustenta apenas pela sua função do furo[22].
O nó qualificável de borromeano é insolúvel, sem que se dissolva o mito do sujeito — do sujeito como não suposto, isto é, como real que não torna mais diverso do que cada corpo que assinala o falasser, cujo corpo só tem estatuto respeitável, no sentido comum da palavra, graças a esse nó[23].
Ecos no corpo: acontecimento[24] [25] [26]ou fenômeno?
Em Biologia Lacaniana[27], Miller toma para si a sorte de definir o sintoma como acontecimento de corpo, definição que ele extrai de Joyce, O sintoma[28]. Miller toma aí a distinção feita por Lacan entre ser um corpo e ter um corpo de modo a distinguir o acontecimento de corpo de todas as corporizações e generalizações relativas aos fenômenos de corpo, tal como ele o fez na Conversação Embrulhos do Corpo[29].
Se o último ensino de Lacan oferece a noção de acontecimento de corpo, como pensar o fenômeno de corpo situado no seu primeiro ensino como elemento decorrente da forclusão do falo? Há uma releitura desses fenômenos a partir da noção de acontecimento de corpo e demais ressonâncias do último ensino de Lacan em nossa experiência?
A conversação preparatória relativa ao Eixo 1: “Fazer-se um corpo”, permitiu que recolhêssemos a partir de fragmentos de nossa experiência a ênfase de Lacan sobre o gozo que supõe um corpo, um corpo vivo, que não é a imagem especular e que se define pelo impacto da língua no corpo e o diverso de cada corpo que assinala o falasser.
Referências
LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
LACAN, J. O seminário, livro 24, inédito. mimeo.
LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
MILLER, J-A. “Falar com seu corpo”. In: Opção lacaniana, n. 66, 2013,
MILLER, J-A. “A psicanálise liquida”, lição 11. In: Todo mundo es loco. Grama Ediciones, 2016.
MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004.
MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016.
NAVEAU, P. “O gozo do pai e o desejo da mãe”. In: Revista Curinga, n. 15/16, abril de 2001. Belo Horizonte: EBP – MG.
[1] Perspectivas do seminário 23. LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 120-121.
[2] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016, p. 26.
[3] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 66.
[4] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016.
[5] Ibidem, p. 64
[6] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 178.
[7] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016, p. 25.
[8] LACAN, J. O seminário, livro 24, inédito.
[9] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 196.
[10] Ibid., p. 188.
[11] Ibid., p. 189.
[12] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 18.
[13] NAVEAU, P. “O gozo do pai e o desejo da mãe. In: Revista Curinga, n. 15/16, abril de 2001. Belo Horizonte: EBP – MG.
[14] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 19
[15] Ibid.
[16] Ibid.
[17] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 196.
[18] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, 40.
[19] Perspectivas do seminário 23. LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 120-121.
[20] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, 196-197
[21] Ibid.
[22] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, 32
[23] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p.37.
[24] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 66.
[25]MILLER, J-A. “Falar com seu corpo”. In: Opção lacaniana, n. 66, 2013, p. 11.
[26] MILLER, J-A. “A psicanálise liquida”, lição 11. In: Todo mundo es loco. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2016.
[27] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 49
[28] – “deixemos o sintoma o que é: um acontecimento de corpo ligado ao que “l’on l’a, l’on l’a de l’air, l’on l’aire, de l’on l’a” (LACAN, 2003, p. 569) (…) “temos, temos com ares de… a gente o areja, disso que temos” (…) “Isso pode até ser cantado, e Joyce não se privou de fazê-lo.” LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003, p. 565.
[29] Miller, J.-A., e alii, “Conversation sur les embrouilles du corps”, Bordeaux, 1999, Ornicar?, n°50, 2002, p. 235.